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Artistas brasileiros ocuparam as redes sociais para defender restrições às bets e denunciar o impacto das plataformas sobre endividamento, saúde mental e relações familiares. O movimento, batizado de Dê Block no Tigrinho, foi lançado como uma forma de enfrentamento às bets, promovendo uma necessária discussão sobre os impactos negativos dessas plataformas, que deixaram de ser apenas econômico ou regulatório e devem ser encarados como político, social e de saúde pública.

Com um vídeo impulsionado por nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Chico Buarque, Marieta Severo, Paulinho da Viola, Camila Pitanga, Alinne Moraes, Emicida, Letícia Sabatella, Sandra de Sá, Baco Exu do Blues e outros vários importantes nomes do meio artístico nacional, a campanha alavanca o debate público em torno das apostas digitais, focando nos efeitos coletivos das plataformas, sobretudo entre pessoas endividadas, famílias vulneráveis e usuários em situação de dependência.

A mobilização, coordenada pelo 324 Artes (liderada por Paula Lavigne) se apresenta como “um movimento pelo fim do bet predatório no Brasil” e convoca pessoas com grande alcance nas redes a somarem seguidores contra a expansão do setor. A campanha sustenta seu discurso em números alarmantes: 1,8 milhão de brasileiros endividados por apostas em 2024, R$ 143 bilhões retirados do varejo entre 2023 e 2026 e 1,4 milhão de pessoas com transtornos associados às apostas online.

Segundo a iniciativa, 86% das pessoas enxergam as bets como nocivas, 70% concordariam com uma proibição total e 76% defendem limitações à publicidade do setor. Além da mobilização simbólica, o movimento disponibiliza materiais digitais para que apoiadores multipliquem mensagens de conscientização nas redes.

A adesão de figuras históricas da cultura brasileira robustece a pressão sobre um modelo de publicidade frequentemente criticado pelo uso de celebridades e influenciadores digitais na promoção de promessas de lucro rápido. O chamado “jogo do tigrinho” se consolidou, nos últimos anos, como um símbolo desse fenômeno: plataformas associadas à ideia de dinheiro fácil, impulsionadas por criadores de conteúdo e frequentemente vinculadas, no debate público, a denúncias de endividamento, dependência e suspeitas de fraudes.

A cantora Anitta, a artista com maior número de seguidores no Instagram, em manifestações recentes, criticou a expansão das casas de apostas no país, afirmando que as bets atingem sobretudo famílias mais vulneráveis e defendeu restrições à publicidade do setor. Publicações nas redes sociais passaram a vinculá-la ao grupo de nomes que ajudaram a impulsionar o alcance da campanha.

Enquanto artistas se mobilizam para reduzir a visibilidade das apostas, parte das maiores celebridades do país segue associada comercialmente ao segmento.

O caso mais recente envolve Neymar. Após semanas de expectativa sobre sua convocação para a Copa do Mundo de 2026, o atacante do Santos publicou, logo após a confirmação de sua presença entre os selecionados, um vídeo promocional de uma casa de apostas. Em vez de comentar a convocação ou reagir ao retorno ao Mundial, o jogador apareceu nos stories incentivando seguidores a acessarem a plataforma.

“Fala galera, vou trazer uma novidade para vocês. Entra lá no site da (não citaremos o nome da bet), acesse o código, e se divirta. Mas lembrando, hein: só maiores de 18 anos”.

É óbvio que todas as pessoas com um mínimo de bom senso questionaram o uso de um momento de grande visibilidade para divulgar uma atividade nociva, sobretudo diante do alcance do jogador nas redes sociais. Comentários publicados após o story associaram a publicidade ao agravamento do endividamento de famílias pobres e criticaram o papel de celebridades na legitimação das plataformas.

A reação também aproximou Neymar de outra figura frequentemente associada ao debate sobre apostas: a influenciadora Virginia Fonseca, que ocupa o lugar logo abaixo de Anitta na quantidade de seguidores nas redes sociais. Convocada pela CPI das Bets em 2025, Virginia compareceu ao Congresso para prestar esclarecimentos sobre sua atuação na divulgação de plataformas de apostas. Na ocasião, negou lucrar diretamente com perdas de seguidores e afirmou ter recebido apenas pagamento fixo por contratos publicitários.

O depoimento ocorreu meses após a divulgação de reportagem da Revista Piauí apontando a existência de cláusulas comerciais que preveriam remuneração vinculada ao desempenho financeiro de apostadores. O tema se tornou um dos focos da CPI, que terminou sem aprovação de relatório final após resistência parlamentar ao texto apresentado pela relatora, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS).

Apesar do encerramento frustrado da comissão, Virginia agora é investigada pela Polícia Federal, segundo informações tornadas públicas recentemente também pela Piauí, em apuração voltada à legalidade de movimentações financeiras relacionadas às suas empresas e à origem de recursos movimentados. O caso ganhou novos contornos diante da dimensão de sua influência digital: com cerca de 56,6 milhões de seguidores no Instagram, Virginia figura entre as mulheres de maior alcance do país e ocupa espaço central nas dinâmicas de circulação de conteúdo nas redes.

O Governo Federal tem agido para mitigar danos relacionados às apostas. Uma das ferramentas é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão que permite a usuários bloquear, de uma só vez, todos os sites autorizados de apostas, tornar o CPF indisponível para novos cadastros e interromper publicidade direcionada. O sistema também reúne orientações sobre saúde mental e acesso a serviços do SUS voltados ao tratamento do jogo problemático. O presidente Lula já se pronunciou diversas vezes afirmando que, se dependesse de sua vontade pessoal, as bets seriam proibidas no Brasil.

A campanha Dê Block no Tigrinho ajuda a evidenciar a separação do joio do trigo entre as pessoas que ocupam postos de influenciadoras públicas no Brasil. De um lado, estão “celebridades” que (nem entraremos no aspecto do valor artístico ou desportivo), para benefício próprio, agem pela legitimação de uma indústria que destroi indivíduos e famílias. De outros, Artistas com A maiúsculo, que honram o papel que ocupam na sociedade combatendo ativamente um modelo de negócio construído para prejudicar o público.

O Uruá-Tapera têm orgulho de, mesmo com o assédio diário através de diversos canais de contato, nunca ter aceitado anuncios de plataformas de apostas. Somos um portal pequeno, de verba limitada, porém com a profunda convicção de que nenhum dinheiro do mundo é capaz de pagar a consciência tranquila de que não contribuímos para um mecanismo torpe de destruição financeira, pessoal e familiar.

Para acessar o site oficial da campanha, clique aqui.

Para acessar a plataforma de autoexclusão dos sites de apostas, clique aqui.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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