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Cheguei recentemente de uma viagem de aproximadamente duas semanas. Estive em Portugal, onde não canso de estar e onde sonho em passar, num futuro não tão distante e se Deus seguir bondoso comigo, parte dos anos que me restam, outonos e invernos preferencialmente. Trouxe de lá, desta feita, ou encontrei ao chegar, algumas impressões dignas de registro nesta modesta coluna.

Além de Lisboa visitei Tomar, fundada em 1160 pelo Mestre Templário Gualdim Pais, sede de um dos mais belos monumentos históricos portugueses, guindado à condição de Patrimônio da Humanidade: o Convento de Cristo. Passei ainda por Viana do Castelo, bem mais ao norte, às proximidades da fronteira da Galícia, fundada em 1258, território de outro belíssimo edifício monumental lusitano: o Santuário do Sagrado Coração de Jesus, no alto do Monte de Santa Luzia, 250 metros acima do nível do mar, descortinando uma vista magnífica da Costa Atlântica do Alto Minho Português.

Tomar e Viana do Castelo são cidades pequenas, com algo em torno de trinta a quarenta mil habitantes, mas são muitíssimo organizadas, agradáveis, bonitas e, sobretudo, limpas, limpíssimas, asseadas mesmo; e nesse particular chego então à primeira e infeliz impressão digna de nota: Belém está horrorosamente imunda, negligentemente suja, impunemente infestada de lixo.

A mim bastou cumprir o trajeto do Aeroporto de Val-de-Cans até a minha residência, no bairro do Umarizal, trafegando pela Rodovia Arthur Bernardes, para constatar os níveis absurdos e alarmantes de incompetência e ineficiência na coleta e tratamento do lixo a que estamos submetidos. O cenário é revoltante, para dizer o mínimo. São toneladas de detritos, dejetos e resíduos orgânicos espalhados às margens da pista, tomando as calçadas, criando um ambiente insalubre e malcheiroso totalmente incompatível com um município que ostenta o status de capital do Estado do Pará e que pretende bazofiar, utopia ufanista arruinada, a condição de Metrópole da Amazônia.

É uma realidade inaceitável a que não podemos nos acostumar. Não merecemos isso, não fazemos por onde, ainda que à prefeitura seja conveniente acusar a população, sobretudo das áreas periféricas e da margem dos canais, de depositar indevidamente o lixo nos logradouros públicos. Essa balela já não convence ninguém, eis que o problema atinge a cidade indistintamente, colapsando a cena sanitária em todos os bairros e distritos municipais.

Amo Belém, nasci e me criei aqui, mas confesso que me sinto abandonado enquanto munícipe; admito que, a esta altura da vida, contando mais de 50 anos, quase 53 para ser mais exato, já dou sinais irreversíveis de um cansaço que, infelizmente, tem como consequência a vontade de ir embora, de residir em local que retribua melhor, a mim e aos meus, os deveres que cumprimos enquanto cidadãos.

Não tenho ilusões ou lampejos de arrogância. Se a mudança um dia ocorrer tenho convicção de que falta alguma farei à Belém, e que falta imensa e dolorosa ela me fará. Mas para tudo há limites. Perdida num deserto de ideias, um areal estéril criado por sucessivas e pouco inspiradas gestões municipais, algumas catastróficas, a cidade parece vagar sem vocação econômica efetiva, sem projeto de progresso urbano, satisfeita por administrar (ou fingir que administra) o caos instalado no transporte coletivo, na saúde, no tratamento de esgoto, na manutenção do patrimônio histórico, na educação e num sem número de outros setores relevantes e essenciais.

Ultrapassada há muito em todos os rankings de eficiência administrativa, desenvolvimento e qualidade de vida, Belém assiste inerte o crescimento de municípios que por décadas sequer a ombreavam, vários deles localizados no norte e nordeste do país. Se estendermos o leque ao centro-oeste e especialmente ao sul e sudeste, o desnível toma proporções cosmológicas, o que bem explica o já perceptível êxodo de boas cabeças tupiniquins para outros países e para outros estados brasileiros, notadamente para São Paulo e Santa Catarina.

Se ainda há esperança, ela por certo reside numa interferência ainda mais aguda do Governo do Estado, visivelmente empenhado em dotar a capital de novos equipamentos urbanos, como é o caso do Parque da Cidade, do Porto Futuro, das Usinas da Paz e da Nova BR; notoriamente comprometido com o aumento da visibilidade nacional e internacional do Pará e de Belém, como atesta a COP 30 marcada para 2025. Da Prefeitura Municipal, in contrariam partem, não se pode esperar muita coisa, a um pela inaptidão executiva dos seus gestores, a dois pelo desanimador orçamento anual, em muito comprometido com o custeio da emperrada e obsoleta máquina pública, sobejando pouco ou quase nada para investimentos.

Uma segunda nota vai para a urgente e imperiosa necessidade de ampliação, modernização e otimização do nosso combalido aeroporto. Entrar e sair de Belém por Val-de-Cans transformou-se num exercício de disposição, paciência e tolerância ao qual apenas nós, paraenses, estamos dispostos. O mau tratamento dado ao turista, seja ele de negócios ou de lazer, é cartão postal que não o incentiva a voltar. Panes constantes no sistema de ar condicionado, número insuficiente de funcionários (em sua grande maioria monoglotas), instalações antiquadas e desconfortáveis, demora excessiva em procedimentos corriqueiros de segurança, embarque e desembarque e uma gestão jocosa do estacionamento, entre outras queixas, tem sido comuns e rotineiras a ponto de um conhecido jornalista da terra ter cunhado uma expressão curiosa e pertinente para referir-se ao aeródromo – “sucatão” (eloquente, não?).

Por último, last but not least, percebi um número interessante de turistas europeus vindo à cidade. Perto de mim, no voo Lisboa-Belém, pelo menos uns dez estrangeiros, franceses, portugueses e alemães chegando na cidade. Bom sinal? Certamente sim, a tornar ainda mais premente a solução dos problemas que, tal como eu, eles também encontraram ao chegar. Belém merece mais, muito mais, e precisamos todos insistir, persistir, acreditar e querer bem – “Bembelelém, viva Belém…”.

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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