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Depois de um final de semana que pareceu um filme, entre virose, perdidos e achados, resolvi abrir o portal de notícias mais lido do Brasil para me atualizar do que está rolando. Destaque: escândalo daqueles que não aguento mais nominar. As jóias. Ah, mas foram presentes pra mulher. Sei. Essa nova. Passa. Apesar do título lembrar o de uma das aventuras do Tintin, não dá. Não tenho mais saco. Estou a fim de me alienar. Ah não, quero ler as notícias. Aff. Ok. Rolo a tela para baixo, até chegar nos destaques. Na coluna de jornalismo: uma mulher grávida de oito meses morta a tiros. Suspeito: o pai do bebê. Na coluna de esporte: uma menina, adolescente, morre após acidente de motocross. O vídeo do momento está disponível para quem quiser ver. Sim, no portal com maior acesso do Brasil. Na coluna de entretenimento: uma ex-dançarina da TV pede “empatia” por ter engordado quinze quilos. Com direito a fotos de antes e depois. Os seguidores das redes sociais aguardam ansiosos para julgar o crime.

Amanhã é o Dia Internacional da Mulher. Todo mês de março é assim. Tão logo começa, vêm os discursos, as frases de efeito, as homenagens, as mil e uma promoções em todas as áreas possíveis e imagináveis do mercado. Tudo isso para nós, mulheres. Oba. E, como fomos ensinadas, agradecemos, aproveitamos. Sim, merecemos um mimo. Uma forra. Um desconto. Um band-aid que tape bem a ferida. Essa ferida que nunca sara. Que por mais que conquistemos mais e mais nossos protagonismos e façamos valer o direito mínimo à equidade em cada vez mais espaços, não para de doer. Mesmo que doa menos em mim do que na minha semelhante, ela está lá, estampada nas manchetes mais importantes e estapafúrdias, onde sempre a mulher é culpada, violentada, explorada, revitimizada. Se for mulher, pode apertar para sangrar mais e mais.

Assumir-se como vítima cansa, e isso porque eu – apesar de bem teoricamente saber – nem imagino de fato como era viver no corpo de uma mulher décadas, séculos, milênios atrás. Incluir todas as mulheres num bem-querer é pessoalmente difícil, afinal de contas nem toda mulher é boa, assim como nem todo homem pode ser taxado de mau (apesar de, quando ele assim é, quem leva o xingamento é quem o pariu – ou seja, uma mulher). Não quero ser vítima. Não quero escrever sobre. Não quero dar palestra sobre. Não quero mais me sentir no dever de ir para as ruas porque, segundo a última estimativa da ONU, cerca de oitenta e uma mil e cem mulheres e meninas foram mortas intencionalmente no ano de 2021, e em 56% dos casos por familiares ou parceiros íntimos. A taxa mundial de feminicídio é praticamente a mesma, todo ano, na última década. No Brasil, a cada sete horas uma mulher ou menina é vítima de feminicídio. Aonde for, o lugar mais perigoso é o lar.

É que o que aparece nos noticiários não são casos distantes, com aquela sensação de “vi esta história num filme”. Conheço de muito perto mulheres que foram espancadas. Mais de uma vez. Por várias pessoas. Até mesmo grávidas. Que foram estupradas. Até mesmo por seus parceiros. Pessoas com deficiência. Por conhecidos da família. Menores de idade que sofreram todo o tipo de violência por não terem orientação e nem o que comer. Que foram sequestradas, que tiveram seus filhos sequestrados. Que tiveram seus filhos arrancados pela esdrúxula promessa de um futuro melhor, comprado pelo dinheiro. Que foram assediadas no trabalho. Que perderam o trabalho por não aceitarem assédio. Que não conseguiram um trabalho por serem mulheres. E eu fico pasma por nada, nunca nada disso ter acontecido comigo, como se tanta barbárie fosse o normal. Quer dizer, dessas formas mais graves, porque algum tipo de assédio, violência psicológica, misoginia, isso eu não tenho medo de categoricamente afirmar: não existe uma de nós que nunca tenha sofrido.

E aí, todo ano é a mesma coisa: amanhece o dia 8 de março e são flores, reais e virtuais, em homenagem a nós, que somos filhas, mães, irmãs – mas nunca simplesmente nós mesmas para sermos merecedoras de respeito, de recebermos nossos direitos, igualitariamente. Mas não vale a pena passar uma imagem de revoltada, não é mesmo, manas? Poxa, tudo isso é para nós, mulheres. Oba. Feliz Dia Internacional da Mulher. E, como fomos ensinadas, agradecemos, aproveitamos. Sim, merecemos um mimo. Uma forra. Um desconto. Um band-aid que tape bem a ferida. Essa ferida que nunca, nunca sara. E nem para de sangrar.

Imagem: Freepik

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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