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Washington Olivetto, um dos mais geniais publicitários brasileiros, vivendo em Londres, escreveu em O Globo, onde tem coluna a cada duas semanas, que o Rio de Janeiro precisa urgentemente usar a Bossa Nova como gatilho de turismo mundial. Precisa relançar discos importantes, abrir clubes noturnos com shows do gênero, publicar livros sobre o movimento, enfim, se apropriar da Bossa Nova, por ser o local onde surgiu e floresceu. No mesmo dia, o ótimo Joaquim Ferreira dos Santos chorou a gentrificação ao contrário do bairro de Ipanema, lendário como lugar de charme, elegância, bem viver, cultura, um verdadeiro oásis brasileiro. Gentrificação ao contrário porque quase sempre, quando isso se dá, é para transformar áreas abandonadas em lugares melhores, mas com isso afastando ainda mais para longe, a população de baixa renda. Lembrou que antes, Copacabana reinou e foi motivo de versos, livros, música, filmes, tudo. É que agora, fecharam as livrarias. Da última vez em que lá estive, antes da pandemia, já não encontrei nada do que antes era o grande chamariz para turistas. Desapareceram teatros de rua, cinemas, livrarias, bares charmosos, restaurantes, dando lugar a um comércio caracterizado por redes de farmácias. Muitas vezes tive a impressão que todos aqueles cariocas, felizes, elegantes, moças lindas, eram figurantes pagos para manter o clima do lugar. Afinal, eu estava de férias e eles? De manhã, à tarde, passeando nas ruas, conversando nos botecos e restaurantes de calçada, como o Jobi, no Leblon. Sim, sei perfeitamente que somente os turistas talvez bastassem para encher os lugares e os shoppings em footings e compras. Mas cariocas, com aquele sotaque preguiçoso, de ampliar as vogais e seus “shhhh”, chiados, como nós paraenses, são inconfundíveis. Aparentemente, cariocas só não conseguiram destruir a geografia da cidade, que permanece maravilhosa. Toda aquela cultura hedonista, da contemplação à beleza da vida e do viver se foi. Os filhos dos ipanemenses, criados na praia e circulando pelo bairro, casaram ou não, mas precisaram mudar-se para locais mais baratos, conforme sua recente vida profissional. E tudo ficou mais triste. Meu irmão prefere a Barra, para mim, outra cidade, uma Miami com seus largos espaços e prédios gigantescos. Lá não sei me movimentar, fico perdido. O Leblon também está indo embora. Uma pena.
E se falo do Rio de Janeiro, com tristeza, entristeço-me ainda mais com a nossa Belém. São muitos anos de destruição. Outros muitos anos para sua recuperação. Todos dizemos que amamos a cidade, mas tudo fazemos para destruí-la. Restrinjo-me, por questão de espaço, à Presidente Vargas, antiga 15 de Agosto, avenida que inclui o prédio onde nasci e passei a maior parte da minha vida. Quando me entendi como pessoa, ainda tinha piso de parelelepípedo. No dia em que asfaltaram, desci para andar de bicicleta no asfalto. Havia um caminhão pintado de verde vendendo carne e uma carrocinha puxada por cavalo vendendo leite. Havia o prédio da Booth Line lá no começo, arquitetura inglesa, bonito por dentro e por fora. Havia a sede da Tuna Luso, em frente à Praça da República. Havia um imenso buraco onde foi o Café Chic e levantaram o monstrengo do Basa. Havia o Grande Hotel. Pulei carnaval e assisti a eventos no Palace Teatro. O Olímpia estava lá. Assisti e cheguei a dançar carnaval de escolas de samba. Torcia pelos Boemios da Campina e depois virei Quem São Eles. Desde janeiro, aos domingos, milhares de blocos carnavalescos desfilavam, vindo de todos os lugares, apenas para passar na avenida. Há o Círio, que nunca perdi. Meus pais, meus irmãos, sempre juntos. Os desfiles escolares de 5 de setembro e o dos militares dois dias depois. Papai Noel que “descia de paraquedas de um helicóptero” nos altos do Renascença e descia passando de andar em andar e jogando balas para a criançada lá embaixo. Isso tudo acabou.
Derrubaram o prédio da Booth e veio um monstrengo da Caixa Econômica. Um edifício que era do INSS está abandonado. O Cine Palácio é uma igreja que anuncia aos berros sessões “descarrego”. O prédio da esquina com a Manoel Barata, onde funcionou famoso café, o Hotel Central e até a Rádio Clube, antes do Palácio do Rádio, agora é uma loja de departamentos. Do outro lado, prédio gigantesco, belo, lindo, hoje cheio de lojinhas de bugigangas em seu térreo. E as cozinhas ao ar livre. Na esquina da Ó de Almeida, o glorioso edifício Bern, abandonado, apodrecendo. No quarteirão do edifício Renascença, havia outro prédio começando na esquina da Aristides Lobo, também detonado. Em frente à praça, onde derrubaram tudo, agora está vazio o prédio onde era o Bradesco. Na esquina da General Gurjão, outro belo prédio apodrecendo. Ao lado do Olimpia havia casas lindas e grandes, que tiveram atividades, até clubes, antes de serem demolidas. Enfim, uma avenida que apodreceu. Abandonada. Triste. Em ruínas. E no entanto, enorme trânsito diário se verifica ali. As pessoas passam e parecem não ver. Outras, como Calvino diria, pensam que o mundo começou no dia em que nasceram. Não têm idéia, nem querem ter, de quem passou por ali, da história daquele lugar. E se não têm passado, sobrevivem a cada dia do presente, com futuro duvidoso. Onde estão organismos ricos e importantes como Caixa Economica, Banco do Brasil, INSS, Correios, Bradesco, Lojas Americanas e quem mais se apresentar, que em nada contribuem com a Cultura, com a Memória do lugar? Todos, em outras cidades, não apenas em Rio e SP, mantém centros culturais aproveitando prédios antigos, mantendo-os limpos, dignos e funcionando, seja com exposições, filmes, peças teatrais, shows musicais. E com isso, além de devolver à cidade um pouco do tanto que tiram, ainda faturam com o prestígio que somente a Cultura pode dar. Mas, não. Aqui nada funciona. Ninguém dá bola. Ninguém ama Belém. Parece que se dependesse de todos nós, sairíamos correndo da cidade. Não, não amamos Belém, definitivamente.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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