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O Dia Nacional do Livro Infantil (18 de abril) homenageia Monteiro Lobato, e deveria servir como manifesto sobre o poder transformador da palavra. Para uma criança em situação de vulnerabilidade social o ato de ler tem dimensão política e humanitária: ele é o remo que permite navegar para além das margens, é escudo e horizonte. Em comunidades onde o acesso a direitos básicos é escasso, o livro infantil atua como agente de intervenção social. Ele não apenas alfabetiza, rompe o ciclo da invisibilidade. Ao oferecer narrativas nas quais a criança se reconhece — em sua cor, em sua floresta, rios e costumes — o livro devolve a dignidade e o senso de pertencimento. A literatura infantil funciona como laboratório emocional, preparando os pequenos para lidarem com as adversidades do real por meio da fantasia.

No Pará, estado de belezas colossais, dimensões amazônicas e abismos sociais profundos, com índices de analfabetismo que desafiam o desenvolvimento humano, a formação de leitores não pode ser passiva e o livro tem que ser itinerante. Ele deve chegar no casco da canoa, na mochila do ribeirinho e na biblioteca comunitária da periferia urbana. Formar leitor em solo paraense é um exercício de soberania. Uma criança que lê questiona, compreende a importância da preservação de seu território e não aceita o silenciamento. Fomentar autores regionais que narrem a Amazônia para crianças amazônidas, investir em bibliotecas públicas que funcionem como o “coração” das comunidades, é proporcionar a letra que liberta.

O Pará deve assumir o compromisso de que nenhuma criança seja deixada à deriva pelo analfabetismo. Que a leitura seja o solo firme onde nossos pequenos caboclos, indígenas e quilombolas possam plantar seus sonhos. Afinal, o livro é a força da consciência. Ler é, sobretudo, o direito de existir plenamente, um refúgio, ferramenta de identidade, elevador social. Ver-se refletido em histórias que valorizam a ancestralidade fortalece a autoestima. A leitura amplia o vocabulário e a capacidade de articulação, ferramentas essenciais para que o menino e a menina reivindiquem direitos.

Quando o acesso à escola depende de horas em um barco ou quando a fome física grita mais alto que a sede de saber, o livro acaba ficando em segundo plano.

Por que focar no público infantil? Porque a infância é a fase de plasticidade, em que o hábito é moldado. Transformar o Pará em um estado de leitores exige bibliotecas vivas, espaços que não sejam depósitos de livros velhos, mas centros culturais pulsantes, com mediadores de leitura: professores e voluntários que saibam que ler é, antes de tudo, um prazer compartilhado; políticas de acesso, superando o isolamento.

Precisamos converter o analfabetismo em cidadania plena. Quando entregamos um livro a uma criança, estamos oferecendo a ela o mapa de um tesouro que ninguém pode roubar: o conhecimento.

Que nossas crianças não aprendam só a decifrar letras, mas também a ler as entrelinhas da vida, para que possam escrever, com as próprias mãos, uma nova história para a Amazônia.

O livro infantil é a semente. O solo paraense é fértil. Só precisamos garantir que a água da educação chegue a todos, sem distinção.



Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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