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No ensejo do 365º aniversário de Santarém, falarei um pouco de Wilson Fonseca na condição de pesquisador da história e na qualidade de poeta trovador, quando ele se manifesta sobre a sua longa tarefa de fixar a data exata de fundação da terra querida, não apenas quando foi elevada à categoria de Vila, em 14 de março de 1758, ou à categoria de cidade (Município), em 24 de outubro de 1848, mas desde a sua origem, como aldeia missionária, por seu fundador, o Padre João Felipe Bettendorf (* Luxemburgo, 25.08.1625; † Belém-PA, 05.08.1698), enviado pelo Padre Antônio Vieira, jesuíta (Companhia de Jesus), que chegou à “Pérola do Tapajós” (Santarém-PA) em 22 de junho de 1661.


Para chegar às suas conclusões, Wilson Fonseca – depois de enfrentar muita polêmica sobre a questão e árduas pesquisas perante várias fontes e diversos órgãos, como o Conselho Estadual de Cultura, Academia Paraense de Letras, Museu Histórico e Geográfico do Pará, Biblioteca do Senado de Washington (USA) – foi até Roma, na Itália, por correspondência, inclusive a que manteve com o Dr. Deoclécio Redig de Campos, paraense ali radicado e que exercia o cargo de Diretor Geral dos Monumentos, Museus e Galerias Pontifícias do Vaticano, em agosto de 1976, “cuja ajuda valiosíssima foi o ponto de partida para levantar o véu e decifrar o enigma”.


Isoca publicou na imprensa de Belém e de Santarém vários artigos sobre o tema e elaborou sérios estudos denominados “Fundação de Santarém”.


Sobre o tema escreveu Wilde Fonseca – Maestro Dororó (“Santarém: Momentos Históricos”, 4ª ed., 1990, Gráfica e Editora Tiagão, Santarém-PA, p. 20/21), irmão de Wilson Fonseca:


1661 – FUNDAÇÃO DE SANTARÉM


Em maio de 1661, os Padres Tomé Ribeiro e Gaspar Misch vieram visitar os índios Tapajós, por determinação do Padre Antônio Vieira, que era o superior dos jesuítas na região. Começava assim Vieira a cumprir o que prometera aos índios.


Os missionários foram festivamente recebidos pelos silvícolas que, acompanhados de suas mulheres e filhos, ofertaram presentes aos enviados de Vieira. Estes, em retribuição, também deram presentes aos índios.


Os Padres Tomé Ribeiro e Gaspar Misch passaram apenas alguns dias entre os Tapajós, onde celebraram a festa da Ascenção do Senhor, regressando em seguida para o Xingu, onde residiam.


No mês seguinte (junho) chegava o missionário que vinha para ficar.


O Padre João Felipe Bettendorf estava em trabalhos de catequese às proximidades de Belém, quando foi chamado por seu superior, o Padre Antônio Vieira, de quem recebeu ordens para transferir-se para o Rio Tapajós e ali instalar missão, tendo por sede a aldeia dos Tupaiús, que ficava na embocadura do rio. Bettendorf trouxe em sua companhia o irmão leigo Sebastião Teixeira, indicado por Vieira como conhecedor da língua indígena.


Narra Bettendorf em sua crônica: “já chegamos depois das festas do Espírito Santo e fomos recebidos dos índios daquela populosa aldeia com grande alvoroço e alegria”.


A festa do Espírito Santo em 1661 recaiu a cinco de junho. Como Bettendorf relatava que aqui chegou depois das festas do Espírito Santo, cuidadosa pesquisa feita recentemente revelou que a data da chegada de Bettendorf à aldeia dos Tapajós foi 22 de junho.


(Esta pesquisa foi realizada por Wilson Fonseca, que possui copiosa documentação sobre o assunto, inclusive com depoimentos de fontes do Vaticano. O Instituto Storico della Compagnia de Gesu, de Roma, assim se manifestou, conforme documento em mãos do pesquisador: ‘La festa della Ascensione nell’ 1661 fu il 22 maio, quella della Pentecoste il 5 giugno il P. Bettendorf, com il fratello Sebastiano Teixeira, arrivó allá missione del fiume Tapajós il 22 giugno 1661’).


O estabelecimento da missão de Bettendorf revestia-se de enorme importância, pois não tinha só o cunho religioso, mas também o político. O historiador Artur Cezar Ferreira Reis, em sua obra ‘SANTARÉM: seu desenvolvimento histórico’ diz: ‘O plano da missão dos Tapajós não compreendia, exclusivamente, a conversão ou ajuda espiritual àquele grupo do gentio local, mas perseguia objetivo territorial muito mais vasto – estendia-se ao mais dilatado sertão (…) A aldeia dos Tapajós, transformada em sede de missão católica, passava a servir de cabeça-de-ponte para a penetração a longa distância. Significava, pois, marca política para a expansão que sendo espiritual, não deixava, também, de ser política”.


Algumas notas sobre Bettendorf:


João Felipe Bettendorf nasceu em Luxemburgo, pequeno Estado independente da Europa ocidental, no dia 25 de agosto de 1625.


Na Itália, estudou e graduou-se em Direito Civil e em Artes.


Já formado, ingressou na Companhia de Jesus (jesuítas) aos 22 anos de idade, ampliando notavelmente seus conhecimentos, a ponto de tornar-se dono de uma vasta cultura, além de falar vários idiomas. Era também pintor e poeta.


Atendendo a um convite de Padre Antônio Vieira, veio para o Brasil, aonde chegou, no Maranhão, a 20 de janeiro de 1661 (algumas fontes referem o ano de 1659 como o da chegada de Bettendorf ao Brasil), iniciando imediatamente sua vida missionária. Foi logo mandado para Belém, dedicando-se a viagem de catequese entre as aldeias próximas.


Designado pelo Padre Vieira para fundar missão na aldeia dos Tapajós, situada à foz do grande rio, lá chegou a 22 de junho de 1661. Sua fundação deu origem à cidade de Santarém. Assim narra Bettendorf em sua crônica: “… fomos para o Tapajós, onde havia de fazer minha residência, conforme a ordem do Padre Superior e Visitador, Antônio Vieira”.


Foi superior das Missões, de 1669 a 1674, e de 1690 a 1693.


Morreu em Belém (PA), a 5 de agosto de 1698, aos 73 anos.


Wilson Fonseca compôs o Dobrado nº 28 – “Bettendorf” (1983), em homenagem ao fundador de Santarém. A partitura da música foi encaminhada à terra natal do homenageado.


Enfim, Santarém comemorava a sua data magna em 24 de outubro, quando foi elevada à categoria de cidade (1848) e, depois, passou à Vila (1758), muito embora já existisse pelo mesmo desde quando foi fundada como aldeia missionária (1661).


Em suma, a mudança na fixação da data magna da fundação de Santarém como aldeia missionária, em 22.06.1661, pelo Padre João Felipe Bettendorf, oficializada, afinal, pela Lei Municipal nº 9.270, de 02.07.1981, resulta de pesquisas histórias empreendidas por Wilson Fonseca (Maestro Isoca), cuja síntese, inclusive com ilustração documental, está publicada no seu livro Meu Baú Mocorongo (coletânea de 6 volumes), impresso por RR Donnelley Moore (SP) e editado pelo Governo do Estado do Pará (2006).


Nesse livro, com quase 2.000 páginas de pesquisas, recordações e reflexões sobre a vida histórica e sociocultural de Santarém e da Amazônia, Wilson Fonseca narra o seguinte:


“Desde a minha adolescência eu vinha acalentando o sonho de desvendar a incógnita que cercava a nossa ignorância sobre o dia da fundação de nossa cidade, que levava todos à comemoração do seu aniversário em 24 de outubro, data que registra a sua elevação à categoria de cidade em 1848. Os nossos historiadores esbarravam diante de quaisquer obstáculos e não demonstraram interesse no aprofundamento de suas pesquisas. Por já ter sido publicado o meu estudo com as suas conclusões, não farei referências aos detalhes nele contido. Para alcançar aquele meu desiderato, contei com estímulos, dentre outros, dos Drs. Carlos Raimundo Lisboa de Mendonça e Emir Bemerguy e de meus irmãos Wilmar e Wilde Dias da Fonseca, além de meus filhos.


Acendi a fogueira e com disposição e confiança toquei para frente a cruzada até desmanchar o nó górdio. Poderia ter desistido a meio caminho, como outros o devem ter feito, porque as contestações ao meu ponto de vista, que não foram poucas, logo se manifestaram. O meu saudoso amigo João Bento Veiga dos Santos, criterioso nas suas conclusões, aceitava pacificamente o mês de junho e o ano de 1661, mas descartava o dia 22 encontrado, porque não referido em trabalhos de quaisquer historiadores, nem mesmo Paulo Rodrigues dos Santos ou Arthur César Ferreira Reis em seus livros recém-publicados. O Dr. Augusto Meira Filho, também interessado no esclarecimento, fincava pé no dia 14 de março de 1758, quando Santarém foi elevada à condição de Vila pelo então Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado que nessa condição lhe deu o nome de SANTARÉM. Com ele troquei várias cartas e artigos em jornais de Belém e de Santarém. Chegou a chamar de casmurro ao santareno, por não aceitar a sua sugestão, numa trova de 1º.06.1979. Respondi no mesmo diapasão sob o título “Certidão de idade de Santarém”. Não sou versejador, mas assim trovei, em 14.07.1979 pelas mesmas colunas de “A Província do Pará”…


E Wilson Fonseca ilustra sua narrativa com um belo poema, em forma de trovas, com dez estrofes, a seguir transcritas, o que demonstra que Isoca, ao contrário que ele, modestamente, afirmava, além de historiador também era inspirado poeta, que enriqueceu não apenas o cancioneiro santareno, com suas belas músicas – muitas com letras dele próprio –, como também a literatura e a história santarena, a exemplo destes bem-humorados versos sobre a gênese de sua terra tão querida, fonte sua arte e de suas pesquisas:


“CERTIDÃO DE IDADE DE SANTARÉM”
Versos de Wilson Fonseca
(Santarém-PA, 14.07.1979)


De Tapajós batizada,
Santarém depois crismada,
Nossa terra vive inteira,
Há três séculos já passados,
Pela ação dos devotados
Seguidores de Vieira.


Desde a idade primeira
“Tens Maria por Padroeira”
Como recorda a canção.
Reavivemos a memória,
Corrijamos a História
“Santarém da Conceição”.


Muitos querem bem mais longa
A História mocoronga.
Já fiz apelos, também,
A cada ano que passa
E às vezes fico sem graça:
A data certa não vem!


Quando Furtado regou
A Flor que o padre plantou,
Muitos frutos já colhiam
Os Corrêa, os Pereira
E mais gente pioneira
Que pela gleba morriam!


Quem quer furtar de Mendonça
– Homem forte que nem onça –
Louros de data recente?
Pois muito umbigo enterrado,
Antes de vir o Furtado,
Já tinha a terra da gente!


Meira Filho assim te canta:
“Santarém… cidade santa”
(Que verdade tão bacana!…)
“No verde do Tapajós
Tu vives dentro de nós
No sangue que nos irmana”.


“Santarém cidade santa”
A verdade não me espanta
Por ser clara como a luz,
Pois nasceste para nós
Às margens do Tapajós
Sob o signo da Cruz!


“O ano cinquenta e oito
Do setecentos afoito”
E o vinte e quatro de outubro
Noventa anos depois,
São eventos bons, os dois,
Mas outro maior descubro.


Corria mil e seiscentos,
Século de muitos eventos
– Sessenta e um o ano era –
Quando pisou alva areia
Da populosa Aldeia
O enviado de Vieira.


Mês de junho está bem certo
– Vinte e dois ou dia perto –
Esta é a data que convém
Para o teu aniversário!
Bettendorf – o Missionário
Fundador de Santarém!…
_____________________


*Transcrito do livro “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, de minha autoria, impresso na Gráfica do Banco do Brasil (Rio de Janeiro), 2012, em homenagem ao centenário de meu saudoso pai.


Nota de atualização: em 22 de junho de 2021, ao ensejo das comemorações dos 360 anos de fundação de Santarém, compus a música para este belo poema e dei à canção o título de “SANTARÉM – CERTIDÃO DE IDADE”, disponível no Youtube:
https://youtu.be/DAXIt5LLFRg


As contingências de tempo e lugar são intransponíveis. Cada um de nós, por exemplo, nascemos e morremos num certo dia e em determinado lugar, em regra.


O Brasil não nasceu com esse nome, em 22 de abril de 1.500. Inicialmente, o nosso país foi batizado de Ilha de Vera Cruz. Depois, passou a chamar-se Terra de Santa Cruz. E, finalmente, Brasil.


O Brasil somente seria um “país independente” a partir de 7 de setembro de 1822, pois antes era simples colônia de Portugal.


Mais importante do que a estrutura política do “Estado” é a história do povo, da sociedade que o habita.


Há “Vilas” mais interessantes do que “Cidades”. Exemplo: a bela Vila de Alter do Chão, dentre outras.


O simples fato do “nome” ser Vila de Santarém, em 1758; e depois “Cidade” de Santarém, em 1848, não significa que a nossa comunidade já não existisse pelo menos desde 1661, quando foi fundada como “Aldeia Missionária” dos Tupaiús (Tapajós), pelo Padre João Felipe Bettendorf, jesuíta enviado pelo Padre Antônio Vieira, muito embora na “Pérola do Tapajós” já existissem povos originários ou indígenas há milênios, como todos sabem.


Porém, estou curioso para saber desde quando, com alguma precisão possível e comprovada adequadamente, os nossos “povos originários” habitavam a nossa querida “Pérola do Tapajós”, em Aldeias ou quaisquer outras comunidades identificadas como grupos sociais humanos, quem sabe até anteriores aos valentes tupiaús.


Para aqueles, conservadores e burocratas, que somente aceitam “provas documentais” ou sinais escritos nos padrões da atual “civilização”, parece quiçá difícil essa importante missão histórica.


O certo é que a nossa TERRA QUERIDA não tem apenas 268 anos – quando se tornou uma Vila – ou 178 anos – quando alcançou a categoria de Cidade, como alguns apregoam -; mas, sim, possui, no mínimo, 365 anos, contados de sua fundação como Aldeia Missionária, importante marco religioso, político, social e histórico, sem desprezar os milênios anteriores à sua fundação por Bettendorf, em 22 de junho 1661, que, data venia, não se restringe a mera “convenção arbitrária”, pois resulta de árduas pesquisas, especialmente realizadas, por longos anos, por meu pai, Wilson Fonseca (Maestro Isoca), conforme registrado em seu livro “Meu Baú Mocorongo”, a justificar a edição da Lei Municipal 9.270, de 02 de julho de 1981, que oficializou aquele dia como a data magna da querida Santarém.


A data de 22 de junho de 1661, como o dia oficial de “fundação” da nossa TERRA QUERIDA, está definida e oficializada, com respaldo em exaustivas pesquisas.

Vicente Malheiros da Fonseca
Vicente José Malheiros da Fonseca é Desembargador do Trabalho de carreira (Aposentado), ex-Presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (Belém-PA). Professor Emérito da Universidade da Amazônia (UNAMA). Compositor. Membro da Associação dos Magistrados Brasileiros, da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região, da Academia Brasileira de Direito do Trabalho, da Academia Paraense de Música, da Academia de Letras e Artes de Santarém, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, da Academia Luminescência Brasileira, da Academia de Música do Brasil, da Academia de Musicologia do Brasil, da Academia de Música do Rio de Janeiro, da Academia de Artes do Brasil, da Academia de Música de Campinas (SP), da Academia de Música de Santos (SP), da Academia Paraense de Letras Jurídicas, da Academia Paraense de Letras, da Academia Brasileira de Ciências e Letras (Câmara Brasileira de Cultura), da Academia Brasileira Rotária de Letras (ABROL) - Seção do Oeste do Pará, da Academia de Música de São José dos Campos (SP), da Academia de Música de São Paulo, da Academia de Música de Presidente Prudente, da Academia Brasileira de História, da Academia de Música da Amazônia, da Academia de Filosofia do Brasil, da Academia de Musicologia de São Paulo; da Academia de Musicologia do Rio de Janeiro; da Academia de Musicologia de Campinas; Academia de Música de Minas Gerais; Academia de Belas-Artes e Poesia do Estado de São Paulo; Academia de História do Estado de São Paulo; Academia Nacional das Letras do Brasil; Academia Mundial de Cultura e Literatura; Academia de Letras do Estado de São Paulo; Academia de Filosofia do Estado de São Paulo; Academia de Música de Porto Alegre; Academia de Música de Curitiba; Academia de Música do Ceará; Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Pará. Membro Honorário do Instituto dos Advogados do Pará. Sócio Benemérito da Academia Vigiense de Letras (Vigia de Nazaré-PA). Sócio Honorário da Academia Paraense de Jornalismo.

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