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A dança sempre foi uma simulação do ato sexual? Acho que não. Se formos às danças primitivas, indígenas ou africanas, vemos que têm motivações diferentes. Não tenho preparo técnico para discutir profundamente, mas já na Europa, tomando informações nos filmes de época, no lado ocidental, vemos aquelas danças como uma representação de um flerte, entre homens e mulheres. Cenas de bailes na corte de Luiz XVI. Balé é outra coisa. Arte. Meu filho é bailarino e corre mundo dançando balés contemporâneos maravilhosos. É outra coisa. Quando me entendi como gente, havia o cheek to cheek, o “dançar junto”, que era uma rara possibilidade de tocar o corpo de uma mulher, respeitosamente, claro, mas com certos apertos, digamos, na medida, lógico, da permissão de cada um dos dançarinos. Garotos, ansiávamos pela possibilidade de tirar a garota dos nossos sonhos para dançar, colar o rosto. Levávamos “pau na testa” quando nos respondiam “estou cansada” e nos faziam recuar humilhados e derrotados para mais uma dose de cuba libre. Quando veio a “discotheque”, foi a partir da black music, com melodias fantásticas e uma batida irrecusável. E como dançávamos? Nós, rapazes, péssimos, parecíamos títeres nos balançando ao sabor do titereteiro. As meninas, com sua natural graça, algo sensual, mas dentro de limites. Mas começaram, nas músicas, juntamente com a liberação de costumes, a incluir palavrões e sugestões sexuais, nada mais como “voulez vous coucher avec soi, c’est soir”, mas com palavras bem claras. O rap desceu com idéias políticas e sexuais. Nas discotecas, a música eletrônica deixou de lado as letras e investiu em rápidos refrãos e um ritmo alucinante. Como se voltássemos às danças tribais onde o ritmo hipnótico era mais importante. Grandes artistas americanas saltaram à frente com letras e danças bem lascivas. E as pistas de dança se tornaram uma exibição clara de posições sexuais. Aqui no Brasil, essa mistura americana com o funk brasileiro, trouxe letras como “estou atoladinha”, “quero uma boa sentada”, “até embaixo, até embaixo”. Pronto, veio a “bundança”. Com a nossa miscigenação, praticamente todos nós temos sangue negro e a disposição do balanço, do requebrado, mas está ficando feio. Uma cantora aparentemente simula está em uma ginástica em uma sequência de “apoios”, mas na verdade está praticando sexo, com outra pessoa. Esse BBB que está passando e conta com mulheres comuns, jovens frequentadoras de shows e festas, é um show de “bundança”. Curvam-se até o limite da flexibilidade e empurram o “derrière” para trás, empinando e balançando, no que já não é graça, beleza e sim uma oferta claramente sexual. Quando maior a abertura de pernas e o empinar da bunda, sentem-se mais adequadas. Será? Não vou dar uma de velho e me queixar de tudo, mas mesmo na simulação de atos sexuais, é preciso alguma graça. A bundança é horrível, humilhante para mulheres. Ah, é tudo uma brincadeira de jovens, não seja chato. Será? E as músicas pedindo sentada, atoladinha e vai descendo. Meu amigo dj lamentava um dia desses ter sido contratado para a festa de uma menina de 14 ou 15 anos com a obrigatoriedade do som ser funk. Imagino todas com suas bundinhas empinadas, perdendo seu charme, elegância e postura. Seu velho, sai daí e deixa as meninas se divertirem. Também fui jovem. Tive os hormônios explodindo ao ver as moças. É certo que alguns costumes foram se liberando e afinal, o sexo é algo natural, ao contrário dos preconceitos de antes. Mas acho que a estética, a graça, beleza e elegância das mulheres está acima de certas “bundanças”, sabe.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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