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CARMEN PALHETA – Editora Labrador

Quando lancei o livro “Crônicas da Cidade Morena IV” há uns dois ou três anos, pedi ao amigo Marcos Quinam para fazer uma seleção das crônicas que publicaria no trabalho. Eu vinha escrevendo semanalmente para um jornal de Belém e considerava difícil fazer escolhas. Crônicas são flashes do cotidiano, lembranças, acontecimentos que de repente parecem interessantes para contar. O deadline nos empurra a escrever e driblar “brancos” ou a síndrome do papel em branco sem qualquer idéia, que atinge a maioria dos escritores. Mas o que mais me espantou após a seleção ser feita e enviada foi o tamanho da exposição pessoal que os cronistas deixam acontecer. Assustado, percebi que entregara aos leitores sentimentos bem pessoais, opiniões, acontecimentos familiares, de maneira a fazer deles parte da minha vida, digamos assim. Pressionado pelo deadline, em uma aproveito o Dia das Mães para contar como minha mãe procedia, nas festas juninas, como eu brincava na minha casa, nas férias, tudo o que eu fazia em Mosqueiro, entre infância e adolescência, meus sonhos, minhas viagens, meus medos das minhas escritas. Pensei se não teria aberto demais a intimidade. Eu escrevera como quem conversa consigo mesmo, assuntos bem pessoais, agora públicos totalmente. Ao encontrar um estranho, me confessa ser leitor e passa a discorrer coisas que um estranho não saberia de mim. Um susto.

Carmen Palheta, que se diz minha ex-aluna (infelizmente não lembro), parente do amigo Nélio Palheta, lança “A Borboleta Azul”, tão importante que pousou em suas costas, em forma de tatuagem. Curioso como alguém que trabalhou por trinta anos na Polícia, mantenha-se tão doce, tão humana em suas crônicas. Passamos a conhecer a menina que no recreio do colégio, ao invés de brincar de pira, ficava rabiscando, ensaiando futuros textos. Conta-nos segredos e até mesmo situação limite em que se viu, a partir de um sonoro tapa, dado por um imbecil qualquer, já esquecido. De sua infância, sua mãe e a paixão pelo pai, cujo luto foi também motor das crônicas. Um texto leve, às vezes bem feminino, outras simplesmente boas, desnudando seu mundo onde cabe sobretudo a poesia e a beleza de quem hoje sabe o que quer e escreve para iluminar a todos nós.

“A menina de onze anos dias desses me visitou. Dei-me conta que sem aquele primeiro poema eu talvez não tivesse despertado para outras narrativas dentro de mim. O trivial é o que, afinal, faz a vida acontecer. Há alguns anos tatuei uma borboleta azul nas costas. Borboletas precisa de lugar para pousar e repousar. Para mim, esse lugar é a escrita”.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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