Publicado em: 29 de junho de 2026
Com o intuito de encontrar algumas manguinhas para refazer a capa do livro “Crônicas da Cidade Morena”, agora em seu quinto volume, pus-me a caminhar pela Praça da República, que conheço desde que nasci, onde vivi grandes momentos da vida. Não achei nada. Meu amigo Alvino, aquele da banca de revistas, me diz que ainda não é época. Devo esperar lá por setembro. Pronto, pensei, o livro está adiado para setembro. Aproveitei para caminhar naquele túnel belo, feito com as árvores, o piso cheio de folhas mortas, amarelas, faltando varrição. Caminho sobre as pedras portuguesas que fazem o calçamento. Sempre há pedras descoladas que podem resultar em uma topada. Antigamente, o piso era somente cimentado e eu passava velozmente em minha bike, feito um Senna em busca de um pódio imaginário. Há o prédio do ICA, da Ufpa. Quando criança, era a Escola de Quimica e uma vez, com colegas, entramos pela janela e roubamos alguns tubos de plástico, sem mais serventia. Será que esse crime já prescreveu? Havia ali próximo, também um sanitário público, bem sujo. Então vem o Teatro Waldemar Henrique que foi prédio da Associação Comercial e também agência da Caixa Econômica. Foi preciso uma campanha feita pelos artistas para retirar uma agência de viagens que ocupava um pequeno mas significativo espaço na sua entrada. Ali vivi grandes momentos como autor de peças. É uma pena que hoje sua fachada não conte com iluminação, nem sua porta principal, parecendo que as atrações são misteriosas, coisa para poucos, que entram por uma porta lateral, escondidos. Agora chego ao final da praça. Há a Banca do Alvino, que conheço desde a inauguração. Do outro lado da Presidente Vargas, havia casas antigas, uma delas sendo a sede da Tuna Luso, então Comercial, mais o edifício Piedade. Atravessei para a calçada do prédio do INSS, que já foi dos Comerciários e na esquina, havia uma loja RM, de Rômulo Maiorana, que acho, vendia roupas masculinas. Nos apartamentos dos prédios, muitos amigos de aventuras. No térreo, ainda, creio que havia o restaurante Florida, de alguma fama. Do outro lado, térreo do Edifício Renascença, terceiro ou quarto construído em Belém, havia a Salevy, loja que era uma espécie de shopping center da época, propriedade de Samuca Levy, a quem conheci muito bem. Havia a Revistaria dos Irmãos Esteves, onde meu mano Edgar comprava o que chamam hoje de HQs de cowboys e outros heróis. Havia o Foto Galeria, c na esquina com a Aristides Lobo, a loja Amazônia, que vendia artigos regionais. Atravessando havia o prédio dos Correios, a banca de revistas do Plínio e inúmeros tabuleiros vendendo de um tudo, como diria Edwaldo Martins. Do outro lado, um então terreno baldio e o edifício Bern, outro dos primeiros de Belém, com seus andares ocupados por consultórios médicos e o térreo com uma agência da Western Telegraph Company, do tempo dos telegramas. Atravessamos a Ó de Almeida para o Edifício Palácio do Rádio, outro construído pelo engenheiro Judah Levy. Tenho fotos que mostram, antes, o terreno baldio, a cerimônia da pedra fundamental, como os antigos gostavam e o prédio onde trabalhei uma vida inteira. No térreo, havia a loja Mundial, com seus vendedores amigos de todos, havia também agências de bancos e farmácias, uma agência chiquérrima da Varig até a esquina com o Cinema Palácio, mais de mil lugares, dois andares, muito bonito, onde tantos filmes construíram meus conceitos sobre Arte, sobre Vida. Do outro lado, da Presidente Vargas, havia o hotel Avenida e depois, a Barbearia Avenida, toda espelhada, onde éramos forçados a cortar os cabelos, já que nossa idéia era tê-los como os dos Beatles. Os profissionais eram todos muito simpáticos, como, na esquina com Manoel Barata, a Casa Vesúvio, creio de portugueses ou italianos, não sei, uma espécie de mercearia onde havia de tudo. Sim, refazer esse caminho é um grande passeio ao meu passado. Não gosto do que vejo hoje. As calçadas estão estragadas, camelôs não apenas ocupam, mas poluem a passagem, há muitas lojas fechadas, abandonadas e mesmo as que estão abertas são feias, com produtos baratos ofertados, e a passagem de uma multidão que caminha pelo centro da cidade, muitos parecendo não ter realmente compromisso de chegar a um destino. Edyr Augusto Jun 26Publicado em Uruatapera
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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