Publicado em: 2 de junho de 2026
Um homem passa o dia sentado em uma cadeira, em frente uma casa antiga, em uma das ruas de maior tráfego, durante o dia, em Belém. Passo por ali, de carro, às vezes de dia, às vezes à noite. Aparentemente tem mais de 60 anos, ou as vicissitudes o deixaram parecendo mais velho. A tal casa já foi, tempos atrás alugada pela prefeitura e abrigava pessoas carentes, isso eu sei. Por isso, nos primeiros dias, pensei que de alguma maneira ele estava ali como vigilante, porteiro, algo assim. Mas, não. A cadeira parecia a de um escritório, mas ele não trocava de roupa e à noite, permanecia ali, olhar perdido no horizonte. Cabelos passando da hora de cortar, barba há dias sem fazer. Roupas sujas. E aí, como o Globo Repórter, já me perguntava o que comia, de onde tinha vindo, a razão para estar ali, dia e noite. Tenho uma especial atração por esses habitantes da rua, que parecem perdidos, não na cidade, mas perdidos em si, caminhando a esmo, sem se dar conta do mundo que os cercam. Quase todos têm histórias de vida interessantes. Queixas para fazer. Se os contactamos, virá uma torrente de lamentos, algumas poucas alegrias e a pele deteriorando exposta às intempéries. Cai a chuva, ficam ensopados e deixam secar as roupas no corpo. As horas passam. Que horas? O que vão comer, descansar. Para quem vão voltar. Hoje passei e havia uma novidade. Primeiro, a cadeira foi trocada, ou roubada. Agora era dessas de plástico, que vemos em bares. A segunda é que havia recebido um trato. Já vi, na internet, jovens que vão até essas pessoas e ofertam um banho, asseio completo, corte de barba e cabelo, roupas, sapatos, uma bela refeição e alguma coisa, como uma caixa de bombons para que saia vendendo e tenha algum dinheiro. Será que foi isso? Roupas novas, sapato, cabeça raspada e barba também. Mas lá ele está, sentado, olhando o infinito, na frente da mesma casa. De dia, naquela loucura do trânsito e à noite, uma profunda solidão. Li um livro de Cormac McCarthy, seu primeiro livro sobre alguém que em dado momento, resolve sumir da família. Vai até uma cidade, ocupa um barco abandonado, pesca alguns peixes diariamente e leva até um açougue que os compra por trocados, o suficiente para refeições frugais e a bebida diária. Tem o resto do dia para passear, reunir com amigos, saber histórias e vida que segue. Nossa vida cheia de compromissos, a espera pelo final de mês para pagar as contas e fiquei pensando em como seria não ter contas e ganhar apenas o necessário para alimentação. Um livro excelente. Mas a pessoa ali, sentada, solitária, deixando a vida passar à sua frente, esbarrar nela e deixar-se exposto. Será que sabe onde está? Estamos sempre tão ocupados que não prestamos atenção à nossa volta. Quando tive o Teatro Cuíra, ali na Zona, enriqueci muito com experiências de vida. Conhecer o outro. Ouvir, ouvir, agir em muitos casos. Estamos presos em nossas celas ambulantes, sem olhar para os lados, cheios de medos, perdendo o melhor da vida que é participar do mundo em que vivemos. Nossos fracos argumentos, a guarda do dinheiro, a individualidade, a falta de diálogo com as pessoas, a falta de compaixão, apesar de sairmos da igreja após orarmos e até comungarmos, como seres purificados. Ao pisar na rua, voltamos a ser os mesmos de antes. Esse homem está lá, sentado, dia e noite, à frente de uma casa antiga, fechada, exposto ao mundo que se nega a chamá-lo para esse carrossel em que vivemos.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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