Publicado em: 28 de junho de 2026
Jean-Paul Sartre (1905-1980), pensador símbolo do existencialismo francês, alcançou fama e respeito em razão da sua vasta produção intelectual. Passados mais de quarenta anos de sua morte, seus ensaios, romances, tratados filosóficos e textos teatrais seguem em evidência, atestando inteligência excepcional e um talento inaudito para compreender o comportamento humano.
Numa de suas obras dramáticas mais encenadas, o filósofo criou um universo mítico que, visto de hoje, em perspectiva, mais parece uma premonição, epifania profética restrita aos espíritos mais avançados, capazes de prenunciar o futuro a partir da percepção antropológica e holística do presente.
Trata-se de “Entre quatro paredes” (1944), um de seus mais afamados trabalhos, tido por muitos como uma síntese existencialista centrada no conceito sartreano de liberdade radical, segundo o qual a existência precede a essência, a significar que o ser humano nasce livre, compelido a exercer plenamente esta liberdade, carregando o fardo das suas escolhas pessoais – só por má fé se concebe que o homem seja movido por forças externas, influenciado por padrões sociais, exigências coletivas ou mesmo pelo destino, escusas vistas por Sartre como fraqueza, formas de fugir da culpa e do peso das próprias decisões.
Na peça três personagens morrem e são condenados a coabitar eternamente num salão austero e hermeticamente fechado, convivendo de modo incessante, sem interrupções ou descansos, em eterna vigília, observando-se e julgando-se mutuamente. Com o passar do tempo Garcin, jornalista e pacifista, Inês, mulher lésbica e cruelmente lúcida, e Estelle, jovem burguesa afeita às veleidades do mundo, são moralmente destroçados pela necessidade patológica de aprovação e chancela, ainda que para obtê-las seja preciso criar versões falsas e artificiais de si mesmos. É o indivíduo moldando-se a partir das impressões de seus semelhantes.
É deste texto que se extrai uma frase angular da obra do sábio parisiense: “o inferno são os outros”, sentença mal compreendida a que usualmente se atribui conotação caótica. Seu criador, todavia, jamais quis afirmar que toda convivência humana é infernal; pretendeu, isto sim, ensinar que o maior suplício consiste em nos tornarmos escravos da imagem que os outros têm de nós.
Se para Dante o inferno é um lugar de martírio moral e punição teológica, sina comum aos pecadores; para Sartre cuida-se não de um lugar, ou de um castigo, mas de uma condição essencialmente humana consubstanciada na ausência de liberdade que decorre da dependência do outro, da incapacidade de nos imunizarmos contra os julgamentos que fazem de nós. Enquanto o primeiro descreve o inferno como a arquitetura ideal da justiça divina, com sanções proporcionais às faltas cometidas, o segundo interpreta o reino dos abismos como o olhar escrutinador do próximo a nos devassar a alma.
Para o italiano o homem sofre porque pecou. Seu drama é vertical, vai dele ao Deus que o julga e condena. Para o francês, por seu turno, o sacrifício existe porque somos avaliados uns pelos outros, encerrando uma tragédia horizontal que vai do ser humano aos seus semelhantes, magistrados sempre implacáveis e impiedosos.
Na encenação Garcin ironiza a imagem popular do demônio, envolto em labaredas, impingindo torturas lancinantes, para então constatar a verdade: “(…) É inútil tentar escapar. Eu não te deixarei. O que você está procurando nesses lábios? O esquecimento? Mas eu não vou te esquecer (…), diz Estelle. – Nunca mais vai ser noite?, questiona Garcin. – Nunca, diz-lhe Estelle. – Você vai me ver pra sempre? – Pra sempre… (…) enxofre, fornalhas grelhas… Ah! Que piada. Não precisa de nada disso: o inferno são os outros.”
Em outro trecho contundente a personagem Estelle, perturbada pela inexistência de espelhos no salão onde cumprem a pena perpétua, o que a impede de cultuar a própria imagem, pede a Inês para olhá-la fixamente e dela se aproxima quase ao ponto do contato físico, buscando enxergar-se nos reflexos projetados nas córneas da interlocutora, metáfora riquíssima utilizada para sugerir a enorme e compulsiva sujeição da vaidosa jovem à opinião que outras pessoas têm a seu respeito.
Vale lembrar, para destacar a fina ironia sartreana, que Estelle busca encontrar-se nas córneas de Inês, mas talvez não tenha em conta que não é pelas córneas que Inês a enxerga, e sim pela retina, sobressaindo então que pouco importa como os outros nos veem e compreendem; mais nos vale saber como nos refletimos em seus olhos – a imagem fictícia, reflexo do ambiente, é cultuada para além da visão real e verdadeira.
Seis ou sete décadas depois de Jean-Paul Sartre ter escrito “Entre quatro paredes”, é chegada a era das redes sociais, tempo em que o olhar do outro não é somente aceito, ele é perseguido compulsivamente – o salão hermeticamente fechado criado pelo filósofo se transforma numa tela portátil, espécie de córnea digital que não nos escapa das mãos, nos sequestra o sono e nos mantém em vigília. Nela vivemos condenados a nos expor, uns mais outros menos, na medida exata da expiação do pecado preferido do demônio: a vaidade.
Nos projetamos nas telas para sermos vistos, aprovados, admirados ou absolvidos, como um Garcin atualizado, mais preocupados com a versão do que com a verdade, menos atentos a quem somos do que àquilo que os outros pensam de nós. As fotos não registram os momentos, suplicam por validação; as notícias não informam os fatos, pedem aplausos; a opinião não informa o pensamento, busca adesão.
É como se a existência se tornasse dependente das reações alheias, se os acontecimentos cotidianos necessitassem da homologação de quem deles não participou, ou como se à vida fosse imprescindível haver testemunhas. E assim, chegamos ao inferno antevisto por Sartre, círculo novo acrescido às trevas de Dante.
No texto do marido de Simone de Beauvoir a tragédia está em não haver espelhos, por isso Garcin, Inês e Estelle só se podem conhecer pelos outros. Na realidade moderna as redes sociais nos soterram sob milhões de espelhos, mas cada um reflete imagens diferentes, editadas, filtradas e melhoradas para atenuar angústias a cada dia mais preocupantes. A identidade pessoal se dilui, fluida e instável – nunca nos olhamos tanto e nunca nos conhecemos tão pouco, seres opacos afogados em superexposição, linchamentos públicos, cancelamentos sumários, indignação performática, esnobismo e egocentrismo, reproduzindo escárnio como se fora entretenimento.
Próximo ao final do espetáculo, Garcin sucumbe à pressão imposta por Inês, e em desespero suplica para que lhe abram as portas e lhe lancem às profundezas da mansão dos mortos: “Abram! Abram, vamos! Eu aceito tudo: as botinadas, os ferros, o chumbo quente, as pinças, o garrote, tudo que queima, tudo que estraçalha; quero sofrer pra valer. É melhor levar cem mordidas, chibatadas, ácido sulfúrico do que este sofrimento mental, este fantasma de sofrimento, que acaricia e nunca dói o bastante. Vocês vão abrir?
Subitamente as portas são abertas, mas Garcin se vê incapaz de deixar o salão, aceitando então o tormento que a eternidade lhe reserva. Assim são as redes sociais, portais desimpedidos que podemos atravessar quando melhor nos aprouver. O algoritmo não nos algema, mas infelizmente nos corrompe. Fechar o aplicativo, abandonar a discussão ou tornar a rotina mais discreta é algo sempre ao nosso alcance, mas a atração do precipício é feitiço sórdido e engenhoso – o problema de acostumar-se a olhar para o abismo está em que um dia, inadvertidamente, pode o abismo nos olhar em retorno.
Há solução? Quero crer que sim, e quero crer que passa pelo afeto e pela sensatez. Se nos podemos julgar e condenar, com algum rearranjo ético talvez nos possamos salvar. Fugir do inferno é desejo antigo da humanidade, e um dos caminhos pode estar no gesto concreto a que Saramago nos convoca num de seus poemas, escrito entre 1966 e 1970:
“Ao inferno, senhores, ao inferno dos homens,
Lá onde não fogueiras, mas desertos.
Vinde todos comigo, irmãos ou inimigos,
A ver se povoamos esta ausência
Chamada solidão.
E tu, claro amor, palavra nova,
Que a tua mão não deixe a minha mão.”
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista







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