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Nas costas oceânicas a maré cheia adentra a terra com fúria. Suas ondas bravias invadem as praias ou lançam-se violentamente contra os rochedos – ação épica e virildotada de uma potência plástica que faz rugir asinquietações do mundo, ecoando um estrondo rouco e contínuo que parece reivindicar para o mar a posse das margens.

Nas florestas tropicais mais remotas, porém, a maré cheia é silenciosa e delicada, sobe lentamente e lentamente penetra as matas, cobrindo com suavidade a vegetação rasteira, inundando as ribeiras para transformar terra firme em manguezal. Não há ruídos guturais, não se ouvem trovões, e sim um burburinho discreto, um borbulhar de água corrente e desapressada que retoma domínios sem soar trombetas.

Enquanto uma se impõe pelo choque e pela grandiloquência, a outra opera por infiltração, erodindo silenciosamente as resistências com que se defronta. Ao tempo em que uma explode e dramatiza sua presença, a outra não anuncia rupturas embora altere profundamente a paisagem.

Assim é também a literatura, assim são seus efeitos.

Ao lado de obras vigorosas, ambientadas em cenários grandiosos e protagonizadas por personagens memoráveis, narrando dramas, aventuras e romances monumentais, há livros que repousam quietos, austeros, falando baixo e comedidamente, em meio à penumbra, como quem sussurra um conto de fadas ao pé da cama da criança que busca adormecer.  

Não se imagine, contudo, que tais livros têm menos a dizer – não raro acontece o contrário. Sem pompa oucircunstância, essa literatura não busca reação imediata, não pretende chamar atenção e não surge como consumo cultural, e sim como abrigo ético, gesto de desaceleração civilizacional, escorrendo até o íntimo do leitor pelas fissuras de sua alma, sem tratar dos acontecimentos extremos, preferindo os processos mais silenciosos, o instante prévio ao colapso, o caminho anterior à descoberta.

Em enredos normalmente singelos, cotidianos e mais próximos do leitor, com personagens comuns que bem poderiam habitar a casa ao lado, trabalhar conosco ou frequentar os mesmos ambientes, esses livros existem exatamente para preservar pequenas zonas de interioridade humana, permitindo-nos escapar da dispersão constante em que estamos submersos – é a literatura a preservar estados de alma dos quais o mundo moderno vem abdicando.

Enquanto a realidade digital exige velocidade,simplificação, imediatismo, excesso de estímulos eopiniões instantâneas, embora usualmente rasas, a arte sugere a contemplação, a atenção ao detalhe, o destaque do excerto, a pausa e o fragmento, tudo isso a reverberar poesia e lirismo, possibilitando a permanência emocional do texto e a introjeção do seu significado mais pessoal.

São obras em que a força narrativa reside na ternura, na simplicidade, na capacidade de descrever com beleza situações que a maioria dos olhos veria como corriqueiras. São livros em que dores profundas são tratadas com leveza, sem excessos dramáticos ou lamentações cheias de retórica, retratando a vida tal como ela acontece a cada novo dia, porcelana rachada pelo uso, marcada por pequenas quedas, tropeços comezinhos, batidas indesejadas da louça fina na torneira da pia.

A fragilidade é transformada em linguagem para mostrar que há poesia nos desassossegos humanos, nos gestos mínimos, no silêncio das casas clareadas pela abertura das janelas do coração. É a literatura comprovando que o espaço doméstico comporta vasto manancial filosófico, e que o mais ordinário dos homens vive na beira de insondáveis abismos, em permanente risco de queda.

Sem maquiar ou abrandar o mundo real, mas também sem renunciar à delicadeza, aquilo que se lê reescreve uma infinidade de possibilidades. Diminui-se o volume da voz para que as palavras reverberem internamente, orientando as estratégias necessárias ao enfrentamento dos pequenos dilemas – os grandes são mais fáceis de combater.

Isso tudo tenho encontrado com enorme deleite na literatura brasileira, especialmente naquela produzida por mulheres, esses seres superiores que sabem bem mais do que sabem os homens, ao menos acerca do que verdadeiramente importa. Nesse contexto destaco três diferentes nomes, três autoras cujas companhias me têm sido valiosas – a primeira delas nacionalmente consagrada, de importância e relevância históricas, destemida e polêmica, expoente das letras nacionais; a segunda minha conterrânea, paraense como eu, descoberta recente e encantadora, fruto de garimpagem insistente em sebos da terra, eis que suas edições estão esgotadas; a terceira um furacão contemporâneo de talento e sensibilidade, escritora premiadíssima, digna de todos os holofotes já acesos e dos que ainda se acenderão para iluminá-la.

Isso tudo, todo esse volteio, toda essa divagação, apenas e tão somente para dizer-lhes que leiam Raquel de Queiroz, em Dôra Doralina e As Três MariasMaria Lúcia Medeiros, em Antologia de Contos e Céu Caótico; e Mariana Salomão Carrara, em Não fossem as sílabas de sábado e A árvore mais sozinha do mundo.

Essas admiráveis escritoras podem não ter tido a pretensão de esclarecer o fenômeno das marés – como sobem e descem em razão da força gravitacional da lua e do sol, combinada com a rotação da terra, em sizígia ou quadratura -, mas por certo lançam luzes sobre os nossos mais recônditos mistérios.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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