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É sabido que o conflito é mola propulsora do desenvolvimento, menos quando adquire contornos bélicos, gerando motins, guerras e revoluções, muito mais quando se traduz no embate de ideias, no choque de valores e costumes e, ainda, no estresse cultural que transforma lenta e pacificamente a sociedade, tornando ultrapassado e descabido o que outrora era regra moral, norma legal ou exercício tolerado de opressão e poder.

Enquanto lagoas tendem à quietude e placidez, o mar se faz forte e soberano exatamente porque qualquer singelo movimento, do salto de uma baleia à mudança brusca da direção de um vento, é capaz de gerar ondas monumentais que modificam paisagens e redefinem geografias, erodindo rochas sólidas pela resiliência de seus propósitos, para criar novos relevos.

Assim ocorre também o aperfeiçoamento das gentes do mundo, tanto mais perene e eficaz quando pacífico e resistente, promovido pela insurreição teimosa de homens e mulheres que trazem em si, inata e incondicionada, a capacidade de enxergar adiante, de perceber hoje o potencial oculto no amanhã, insubordinando-se contra o marasmo que nos prende ao ontem.

Esses inconformados rompem os grilhões do comodismo, da conveniência e do medo para refundar os paradigmas e arquétipos que nos moldam coletivamente. Não fossem os rebeldes, talvez ainda admitíssemos a escravidão, a distinção entre filhos, a subjugação feminina e a segregação das minorias. Não custa lembrar que a abolição conta apenas 138 anos; que até 1988 o Brasil classificava a prole como legítima, natural, adulterina e adotiva, restringindo-lhe direitos conforme a categoria; que somente em 1932 admitiu-se o voto das mulheres; e que há 16 anos o país não reconhecia a união homoafetiva.

É preciso estar atento e forte, como cantavam Caetano e Gil em 1968, alertando para a necessidade imperiosa de manter despertas as consciências, prontas para enfrentar o comodismo, o racismo, o machismo, o autoritarismo, o populismo, o cinismo e todos os outros ismos que nos condenam enquanto povo e nação, mantendo-nos à margem do progresso humano, socialmente adoecidos.

Nesse contexto, a arte tem papel fundamental, insubstituível até. Da ousadia dos artistas, da sua natural disposição ao novo, da sua capacidade criativa e da sua vocação contestadora nascem oportunidades concretas de aprimoramento comunitário. É a história a servir-se da arte como seu mais nutritivo alimento, sua força motriz.

E se é assim que a história caminha, buscando incentivo na coragem dos que desafiam as supostas certezas e pretensas verdades de seu tempo, em poucas fontes pode-se encontrar água tão farta e limpa como na literatura de Jorge Amado, notadamente nas suas personagens femininas, mulheres preciosas moldadas ao largo dos modelos tradicionais contemporâneos ao gênio baiano. Não são mulheres neutras, omissas, recatadas e subjugadas. São, isso sim, mulheres encantadoras porque assumidamente sensuais, livres, intuitivas e dispostas a conquistar espaços e direitos que lhes eram agressivamente negados, daí porque eram sempre vistas com desconfiança e desprezo pela moral oficial então vigente.

Gabriela aviltava os costumes reinantes em Ilhéus, assumindo seu prazer e sua liberdade sexual como fato comum da vida. Entendia haver uma norma segundo a qual só aos homens era dado experimentar diferentes paixões, diversas camas e ousados prazeres, mas não a obedecia. Dona Flor tumultuava a viuvez comportada das mulheres da época, ardendo em desejo e volúpia, gozando com cada marido o que de melhor lhe podiam entregar – a molecagem faceira e tentadora de Vadinho e o amor sereno e delicado de Teodoro. Tereza Batista, favorita e protegida de todos os Orixás, insurgiu-se contra a submissão feminina, tomando em mãos as rédeas da própria vida, insuflando à mesma luta todas as mulheres, fossem putas ou senhoras de família.

Em O Sumiço da Santa, Manela desorganiza a ordem religiosa e familiar, rebelando-se contra a terrível opressão imposta pela Tia Adalgisa. Em Tenda dos Milagres, Rosa de Oxalá introduz o sagrado africano numa elite branca e católica, avessa ao candomblé e à negritude. Lídia humaniza o dia a dia árduo dos pescadores, mostrando que é o poder atrativo da feminilidade que os leva ao mar, enfeitiçados por Iemanjá, e que os traz de volta à terra para o encontro caloroso com a mulher amada. E Dora, por fim, a doce e valente menina de Capitães da Areia põe ordem no caos, introduzindo afeto e cuidado no universo brutal e hostil dos meninos de rua.

Todas elas, mulheres de Jorge, equivalem a forças vitais da natureza, tempestades, vendavais, vulcões em erupção, dotadas de impressionante autonomia moral, impondo-se com inquestionável autoridade num ambiente eminentemente masculino, machista e misógino. Entre tantos coronéis, maridos, padres, fazendeiros, capatazes, jagunços e malandros, as mulheres de Jorge circulam com desenvoltura, sem medo, transformando em potência tudo aquilo que normalmente as cobriria de fragilidade: pobreza, sensualidade, mestiçagem, marginalidade, religiosidade atípica e absoluta independência.

O que Jorge Amado percebeu, como poucos o perceberam, é que nestas aparentes fraquezas escondia-se uma monumental energia civilizatória, ímpeto transformador em estado de ebulição, oriundo não dos atores sociais mais usuais, homens brancos, detentores de poder econômico e político, mas sim de mulheres invisibilizadas, retirantes, flageladas, cozinheiras, prostitutas, viúvas, órfãs, mães de santo, meninas de rua, todas elas distantes léguas e léguas dos centros tradicionais de poder.

Em Jorge Amado as mulheres parecem gerar, induzir ou comandar os conflitos, estão sempre entre o sagrado e o profano, o desejo e a castidade, a rua e a casa, o bordel e a família, o pecado e o perdão, a submissão e a liberdade. Estão sempre habitando as margens, e delas partem em direção ao centro dos romances, tornando-se a coluna de sustentação da literatura do escritor baiano, que com sagacidade, vidência e inteligência acima da média, comprovou por meio de suas letras que um país não se constrói apenas com políticos, empresários, doutores, trabalhadores e operários, não se constrói só com homens. Para edificar um país, e para edificar um homem, serão sempre imprescindíveis, inapelavelmente imprescindíveis, as mãos, o coração, o colo, a pujança e o afeto de uma mulher.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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