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Há coisas que nascem da pedra. Outras germinam da palavra.

A pedra fere a pele da terra e deixa cicatriz à vista. A palavra, porém, escolhe morada mais funda: instala-se nos silêncios, cria raízes na memória e floresce onde ninguém suspeita. Quando a palavra perde sua alma, a razão começa a anoitecer. E quando a razão se cobre de sombras, a memória desaprende os rostos e esquece o nome humano das coisas. Então o mundo se despovoa de reconhecimento e o ódio, como erva daninha, encontra chão fértil para crescer.

Porque há ruínas feitas de pedras. Mas as mais duradouras são aquelas que começam dentro da linguagem.

Certa vez procurei recordar qual teria sido a primeira ofensa que ouvi na vida. Não a primeira discussão, nem o primeiro palavrão, mas a primeira frase capaz de revelar que palavras podem ferir de maneira mais profunda do que muitos golpes. Descobri então algo inquietante: as pedras machucam o corpo no instante em que atingem; as palavras, ao contrário, podem atravessar décadas antes de revelar a extensão de seus danos.

O joelho ferido cicatriza. O hematoma desaparece. A palavra humilhante, entretanto, permanece adormecida em algum lugar da memória. Anos depois, reaparece numa conversa casual, numa fotografia esquecida, numa lembrança que ninguém convidou para entrar. E então compreendemos que certas frases viveram silenciosamente dentro de nós durante muito tempo.

É precisamente essa matéria invisível da convivência humana que o Dia Mundial Contra o Discurso de Ódionos convida a examinar. Não apenas aquilo que dizemos, mas também aquilo que toleramos que seja dito. Como observava Hannah Arendt, as grandes tragédias da história raramente surgem de forma súbita. Frequentemente nascem da lenta normalização de pequenas formas de desumanização que, repetidas diariamente, acabam parecendo naturais.

Vivemos uma época em que uma mentira pode percorrer continentes antes que a verdade encontre seus próprios caminhos. O insulto já não necessita de uma praça pública. Cabe no bolso, atravessa telas, instala-se em grupos de mensagens, repousa em algoritmos e desperta milhares de vezes por dia.

O ódio, na verdade, não é novo.

O que mudou foi sua velocidade.

Durante séculos, as palavras viajaram na velocidade da voz, da carta ou da imprensa. Hoje percorrem o planeta em segundos. O preconceito já não depende da proximidade física. A hostilidade pode ser reproduzida, amplificada e automatizada por mecanismos invisíveis que operam continuamente no ambiente digital.

Os estudos de Frederico Franco Alvim, Rafael Rubio Núñez e Vitor de Andrade Monteiro demonstram que a comunicação digital contemporânea não transformou apenas a tecnologia; transformou também a escala dos riscos humanos. Num cenário de hiperconectividade, preconceitos, manipulações e campanhas de hostilidade podem adquirir proporções inéditas, convertendo fragilidades individuais em ameaças coletivas.

Mas existe uma questão ainda mais profunda: o que acontece quando o ódio deixa de ser exceção moral e passa a funcionar como método de organização da vida pública? O que ocorre quando a mentira deixa de ser um desvio e se converte em instrumento permanente de mobilização?

As reflexões de Márcia Tiburi ajudam a compreender esse fenômeno. O poder contemporâneo não circula apenas por instituições visíveis. Ele também habita narrativas, emoções e percepções. A desinformação não altera somente aquilo que as pessoas sabem; modifica aquilo que sentem. Ensina quem deve ser temido, quem deve ser rejeitado e quem deve ser transformado em inimigo.

Às vezes imagino a sociedade como um grande jardim.

Não um jardim perfeito, desses que aparecem em fotografias cuidadosamente planejadas. Um jardim real, cheio de flores, galhos tortos, terrenos esquecidos e ervas que insistem em crescer onde não foram convidadas.

Nesse jardim, cada palavra seria uma semente.

Algumas produziriam confiança.

Outras produziriam amizade.

Outras, mais raras, dariam origem à compreensão — essa planta delicada que exige tempo, cuidado e paciência para florescer.

Mas também existiriam sementes venenosas.

O discurso de ódio é uma delas.

Ele raramente chega como tempestade. Costuma aparecer como uma pequena erva que ninguém considera perigosa. Cresce discretamente num canto, depois em outro. Quando percebemos sua presença, já ocupou espaço suficiente para impedir que outras formas de convivência floresçam.

Frederik van Eeden talvez dissesse que cada ser humano carrega dentro de si paisagens tão vastas quanto florestas inteiras. Quando o ressentimento domina essas paisagens interiores, as palavras deixam de ser pontes e tornam-se fronteiras. Deixam de aproximar e passam a separar.

Na era digital, porém, essas sementes encontram um terreno extraordinariamente fértil.

Algoritmos podem privilegiar conteúdos capazes de provocar emoções intensas. Plataformas podem converter indignação em engajamento e engajamento em visibilidade. Surge então aquilo que diversos pesquisadores descrevem como uma patologia do ambiente informacional: um ecossistema no qual a radicalização, a distorção e a hostilidade deixam de ser episódios isolados para se tornarem elementos estruturais da comunicação.

Nesse contexto, a violência verbal adquire características quase epidêmicas. Uma mentira repetida milhares de vezes pode parecer mais convincente que um fato cuidadosamente demonstrado. Uma acusação sem evidências pode tornar-se mais atraente do que uma análise fundamentada. A degradação do debate público não ocorre apenas pela ausência da verdade, mas pela produção sistemática da confusão.

A memória humana registra tudo isso com impressionante precisão.

Douwe Draaisma ensinou que recordar não significa armazenar acontecimentos, mas reconstruí-los continuamente. Uma criança humilhada por causa de sua origem, aparência, deficiência, religião ou condição social pode carregar durante décadas a lembrança de uma frase aparentemente banal para quem a pronunciou. 

A memória não escuta a intenção das palavras. Ela escuta o eco. Não pesa o que a boca quis dizer, mas o que o coração recebeu. As palavras passam pelos lábios como pássaros de passagem; porém, ao pousarem na alma de quem as ouve, podem deixar canto ou cicatriz. E é por essas marcas que a memória aprende a recordar.

Quando milhões de pessoas são expostas diariamente a mensagens de hostilidade, forma-se algo ainda mais preocupante: uma memória coletiva marcada pela suspeita, pelo medo e pela fragmentação.

Jan Hendrik van den Berg lembraria que cada época produz suas próprias formas de cegueira. Existem momentos históricos em que determinados preconceitos se tornam tão habituais que deixam de ser percebidos. O discurso de ódio prospera exatamente quando a sociedade perde a capacidade de estranhar a crueldade.

Quando insultos são confundidos com opinião.

Quando a exclusão é apresentada como tradição.

Quando a humilhação passa a ser celebrada como sinceridade.

É nesse momento que algo essencial da experiência humana começa a se deteriorar.

O problema, contudo, não é apenas político ou jurídico. É profundamente relacional.

Friedemann Schulz von Thun demonstrou que toda comunicação possui múltiplas camadas. Cada frase transmite informações, mas também revela sentimentos, expectativas e modos de perceber o outro. O discurso de ódio destrói essa riqueza. Reduz pessoas a rótulos, transforma indivíduos em caricaturas e substitui o diálogo pela simplificação.

Wolfgang Schmidbauer e René Diekstra ajudam a compreender outra dimensão frequentemente esquecida. Há ódios que vestem roupa de coragem, mas carregam dentro de si um coração assustado. Quem precisa apequenar o outro para se sentir inteiro talvez esteja apenas tentando esconder as próprias rachaduras. Muitas vezes, o insulto não nasce da abundância de certezas, mas da pobreza de encontros. O medo, quando não aprende a conversar com o diferente, fabrica inimigos para se proteger daquilo que não compreende.

Por isso, o ódio costuma chegar com voz de força e passos de gigante. Mas, se escutarmos com atenção, ouviremos o tremor que lhe habita os ossos. Porque nem sempre é convicção o que nele fala. Frequentemente é apenas o receio de descobrir que a humanidade tem mais rostos do que aqueles que cabem no espelho de nossas próprias crenças.

Os ecossistemas digitais e audiovisuais contemporâneos – instantaneidade e intensidade afetiva – acrescenta ainda uma preocupação inédita. O ódio já não depende apenas da vontade de quem o expressa. Ele pode ser impulsionado por arquiteturas tecnológicas projetadas para capturar atenção e explorar vulnerabilidades emocionais.

Aquilo que antes era uma paixão humana transforma-se em fluxo de dados.

O preconceito converte-se em engajamento.

A indignação transforma-se em mercadoria.

E o discurso de ódio deixa de ser apenas um problema psicológico para tornar-se também um problema econômico, tecnológico e político.

Nesse cenário emerge aquilo que Tiburi descreve como uma espécie de delírio coletivo: não a ausência da razão, mas a incapacidade de submetê-la ao exame crítico. Continua-se pensando, mas dentro de ambientes cuidadosamente organizados para reforçar certezas, alimentar ressentimentos e dificultar o encontro com a alteridade.

O outro deixa de ser percebido como semelhante.

Passa a existir apenas como inimigo simbólico.

É justamente nesse ponto que a filosofia de Karl Jaspers se torna particularmente luminosa. Para ele, a existência humana realiza-se no encontro autêntico entre pessoas livres. Não nos tornamos plenamente humanos encerrando-nos em certezas absolutas, mas abrindo-nos ao diálogo verdadeiro. O reconhecimento do outro não exige concordância; exige respeito.

Por isso, o Dia Mundial Contra o Discurso de Ódio não é apenas uma data de denúncia. É também uma data de responsabilidade.

Cada conversa.

Cada comentário.

Cada publicação.

Cada compartilhamento.

Tudo participa da construção do espaço comum onde a vida coletiva acontece.

Em uma época marcada pela inteligência artificial, pelos algoritmos de recomendação e pela circulação massiva de conteúdos, a defesa da dignidade humana exige mais do que boas intenções. Exige consciência ética, alfabetização digital, senso crítico e responsabilidade comunicativa.

Talvez a imagem mais adequada para o nosso tempo seja a dos espelhos digitais. Todos os dias olhamos para telas que refletem versões ampliadas de nossos medos, desejos, crenças e preconceitos. Algumas dessas imagens são verdadeiras. Muitas são cuidadosamente manipuladas.

A questão decisiva consiste em saber se esses espelhos continuarão reproduzindo a hostilidade ou se serão capazes de refletir aquilo que existe de mais humano em nós.

Porque, em última análise, toda sociedade é construída com a mesma matéria-prima: pessoas falando com pessoas.

E quando a linguagem deixa de reconhecer a humanidade do outro, não é apenas uma conversa que se perde.

É uma parte da própria humanidade que começa a desaparecer.

A barbárie inicia seu caminho quando a palavra esquece que todo ser humano possui dignidade, que todo pensamento exige responsabilidade e que toda linguagem deve preservar o rosto do outro. Pensar antes de falar, compreender antes de julgar e reconhecer antes de condenar são atos que sustentam a própria civilização.

Onde a razão e a palavra deixam de reconhecer a humanidade do semelhante, o ódio governa, a barbárie avança e o retrocesso dos direitos encontra terreno fértil.

O combate ao discurso de ódio começa exatamente quando compreendemos que a tecnologia não substitui a responsabilidade moral, que a democracia depende da integridade da comunicação e que nenhuma inovação será capaz de preservar a dignidade humana se os próprios seres humanos renunciarem à arte fundamental do respeito mútuo.

Afinal, as palavras nunca são apenas palavras.

Elas podem erguer muros invisíveis ou abrir caminhos.

Podem alimentar delírios coletivos ou restaurar a confiança.

Podem obscurecer a humanidade ou iluminá-la.

E é nessa escolha cotidiana, silenciosa e decisiva, que repousa o verdadeiro sentido do Dia Mundial Contra o Discurso de Ódio.

REFERÊNCIAS

ALVIM, Frederico Franco; MONTEIRO, Vitor de Andrade; RUBIO NÚÑEZ, Rafael. Inteligência artificial e eleições de alto risco: ciberpatologia e ameaças sistêmicas da nova comunicação política. 2ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2026.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.

DIEKSTRA, René. As crises da vida e como superá-las. São Paulo: Saraiva, edição consultada.

DRAAISMA, Douwe. Por que a vida passa tão depressa: sobre o envelhecimento. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Benvirá, 2012.

DRAAISMA, Douwe. Metáforas da memória: uma história das ideias sobre a mente. Bauru: EDUSC, 2005.

GERBAUDO, Paolo. The Digital Party: Political Organisation and Online Democracy. London: Pluto Press, 2019.

JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1971.

JASPERS, Karl. A questão da culpa: a Alemanha e o nazismo. São Paulo: Todavia, 2018.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Dia Internacional para Combater o Discurso de Ódio. Nova York: ONU, [s.d.]. Disponível em: https://www.un.org/en/observances/countering-hate-speech-day. Acesso em: 13 jun. 2026.

SCHMIDBAUER, Wolfgang. A síndrome do ajudador: sobre a psicologia da dedicação aos outros. São Paulo: Cultrix, edição consultada.

SCHULZ VON THUN, Friedemann. Miteinander reden 1: Störungen und Klärungen. Reinbek bei Hamburg: Rowohlt, 1981.

TIBURI, Márcia. Delírio do poder: psicopoder e loucura coletiva na era da desinformação. Rio de Janeiro: Record, 2023.

VAN DEN BERG, Jan Hendrik. Metablética: princípios de uma psicologia histórica. São Paulo: Mestre Jou, edição consultada.

VAN EEDEN, Frederik. O pequeno Johannes. Tradução brasileira. São Paulo: Antro Positivo, edição consultada.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Staël Sena
Stael Sena é advogado pós-graduado em Direito (UFPA) e presidente da Comissão Estadual de Defesa da Liberdade de Imprensa da OAB-PA.

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