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Gostava de ter crianças e dinheiro, ser vária gente insípida que vi. Hoje, afinal, não sou senão, aqui, num navio qualquer um passageiro. Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá; onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros. Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.


Todos os amantes beijaram-me na minh’alma, todos os vadios dormiram um momento em cima de mim, todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro. Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes, e houve um segredo que me disseram todos os assassinos. Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam a mesma coisa que não pode haver tantos. Fiz de mim o que não soube. E o que podia fazer de mim não o fiz. Depois de quando deixei de pensar em depois, minha vida se tornou mais calma.


Não há tristezas nem alegrias na nossa vida. Assim saibamos, sábios incautos, não a viver. Mas decorrê-la, tranquilos, plácidos, tendo as crianças por nossas mestras, e os olhos cheios de natureza. Segue o teu destino, rega as tuas plantas; ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias. Deixa passar o vento sem lhe perguntar nada, seu sentido é apenas ser o vento que passa.


Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, e deseja o destino que deseja. Nem cumpre o que deseja, nem deseja o que cumpre. Quer pouco: terás tudo; quer nada: serás livre. O mesmo amor que tenham por nós, quer-nos, oprime-nos. Domina ou cala, não te percas dando aquilo que não tens. Que vale o César que serias? Goza bastar-te o pouco que és. Melhor te acolhe a vil choupana dada que o palácio devido. Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa, põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.


Creio no mundo como um malmequer porque o vejo, mas não penso nele porque pensar é não compreender… O mundo não se fez para pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos), mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. O que é preciso é ser-se natural e calmo, na felicidade ou na infelicidade, sentir como olha, pensar como que anda. E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, e que o poente é belo e é bela a noite que fica… Assim é e assim seja…


O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Para além da curva da estrada talvez haja um poço e talvez um castelo, e talvez a continuação da estrada. Não sei nem pergunto, enquanto vou na estrada antes da curva só olho para a estrada antes da curva, porque não posso ver senão a estrada antes da curva. De nada me serviria estar olhando para outro lado e para aquilo que não vejo. Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. Se há alguém para além da curva da estrada, esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.


Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos beijos de que não me lembro. Sou postiço. Acordei sempre contra seios outros, acalentado por desvio. Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta! Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até os beijos na cara pequena?


É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esse casos dos que perdem a memória e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo – desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui.


A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com este sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à ação, a ação a que se reduziu não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.


A vida é pouco e a dor é muito. Ao luar e à noite esquecemos o nosso ser de sob o sol; e já que a corrente nos leva silente, abandonemos os remos, e visto o falar da ação nos lembrar, calemo-nos, escutemos: talvez cante o rouxinol. É preciso destruir o propósito de todas as pontes, vestir de alheamento as paisagens de todas as terras, endireitar à força a curva dos horizontes, e gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras. Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem! Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã – como nos desalegra!


Divido o que conheço, de um lado é o que sou, do outro quanto esqueço, por entre os dois eu vou. Não sou quem me lembro nem sou quem há em mim. Se penso me desmembro, se creio não há fim. Quem te disse ao ouvido esse segredo, que raras deusas tem escutado – aquele amor cheio de crença e medo que é verdadeiro só se é segredado? Quem to disse tão cedo?


– Come chocolates pequena: come chocolates! Olha que não há metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Se eu pudesse comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.


————–


Ao caro leitor, uma breve nota explicativa: o cronista não enlouqueceu, ao menos até o momento, e nem escreveu a crônica sob o efeito de qualquer substância que lhe pudesse comprometer o juízo. O texto não ficou compreensível? Não guardou qualquer coerência entre as ideias? Inexiste nele uma linha argumentativa minimamente lógica e racional? Sim, para todas as perguntas a resposta pode ser um sonoro sim, embora alguns possam ter encontrado uma profusão de sentidos, uma plêiade de significados. É que o texto é uma colagem, uma junção aleatória de excertos e trechos da obra de Fernando António Nogueira Pessoa, que neste último sábado, 13 de junho, estaria chegando, vivo fosse, aos 138 anos de idade (ainda um rapaz…).


Os dois primeiros parágrafos contém trechos da lavra de Álvaro de Campos, os dois seguintes são assinados por Ricardo Reis. O quinto e o sexto parágrafos foram extraídos da obra de Alberto Caeiro. Do sétimo ao nono estão passagens esparsas do Livro do Desassossego, no qual há muito de Bernardo Soares. O décimo e o décimo-primeiro parágrafos trazem versos reunidos em Poesia do Eu, e o conselho final, cheio de gula e doçura, foi pinçado de Tabacaria, talvez o mais famoso poema do gênio português.


“Meu coração incompleto
Quem foi que te incompletou?
Foi essa loira de preto
Ou foi Deus, porque a criou?


Meu coração a bater
Parece estar-me a lembrar
Que se um dia te esquecer,
Terá ele que parar.”


Viva Fernando Pessoa!



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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