Publicado em: 10 de junho de 2026
A endometriose, condição que afeta milhões de brasileiras e pode levar anos para ser diagnosticada, será o foco de um investimento inédito anunciado pelo Governo Federal. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Instituto Alana vão mobilizar R$ 60 milhões para financiar pesquisas voltadas à saúde menstrual, dor pélvica e endometriose, tema que vem ganhando espaço nas discussões sobre saúde pública e direitos das mulheres.
Do total, R$ 50 milhões serão destinados pelo governo federal, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), enquanto o Instituto Alana aportará outros R$ 10 milhões. Os recursos financiarão projetos científicos e o desenvolvimento de tecnologias com potencial de aplicação no Sistema Único de Saúde (SUS). A seleção das propostas ocorrerá por chamada pública do CNPq.
O anúncio foi realizado em Brasília, na sede do MCTI. Durante o lançamento, a ministra Luciana Santos classificou a iniciativa como o maior investimento já realizado pela pasta em pesquisas voltadas à saúde da mulher. Segundo ela, o volume de recursos reflete o reconhecimento de que a endometriose e outras condições relacionadas à saúde menstrual representam um desafio que exige resposta institucional e produção de conhecimento científico.
Além do financiamento às pesquisas, a parceria prevê a criação de uma rede nacional estruturante dedicada aos estudos sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual. A estrutura contará com mecanismos de comunicação científica, ações de ciência cidadã, apoio a pesquisadores, programas de formação e iniciativas educacionais voltadas ao tema.
As propostas submetidas ao edital deverão se enquadrar em cinco áreas prioritárias: causas e prevenção, diagnóstico, tratamento, biorrepositórios (coleções organizadas de materiais biológicos utilizadas em pesquisas) e impactos sociais da doença. O objetivo é ampliar a produção de evidências científicas sobre uma condição ainda marcada por subdiagnóstico e subtratamento.
Segundo estimativas apresentadas durante o lançamento, cerca de 8 milhões de brasileiras em idade reprodutiva convivem com endometriose, incluindo aproximadamente 2 milhões de adolescentes. Apesar da elevada incidência, o tempo médio para obtenção do diagnóstico ainda gira em torno de sete anos.
O Ministério da Saúde destaca que a endometriose e as dores pélvicas afetam diretamente a qualidade de vida das mulheres, com reflexos sobre a permanência escolar, a produtividade profissional e a saúde mental. O ministro Alexandre Padilha afirmou que a parceria representa um passo importante para a construção de políticas públicas mais consistentes voltadas à saúde feminina dentro do SUS.
A iniciativa também marca o segundo grande projeto conjunto entre o MCTI e o Instituto Alana. A primeira colaboração ocorreu em 2024, com a criação da Rede Buriti, voltada à pesquisa e inovação em Síndrome de Down. Agora, a cooperação passa a concentrar esforços em um tema que especialistas apontam como historicamente negligenciado.
Para a CEO do Instituto Alana, Flavia Doria, a proposta é criar condições para que a produção científica resulte em avanços concretos na prevenção, na redução do tempo de diagnóstico e na ampliação do cuidado desde a menarca. A rede também deverá estimular a participação de meninas, mulheres e organizações da sociedade civil nas discussões e pesquisas relacionadas ao tema.
Os dados apresentados durante o anúncio ajudam a dimensionar a extensão do problema. Levantamento do Alana e do Instituto Equidade.info indica que seis em cada dez estudantes que menstruam relatam cólicas moderadas ou intensas capazes de interferir nas atividades diárias e exigir uso de medicamentos. Entre elas, quatro em cada dez faltam às aulas todos os meses por causa das dores menstruais.
Os impactos continuam na vida adulta. As cólicas associadas à endometriose podem resultar na perda de até 10,8 horas de trabalho por semana. Apesar disso, a dor menstrual e a dor pélvica ainda aparecem de forma limitada nos registros oficiais de saúde. Um estudo realizado com dados de 469 mil meninas e mulheres de Recife identificou registros formais dessas condições em apenas 0,5% dos prontuários. Quando os pesquisadores analisaram os relatos textuais feitos pelos profissionais de saúde, encontraram mais de 41 mil referências a esses sintomas, elevando a incidência para 9% da base analisada.
Durante o lançamento, a primeira-dama Janja Lula da Silva destacou que questões relacionadas à saúde da mulher foram, durante décadas, tratadas com invisibilidade ou minimizadas. Segundo ela, a nova iniciativa direciona atenção e recursos para uma condição que afeta milhões de brasileiras e frequentemente permanece sem diagnóstico ou acolhimento adequado.
Foto em destaque: Rodrigo Cabral










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