Publicado em: 7 de junho de 2026
Os filósofos antigos, que possuíam o admirável talento de transformar dúvidas em monumentos, deixaram-nos o intrigante paradoxo do Navio de Teseu. Conta-se que, à medida que as tábuas da embarcação apodreciam, eram substituídas por outras novas, até que nenhuma peça original permanecesse. A questão era simples apenas na aparência: continuava aquele a ser o mesmo navio? E, se as madeiras antigas fossem reunidas e recompostas em outra embarcação, qual delas mereceria o nome de verdadeira?
Não sei se os gregos imaginavam que sua indagação atravessaria os séculos para aportar nos gramados do futebol brasileiro. Suspeito que não. Ainda assim, não consigo encontrar metáfora mais apropriada para a atual Seleção Brasileira.
Nesse ponto, um velho torcedor que me acompanha nesta reflexão talvez manifeste sua impaciência. Não é um filósofo, tampouco pretende sê-lo. É um homem que assistiu a duas vitórias da Seleção Brasileira em Copas do Mundo, guardou na memória tardes de euforia coletiva e hoje contempla a camisa amarela com uma perplexidade difícil de explicar.
“Tudo isso é muito interessante”, dirá ele, “mas o que eu quero saber é por que já não sinto a mesma emoção quando a seleção entra em campo.”
A pergunta parece mais simples do que a dos gregos, mas talvez seja exatamente a mesma.
Durante boa parte do século XX, a seleção representava o ápice de uma experiência comum. Seus jogadores nasciam em clubes nacionais, enfrentavam-se regularmente nos campeonatos do país, compartilhavam uma mesma cultura futebolística e, não raro, conheciam-se desde as categorias de base. Quando vestiam a camisa amarela, reencontravam-se como membros de uma mesma tradição, não como estranhos convocados para uma ocasião. Havia divergências de estilo, rivalidades clubísticas e temperamentos distintos, mas existia um idioma futebolístico comum que dispensava intérpretes.
Hoje, a situação é outra. As peças do navio brasileiro encontram-se dispersas pelos mais variados portos do mundo. Um atleta chega moldado pela disciplina inglesa; outro, pela organização alemã; um terceiro, pelo rigor italiano; um quarto, pela técnica espanhola. Muitos deixaram o Brasil tão cedo que sua relação com o futebol nacional tornou-se mais afetiva que efetiva. São brasileiros por nascimento, mas pertencem a sistemas distintos; outro país do futebol, treinados segundo metodologias diferentes e submetidos a exigências que raramente convergem.
Quando se apresentam à seleção, encontram-se por poucos dias, disputam algumas partidas e retornam aos seus compromissos internacionais. Falta-lhes o convívio que transforma talento em entendimento. Falta-lhes o hábito da companhia, esse elemento invisível que faz de onze jogadores reunidos uma equipe. O que se vê, muitas vezes, é uma coleção de excelentes profissionais que atuam lado a lado sem chegar a constituir um corpo verdadeiro. Há competência, mas nem sempre há comunhão; há qualidade individual, mas escasseia a identidade coletiva.
Mais grave, porém, do que a ausência de entrosamento tático é a falta daquele sentimento imponderável que os antigos exércitos, as grandes instituições e as equipes memoráveis sempre cultivaram: o esprit de corps. Nenhuma obra duradoura é construída apenas pela soma de talentos. É necessário que exista uma consciência comum, um orgulho compartilhado e a percepção de que o destino de cada indivíduo está ligado ao destino do conjunto. Meu interlocutor parece encontrar aqui a tradução de seu desconforto.
“É isso”, observa ele. “Não sinto que estejam jogando uns pelos outros.”
A seleção contemporânea parece sofrer precisamente dessa ausência. Seus jogadores respeitam-se como profissionais, mas raramente transmitem a impressão de pertencerem a uma mesma irmandade esportiva. Falta-lhes a memória das batalhas travadas em conjunto, das derrotas suportadas ombro a ombro e das conquistas que cimentam laços invisíveis. São passageiros da mesma embarcação, mas não propriamente uma tripulação. E um navio sem espírito de corpo, por mais sofisticado que seja seu equipamento e por mais valiosas que sejam as peças que o compõem, acaba por carregar um vazio difícil de ocultar. Navega, mas não inspira; avança, mas não mobiliza; flutua entre portos e continentes, mas à deriva, sustentado pelo empuxo da lembrança das grandes travessias do passado, não pela confiança em seu destino comum.
Seria injusto atribuir a eles toda a responsabilidade. O problema é mais profundo e antecede os próprios atletas. A seleção tornou-se o reflexo de um futebol nacional que há muito parece ter renunciado à tarefa de pensar a si mesmo. Os clubes, pressionados por dificuldades financeiras e seduzidos pelas cifras do mercado internacional, converteram-se em estações de passagem. Formam jogadores para exportá-los antes que amadureçam. A lógica esportiva cede lugar à lógica comercial, e o futuro técnico do futebol é frequentemente sacrificado em favor do próximo negócio.
Nesse ambiente, o discurso sobre o jogo foi substituído pelo discurso sobre o produto. Fala-se com entusiasmo do valor de mercado dos atletas, das marcas associadas aos clubes, dos contratos milionários e das oportunidades de negócios. O marketing ocupa o espaço que antes pertencia à identidade; a cartolagem prospera onde deveria haver planejamento; as relações de influência multiplicam-se nos corredores em que o mérito deveria caminhar sozinho. O futebol transforma-se, pouco a pouco, numa vasta engrenagem econômica cuja finalidade já não parece ser o próprio futebol.
Não deixa de ser curioso que o país que durante décadas exportou uma maneira singular de compreender o jogo tenha se tornado um fornecedor de matéria-prima para projetos concebidos lá fora. Exportamos jogadores em abundância, mas importamos modelos, treinadores, conceitos e soluções. Produzimos talentos, mas parecemos cada vez menos capazes de produzir uma ideia de futebol. Como certas nações ricas em recursos naturais e pobres em projeto nacional, o Brasil do futebol especializou-se em vender seus diamantes antes de lapidá-los. Transformamos jogadores em commodities.
A Seleção Brasileira surge, então, como a expressão acabada desse processo. Conserva o uniforme, o escudo, o hino e a memória de suas glórias. Conserva as imagens de Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo e tantos outros que fizeram da camisa amarela uma espécie de patrimônio sentimental do país. Entretanto, a pergunta de Teseu retorna com insistência: se quase todas as peças que compunham sua identidade foram substituídas, ainda estamos diante da mesma seleção?
A resposta é mais melancólica do que gostaríamos, porque, no caso do navio brasileiro, não foram apenas as peças que foram trocadas; muitas das antigas desapareceram. O futebol de formação robusta, os campeonatos nacionais capazes de reter talentos, a convivência prolongada entre os jogadores, o sentimento de pertencimento a uma escola comum de futebol: tudo isso foi sendo removido gradualmente, sem que se construísse algo equivalente em seu lugar.
Assim, a seleção contemporânea parece viver de um patrimônio simbólico acumulado por gerações anteriores. Navega sob uma bandeira gloriosa, mas frequentemente sem a bússola que orientava seus rumos. Herdou a fama dos grandes navegadores, embora já não disponha das mesmas cartas marítimas. O nome permanece poderoso, mas o significado que o sustentava parece cada vez mais dependente da memória. E a memória, por mais nobre que seja, não marca gols, não organiza equipes e não substitui uma identidade perdida.
Está aí a verdadeira tragédia do futebol brasileiro. Não a ausência de craques, que continuam a surgir em abundância, nem a falta de recursos, que jamais circularam em volume tão grande. O problema está na erosão silenciosa de uma identidade coletiva. Porque uma seleção não é apenas a soma dos melhores jogadores disponíveis, assim como um navio não é apenas um amontoado de tábuas. Ambos dependem de algo mais difícil de medir e mais fácil de perder: a continuidade de um espírito.
E, quando esse espírito se dissolve, resta apenas a aparência daquilo que um dia existiu. O nome permanece, as cores permanecem, a memória permanece. Mas a dúvida dos gregos continua pairando sobre o convés: será este, de fato, o mesmo navio? Ou estamos apenas contemplando uma réplica bem-acabada, sustentada pela nostalgia de um passado que já não consegue reproduzir? Talvez o mais inquietante seja admitir que o navio ainda ostenta a mesma bandeira, mas já não reconhece o mar para o qual foi construído.
O velho torcedor resmunga: quando a camisa amarela entra em campo, milhões de brasileiros continuam reconhecendo nela uma parte de suas memórias. As memórias dos títulos, das tardes compartilhadas, dos gritos de gol e das esperanças renovadas a cada Copa do Mundo. Identidades sobrevivem porque permanecem intactas; sobrevivem porque conseguem atravessar o tempo sem desaparecer completamente.
Digo-lhe que o Navio de Teseu não exige resposta definitiva, porque sua função é lembrar-nos de que a permanência e a mudança caminham juntas. A Seleção Brasileira não é mais a mesma. Mas, enquanto ainda houver quem se emocione ao vê-la partir para o mar, enquanto houver quem recorde as travessias passadas e sonhe com as futuras, o velho navio continuará merecendo o seu nome.
Quando o navio da seleção entrar em campo, fará a paráfrase do sábio poeta:
“Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu” (Fernando Pessoa).
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista







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