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A participação de produtoras parauaras no Festival de Cannes e em seus espaços de mercado vem firmando um movimento de internacionalização do audiovisual amazônico, destacado pela ampliação de coproduções internacionais, articulações com instituições europeias e fortalecimento de redes criativas entre realizadores da Amazônia e o circuito global de financiamento e circulação de obras. Entre os nomes presentes está a produtora Monique Sobral de Boutteville, da Encantados Produções, que representa projetos conectados às transformações sociais, ambientais e culturais da região Norte.

A presença em Cannes é resultado da expansão das produções amazônicas em mercados internacionais, com realizadores da região disputando espaços historicamente ocupados por produções mediadas por olhares externos sobre a floresta. O movimento inclui não apenas a exibição de projetos, mas também negociações de coprodução, financiamento e circulação internacional.

Monique Sobral de Boutteville (Arquivo pessoal)

Entre os projetos apresentados está “Sossego”, novo longa dirigido por Monique Sobral de Boutteville, que firmou coprodução internacional com o produtor francês Nicolas Le Curieux. O filme também reúne parcerias nacionais com a Cunha Porã, do Tocantins, e a Brisa Filmes, do Rio de Janeiro, formando uma articulação entre produtoras brasileiras e o mercado europeu. A iniciativa amplia as possibilidades de financiamento e distribuição da obra fora do país.

Outro projeto levado ao festival é a série documental “Morte das Águas”, desenvolvida em parceria com a produtora e cineasta tocantinense Eva Pereira. A produção aborda temas ligados aos territórios amazônicos, às disputas ambientais e aos impactos sobre populações tradicionais, eixo temático que tem despertado crescente interesse internacional diante das discussões globais sobre crise climática, preservação ambiental e povos da floresta. 

Monique também representa em Cannes o longa “Temperos de Aimée”, dirigido por Zienhe Castro, cineasta e fundadora do Festival Amazônia FiDoc. Além de atuar na conexão internacional do projeto, a produtora participa do filme como preparadora de elenco. A parceria entre Monique e Zienhe integra uma rede de cooperação voltada à valorização de narrativas amazônicas no cenário audiovisual internacional.

As duas profissionais vêm construindo conexões entre o Festival Amazônia FiDoc e instituições europeias, estabelecendo interlocuções voltadas ao intercâmbio cultural, circulação de filmes e futuras coproduções. O processo demonstra uma mudança na posição ocupada por realizadores da Amazônia dentro da indústria audiovisual internacional, passando da condição de objeto temático para a de agentes que negociam diretamente seus próprios projetos e narrativas.

O reposicionamento do audiovisual amazônico em escala global é claro. Durante décadas, grande parte das representações da floresta no cinema internacional foi construída a partir de perspectivas externas à região. O avanço recente de cineastas amazônicos em mercados estratégicos sinaliza uma disputa por autonomia narrativa e por maior controle sobre os modos de representação da Amazônia no cinema contemporâneo.

O acesso a fundos internacionais e a estruturas de coprodução com países europeus amplia a capacidade de financiamento de obras produzidas na Amazônia e fortalece a viabilidade de projetos mais robustos tecnicamente, sem romper com identidades culturais locais. Esse movimento também fortalece a circulação internacional de filmes amazônicos em festivais, mercados e plataformas globais.

Estela Nunes, Monique Sobral de Boutteville, Juliana Lira, Eva Pereira, Fernanda Thurann e Gabriel Muglia (Arquivo pessoal)

Imagem em destaque: Fernanda Thurann, Monique Sobral de Boutteville, Aymara Limma e
Eva Pereira (Arquivo pessoal)

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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