Publicado em: 11 de maio de 2026
Perdi a oportunidade, soterrada por outras pautas, de escrever sobre um dos episódios mais violentos da minha infância. Talvez a memória exagere. A infância exagera tudo. Ainda assim, naquela manhã de 4 de fevereiro de 1981, algo se rompeu em Óbidos. Ou em mim. Para esta história, dá no mesmo.
A cidade amanheceu como sempre. Café fervendo nas cozinhas. Peixe sendo limpo nos jiraus. O Amazonas correndo largo, barrento e calmo, com aquela autoridade silenciosa dos grandes rios. Nada anunciava o desastre.
Depois vieram os rumores.
O Sobral Santos afundou.
Não vi o instante exato. Vi o que veio depois. Canoas atravessando o rio às pressas. Gente chamando nomes da beira. Homens falando baixo. Mulheres com as mãos na cabeça. O resto me foi contado, como quase tudo aquilo que realmente permanece na memória de uma cidade.
Diziam que o navio levava gente demais. Naquela época, ninguém viajava com medida certa. Sempre cabia mais uma rede armada no corredor, mais uma caixa de isopor, mais um saco de farinha, mais um conhecido do conhecido. A necessidade empurra os limites das coisas até que alguma coisa ceda.
E cedeu.
Eu era criança. Lembro-me das lonas azuis estendidas na praça. Lembro-me de um homem sentado no meio-fio olhando fixamente para os próprios pés enlameados. Lembro-me do sol. Havia um excesso de luz naquela manhã. Uma claridade indecente sobre os corpos alinhados no chão.
Uma mulher passou por mim segurando um pedaço de camisa molhada. Repetia um nome sem chorar. Nunca esqueci. O silêncio dela era pior.
Durante algum tempo evitaram comer peixe. Cada jaraqui parecia carregar um segredo do fundo do rio. Os tambaquis surgiam nas bancas como se soubessem alguma coisa. Ríamos daquela cautela, mas quase ninguém comia sem pensar duas vezes.
Depois vieram as histórias.
Superlotação. Descuidos. Portas fechadas. Mergulhadores pagos para fazer desaparecer o que ainda pudesse emergir. Não sei o que era verdade. Em cidades pequenas, logo já não se sabia onde terminava a tragédia e começava a invenção.
O campo do Caverá recebeu muitos mortos. Era um pequeno campo de futebol dentro do cemitério. Onde antes se gritavam gols, abriram covas. Homens cavavam sem parar sob o calor duro da tarde. Não havia discursos. Apenas trabalho. Pá entrando na terra. Terra caindo sobre madeira.
Óbidos continuou.
No ano seguinte houve Carnaval outra vez. As marchinhas voltaram. As máscaras também. Mas até hoje existe alguma coisa em mim que associa festa a ameaça. Talvez porque eu ainda veja, atrás de certas fantasias, o azul das lonas tremendo ao vento.
Quanto ao rio, permaneceu igual. Não pediu desculpas. Não explicou nada. Continuou passando diante da cidade com sua lentidão amarela, indiferente às nossas perdas.
Foi naquele fevereiro que compreendi, embora sem palavras para isso, que o cotidiano não é sólido. A rotina parece firme apenas porque ainda não afundou.
Desde então, toda vez que atravesso a curva estreita do Amazonas diante de Óbidos, sinto que existe ali uma história que não terminou de ser contada. Como se alguma coisa permanecesse no fundo da água, esperando a hora de voltar à superfície.
E talvez nunca volte.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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