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Semana anterior publicamos um texto que trazia como fonte principal a escritora afro-brasileira, Maria Firmina dos Reis. Nesta semana, continuaremos a escrita sobre o mais revolucionário entre os escritores negros. Luiz Gama. Com uma Literatura invisibilizada a obra do autor ainda continua ínfima na historiografia da Literatura no Brasil.  Seu pensamento poético ultrapassa o limite da criação estética.


Luiz Gama, jornalista e rábula que dedicou sua vida à luta contra a escravidão no século XIX. Sua trajetória revela um intelectual formado nas margens da sociedade escravocrata brasileira, que utilizou a palavra escrita como instrumento de denúncia, resistência e libertação. A literatura impregnada na obra de Luiz Gama nasce de uma urgência histórica em afirmar uma humanidade aonde o sistema colonial insistia em negar. 


Luiz Gama nasceu em 1830, em Salvador, filho de uma africana livre, Luísa Mahin, figura frequentemente ligada às revoltas negras na Bahia. Apesar de ter nascido livre, foi vendido como escravo ainda criança pelo próprio pai, um português endividado. Esse episódio revela a brutalidade de uma sociedade na qual a vida de pessoas negras era constantemente mercantilizada. Aos dez anos foi levado para São Paulo, onde viveu como escravizado até conseguir provar juridicamente sua condição de homem livre.


Sua libertação ocorreu por volta dos 17 anos, quando aprendeu a ler e a escrever de maneira autodidata. Esse momento marca uma virada decisiva em sua trajetória. O domínio da leitura foi uma conquista pessoal e política. Com o tempo, Luiz Gama passou a estudar leis por conta própria e se tornou rábula, um advogado sem formação acadêmica formal, porém autorizado a atuar juridicamente. Estima-se que tenha atuado na libertação de mais de 500 pessoas escravizadas por meio de ações judiciais.


Paralelamente à atuação jurídica, Luiz Gama também construiu uma obra literária significativa. Em 1859 publicou Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, livro que reúne poemas satíricos, críticos e profundamente políticos. Na obra, Gama utiliza o humor e a ironia como estratégias para expor as contradições da sociedade escravocrata. Sua poesia rompe com a imagem passiva atribuída às pessoas negras na literatura brasileira do período e assume um tom de enfrentamento direto. Em um dos poemas mais conhecidos, ele escreve: “Se negro sou, ou sou bode, pouco importa. O que isto pode? Bodes há de toda a casta, pois que a espécie é muito vasta.”  Nesse trecho, Luiz Gama trabalha com ironia e subversão. A palavra “bode” era usada de forma racista para insultar pessoas negras. Ao assumir o termo e ampliá-lo para “toda a casta”, o poeta desconstrói o insulto e o devolve à sociedade que o produziu. A estratégia é clara quando revela que a hierarquia racial era uma construção arbitrária.  Outro trecho marcante aparece quando ele escreve: “Amo o pobre, deixo o rico, Vivo ao lado da desgraça; porque o rico é sempre iníquo, E o pobre é filho da graça.” Aqui aparece uma dimensão ética de sua poesia. Gama associa a exploração econômica à escravidão e ao racismo. Sua voz poética se posiciona claramente ao lado dos marginalizados. O poema revela que sua crítica era racial e social, denunciando a desigualdade estrutural do Brasil imperial. Em outro momento de sua poesia satírica, ele afirma: “Neste país, tão profundo, mais valem títulos vãos, que virtudes neste mundo, E talentos de cidadãos.” O verso é uma crítica direta à elite imperial brasileira. Luiz Gama observa que o prestígio social não era construído por mérito ou virtude, mas por títulos e privilégios herdados. Essa crítica permanece atual e mostra como sua poesia dialoga com questões estruturais da sociedade brasileira.


Além da poesia, Luiz Gama escreveu intensamente em jornais. Atuou como cronista e articulista em periódicos paulistas, denunciando ilegalidades do sistema escravista. Seus textos jurídicos e jornalísticos tinham um objetivo claro: provar que muitos escravizados estavam sendo mantidos ilegalmente em cativeiro, contrariando leis do próprio Império.


Seu trabalho jurídico tornou-se impactante. Sem diploma universitário, ele dominava o conhecimento legal com impressionante precisão. Utilizava leis como a de 1831, que proibia o tráfico atlântico de escravizados, para argumentar que muitos africanos trazidos após essa data deveriam ser considerados livres. Esse tipo de estratégia jurídica libertou centenas de pessoas.


Por essa razão, Luiz Gama tornou-se uma figura temida pelos senhores de escravos e admirada pelos movimentos abolicionistas. Sua casa era um espaço de acolhimento para pessoas negras perseguidas e fugitivas. Ao mesmo tempo, sua atuação influenciou importantes nomes do movimento abolicionista, como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio.


Luiz Gama morreu em 1882, seis anos antes da abolição oficial da escravidão no Brasil. Seu funeral reuniu milhares de pessoas em São Paulo, em uma das maiores manifestações populares da época. A presença massiva de ex-escravizados, estudantes e trabalhadores mostrou que sua atuação havia ultrapassado os limites da literatura e do direito, transformando-se em símbolo de luta coletiva.


No campo da literatura afro-brasileira, sua importância é central. Autores posteriores, como Machado de Assis e, mais tarde, intelectuais negros do século XX, reconheceram em Luiz Gama uma voz na afirmação da identidade negra na literatura nacional. Sua obra inaugura uma tradição de escrita crítica que questiona o racismo estrutural presente na formação do país.


A obra de Luiz Gama confronta a história do Brasil a partir de uma perspectiva que durante muito tempo foi silenciada. Sua poesia, sua atuação jurídica e sua militância política revelam que a literatura afro-brasileira é também um espaço de memória, denúncia e reconstrução histórica. Ao transformar a palavra em instrumento de justiça, Luiz Gama consolidou que a literatura pode ser uma forma poderosa de luta pela dignidade humana.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

“Elas Inspiram: A Voz da Mulher no Mundo Jurídico e Acadêmico”

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