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Na extensa praia de areias alvas da Ponta do Espardate, município de Salinópolis, avisto uma concha marrom que costumamos denominar de caracol, contrastando com as cores do cenário: o branco e o verde musgo das águas da maré vazante.
Isolada, inserida na célere transformação aquática costeira, lá estava ela, semienterrada, reinando na magnitude ambiental, enfeitando a paisagem.
Resolvo levá-la, como quem recebe uma oferta do oceano atlântico, para minha coleção de objetos exóticos do mar.
No quarto do hotel a coloco perto do terraço para, no outro dia, transportá-la ao novo abrigo em Belém e me recolho para uma noite de descanso, após a longa caminhada pela orla ventilada.
Quando acordei no outro dia a concha havia sumido, ou melhor, se movimentado para outro canto do quarto, sugerindo ter vida própria, mas se tratava, porém, de um inquilino que habitava seu interior movendo a “casa”: um siri-ermitão fazendo da concha sua morada. Naquele instante começava o dilema desta crônica: eu queria a “casa” dele e ele a “concha” que eu achava que era minha.
Percebi ter encontrado uma concha do mar, sem imaginar estar “ocupada” pelo siri que se considerava proprietário.
Levei-os para o jardim do hotel, oferecendo ao eremita a “oportunidade” de sair daquela “toca”, diretamente para a praia, mas ele não aceitou. Algumas balançadas na casa e nada do hóspede aceitar despejo forçado.
Ainda que não tenha sido o construtor da residência e sim o molusco originário àquela altura extinto, o ermitão não se dava por vencido.
Força não seria solução, pois não possuo vocação para extinções de espécies ou mesmo para violência contra seres vivos, então arquitetei sua retirada consultando a internet que me ensinou jogar água morna para que ele se retirasse à procura de outro abrigo. Apesar disso, apenas colocando as patinhas de fora, ele não saia.
O fato é que ambos queriam a concha, mas o que alimentava minha pretensão era ele não ser o proprietário originário. Paguros – como também são chamados – se aproveitam dessas “moradas” quando o molusco original morreu. O Eremita apenas “aluga”, temporamente, a concha como abrigo, uma vez não possuir o abdômen rígido e, para se proteger, ocupam conchas marinhas vazias. À medida que crescem, trocam para outra maior.
Minha concha, ou a concha do eremita, pertenceu a um molusco marinho que a produziu secretando carbonato de cálcio, depois morrendo por idade, predação ou fatores ambientais, até ser ocupada pelo hóspede-crustáceo para se proteger de predadores.
O siri-eremita passa a ocupar a concha, encaixando o abdômen dentro delas e, segurando a mesma com as patas, se deslocando para procurar alimentos. Tudo natural no ecossistema marinho, não sendo uma relação de mutualismo ou parasitismo, mas de oportunismo.
O dicionário da língua pátria ensina que oportunismo é a prática de aproveitar circunstâncias, muitas vezes de maneira inescrupulosa ou antiética, para obter vantagens pessoais. Caracteriza-se pela acomodação às situações, priorizando o interesse próprio, ignorando princípios morais ou normas estabelecidas, aplicado na política, nos negócios ou nas relações pessoais.
No mundo dos humanos costuma-se classificar como “pegar o bonde andando”, sem preocupação alguma com a ética, ou como “aproveitamento” de situações em crise, com vários exemplos na história da humanidade, Hitler foi um deles.
Fiquei o restante do dia me perguntando: aonde estaria caracterizado o siri eremita nessas definições da convivência humana? que ofensa ele teria promovido ao molusco extinto, dentro de seu habitat? Que tipo de oportunismo estaria, o eremita-hóspede, utilizado sobre a concha que encontrou antes de mim?
Assim pensando longamente, fui à praia na ultima noite da minha aventura naquela linda região salgada e devolvi a concha ocupada pelo siri-ermitão ao meio ambiente, no instante que a maré crescia, reconhecendo não ter nenhuma propriedade sobre eles, quem sabe nem de muitas coisas neste mundo.    

    

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