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Bom dia. Dá licença. Ufa, que esse calor está pela hora da morte, não? Sabia que essa região aqui, ali pelos anos 70, chegava até a fazer frio. Pois é. Tudo muda, né? Tudo bem com você não é? Tudo bem em chama-lo de você, pois não? Às vezes a gente acaba sendo assim, como dizem as pessoas, espaçoso, sabe? Não é agradável.

Hoje é meu aniversário. Sim, aniversário. Obrigado, obrigado a todos. Vocês não são desses que fazem surpresas, são? O cara chega, as luzes apagadas e de repente, boom! Cantam parabéns, enfim. Não? Que bom. Hoje completo… bem, se eu disser a verdade, vocês podem ficar chocados. Ou não. “Nossa, como está bem conservado..”. Ou “sabe que eu nunca diria que você”.. Bom. Misturamos alegria e uma leve depressão no dia em que fazemos aniversário. Festejamos datas redondas, como 20, 30, 40 anos, não é? Bom, nem todos aqui já completaram 60… Há quem estacione nos 50..

Fui fazer a barba, essa cerimônia à qual nós, homens, nos obrigamos diariamente, de maneira mecânica, cada um com seu método. Mas desta vez, olhei atentamente para meu rosto. As rugas. A falta de cabelo no topo. As sobrancelhas grossas. A pele, já não tão viçosa. Mas, curiosamente, percebi meus olhos, e mais ainda, alguém que me olhava pelos olhos curioso, e não tinha a mesma idade daquele rosto no espelho. Bem, o cara que mora dentro de mim, acha que nunca passou dos vinte anos. Talvez menos.. Sei que muitos estranham. Este corpo já com alguns quilinhos a mais, a falta de cabelo.

Olha, saber envelhecer significa saber encontrar um acordo decente entre o seu rosto velho e o seu coração e cérebro jovens, não é isso?

A verdade é que a velhice hoje chega sem que percebamos. A velhice é a coisa mais inesperada que pode nos acontecer. Estamos no banho, ou vamos andando pela rua e olhamos nossa imagem refletida nas vitrines e pumba, a velhice te chama. Nós disfarçamos bem.

Agora, esse cara, esse moleque que mora dentro de mim, não sabe a idade que tem. Vive atrás da novidade. Lê milhões de coisas da internet. Jornais, revistas, livros. Vê filmes. Ouve música. E nunca está satisfeito. A vida é ávida de si mesma, disse Pirandello. Sou ávido por conhecimento. Por novidade. Pelo novo. A curiosidade talvez seja minha maior qualidade. Não tenho medo do novo. Quero sabe-lo. Avalia-lo. Nunca estou satisfeito. E vocês?

Hoje, vivo no mundo. O mundo como casa. Durmo aborrecido. Quase não tenho sono. Me desespera ficar sem saber o que está acontecendo enquanto durmo. Penso e crio sem parar. 

Saio de casa, vou trabalhar

Ando pelas ruas, atento para o mundo

Dou conta dos meus afazeres

Atendo às solicitações 

Pego o carro

Ponho uma música

Em alguns momentos, canto

E também vou seguindo as leis do transito

Lentamente descolo-me da realidade

Me perco. Onde é, mesmo, que eu ia?

Sim, para a academia

aparece uma viagem

Sempre aparece

E vou, se possível, sozinho

Ando por outros lugares

Sinto seu cheiro do mundo, aspiro o ar com voracidade

me canso de andar

É uma troca de cenário. Isso me faz bem, sei

Gostaria e não gostaria de ser comum

Feliz como os transeuntes com os quais cruzo

Tenho avidez por mais vida, mais vida, mais vida

E procuro onde possa ter mais

Quando fico muito só, quero falar

Mas quando tenho companhia, falar, me custa

Deixo-me ao vento, o que será que farei, hoje?

Ficarei deitado na cama, morrinhando?

Darei uma volta na praça, procurando uma novidade?

Não há nada para fazer e o que fizer, será uma repetição

Preciso de um objetivo

Invento meus objetivos

Eles são minha motivação 

Me antecipo

Não deixo nenhum nó desatado

Vou e faço

Não espero que façam por mim

Estou sempre onde nunca vão me encontrar

Sou carne, ossos e nervos e pensamentos. 

Quanto aos amores, sou mais reservado. Amo e sou amado. Amei platonicamente. Amei concretamente. Amo. Às vezes penso tanto no outro que esqueço de mim. Às vezes penso tanto em mim que esqueço do outro. Também esquecem de mim. E não é isso o amor? Entregar o melhor de seu? Entregar-se inteiramente, sem reservas? E uma vez, exaurido, humano, procurar recuperar tudo de volta? E retomar, voltar a amar, e entregar-se à procura, no outro, talvez, de si mesmo, não somente si mesmo, mas melhor, muito melhor, para seguir e seguir e amar e amar? Já cultivei um escudo que imaginei indestrutível, mas que ao primeiro brilho de amor, derreteu. Derreteu. E não é isso o amor?

Nossa geração passou por tudo. Acho que nenhuma outra passou por tantas mudanças. Somos da década de 50, século passado. Mudamos os costumes, revolucionamos o sexo, enfrentamos a Aids. Dançamos rock and roll, Beatles, Rolling Stones, Caetano e Gil. E a televisão? E os computadores? A internet e os celulares. Bem, não tenho muita prática em celulares, meu neto resolve tudo com dois ou três toques que nunca entendi. Passamos por ditaduras e até ameaça delas, que não se concretizou. Vivemos a grande época. Como eram os idosos, quando éramos jovens? Abandonados em cadeiras de embalo, presos ao seu mundo. Hoje estamos no mundo. Aqui no Brasil, logo seremos maioria. Nos recusamos a sair. Vamos aos shows, trocamos filmes, livros e música com os filhos. Enfim, nós somos fo… fogo…

O melhor ensinamento que meu pai me deu foi sobre o que um homem pode querer na vida. Riqueza, homenagens, títulos? Não. Tudo o que meu pai queria era ser um homem bom. E foi. Pois, é tudo o que eu quero ser. Um homem bom. Minha mãe também.

Meu pai. Ele não era de grandes gestos, carinhos, beijos. Dizia tudo com os olhos. Não estava com ele quando partiu. Queria ter estado. Um amigo me contou. O pai também era assim. Caiu doente. Na cama. Dormindo. Se encheu de coragem e passou a mão pelos cabelos dele. O quanto havia nesse gesto. Passar a mão nos cabelos do pai. Um carinho de uma vida inteira, talvez guardado. Partiu em paz. Com carinho.

Estou completando 70 anos. Sim, 70 anos! Pronto, falei!

Que tal? Estou conservado? Nem parece? Olha, no máximo eu te dava.. É uma data redonda. A maior parte da jornada já foi cumprida. Muitos degraus estão para trás. O poente, com suas luzes de transição começa a ensaiar seu grande finale e nos sentimos plenos. Vivemos muito, continuamos vivendo. A vida se repete, o dia nasce e morre, acompanhamos aquela criança que hoje nos quer embalar na rede, mais alta que nós. Somos carregados de história. Vimos tantas coisas. Ficará, de nós, talvez, sobre uma mesa, o começo de um bilhete, um compromisso que estava marcado, a prova irremovível de nossa vida. Quero dizer a vocês um poema do poeta português Fernando Pessoa, que diz;

Nem tudo é dias de sol

E a chuva, quando falta muito, pede-se

Por isso tome a felicidade com a infelicidade, naturalmente

Como quem não estranha que haja montanhas e planícies,

Rochedos e erva

O que é preciso é ser natural e calmo

Na felicidade e na infelicidade

Sentir como quem olha

Pensar como quem anda

E quando se vai morrer,

Lembrar-se que o sol morre

Que o poente é belo

E é bela a noite que fica

Como disse Fernanda Montenegro, já vivi mais tempo do que viverei. De agora em diante viverei o luxo de estar vivo, respirando, consumindo oxigênio. É preciso valorizar, cada vez mais, cada minuto que passa. Amar a vida. As pessoas.

E enquanto isso eu me desejo Feliz Aniversário e dou vivas à vida, à nossas vidas, à vida que enche esse mundo de amor e paz, porque tudo é belo e desafiador. Viva nós todos! Vivam!

Parabéns pra você, nessa data querida… E viva o Parmeira! Porco! Porco!

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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