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Outro efeito se produzia, com a entrada em cena do fonógrafo elétrico, na maneira de cantar, pois, agora, os cantores já não precisavam mais berrar como loucos para que suas vozes pudesse ser gravada nos velhos cilindros de cera das Casas Figner e Bogary. Todo mundo passou a cantar mais calminho, e talentos novos começaram a aparecer. Em Recife, por exemplo, surgiram os “Turunas da Mauricéia” que, com seu líder, Augusto Calheiros, inauguraram um padrão musical que fundou os paradigmas da música nordestina, com sua composição de cavaquinho, flauta, violão e bandolim. No Rio de Janeiro, liderados pelo lendário Almirante, surgiu o “Bando de Tangarás”. As novas técnicas de gravação e reprodução permitiam a valorização do conjunto musical – e não mais do cantor gritalhão –, afetando a todas as sensibilidade e permitindo uma harmonia da voz humana ao naipe instrumental.

E, nesse contexto, surgiu Elisinha Coelho, hoje já esquecida, mas que foi uma grande intérprete brasileira, com sua voz delicada, suave, melancólica e que, como ninguém, dialogava com sua banda, criando uma harmonização em voz e conjunto que as velhas técnicas de gravação tendiam a não permitir. Foi Elisinha quem primeiro gravou, em 1931, no RCA Victor de gravação n° 33.444, aquela composição de Lamartine Babo e Ari Barroso destinada a, desde o primeiro momento, se tornar um clássico da música brasileira:

No rancho Fundo
Bem prá lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade!

Não obstante o talento de todos eles, paraense como sou, cabe lembrar que há um imbróglio envolvendo essa composição, a qual teria sido composta sobre letra, na verdade, de Antônio Tavernard, poeta paraense exilado, desde os 18 anos de idade, pela hanseníanse, então uma doença sem esperança de cura, no “Rancho Fundo”, um chalé no fundo do quintal, precedida pela casa maior em que morava sua família – esquina das avenidas Conselheiro Furtado e Generalíssimo Deodoro. Ao que consta, foi dona Yayá Castro, vizinha do Tavernard, senhora casada com um primo do meu bisavô e fã incondicional do pobre rapaz, amiga da família Tavernard desde os tempos em que todos (os Lobo de Castro, os Martin, os Frazão, os Tavernard, os Ferreira Celso e os Calandrini Fonseca) eram vizinhos em Icoaraci e faziam serestas todas as semanas, comovidíssima com sua situação, que legou ao mundo essa versão – amparada mais tarde pelo grande Vicente Sales (1998), que seriamente considerou a hipótese de que a letra seja de Tavernard e pelo não menos grande Gentil Puget, amigo de Tavernard e grande músico paraense.

Imagem de Antônio Tavernard extraída de http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/para/antonio_tavernard.html

Por outra via, informam Bel Fares e Venize Rodrigues (2017) a partir de depoimento do jornalista Cleodon Gondim, o poeta teve o privilégio de receber Lamartine Babo no seu Rancho Fundo e este teria lhe dedicado a música. O “moreno que chora as mágoas seria o próprio Tavernard”.

Sem adentrar mais no assunto, lembro que Antônio Tavernard nasceu na Vila de São João do Pinheiro, atual Icoaraci, em 1908. Seus dois livros publicados, “Fêmea” e, post-mortem, “Místicos e bárbaros”, são grandes textos, que merecem ser reeditados e lidos. Tavernard morreu em Belém, justamente muito novo, em 1938.

Nesse ano de 1938, por sinal, o fonógrafo elétrico já se encontrava disseminado no país e no mundo, e não me impeço de compreender que ele teve seu papel nas elucubrações autoritárias de Getúlio Vargas. No ano anterior, Getúlio Vargas, já aboletado no poder desde a “revolução” de 1930, havia, como se sabe, dado o infame golpe de Estado que o tornaria (de son propre droit) ditador, e instalaria o Estado Novo. Esse “novo”, palavra da qual sempre devemos desconfiar – ensina a história – era, na verdade, um termo dissimulador de um desejo de padronização que – isto insiste em não me sair da mente – tinha a ver com o fonógrafo elétrico: uma ideologia da repetição, da padronização, da conformidade e da mesmidade.

Vargas foi um amante da mesmidade – metaforicamente garantida pelo fonógrafo elétrico. Certo, há ironia no que digo, mas o fato é que foi nesse ano fatídico, anteato do início da II Guerra Mundial, com sua índole autoristarista, que Vargas deu início a uma operação de fabricação laboratorial da “identidade nacional” brasileira, amalgamando símbolos que, então, não passavam por elementos de uma identidade brasileira, como a feijoada, o samba e o carnaval, além das cantoras do rádio, é claro.

A Rádio Nacional, agente fundadora da mesmidade brasileira, fora criada em 1936. Era uma empresa privada e tinha alcance quase nacional. Fora inaugurada no dia 12 de setembro desse, precisamente às 21h03 horas (devia ter sido 21h, mas houve um atraso), quando locutor Celso Guimarães berrou: “Alô, alô Brasil! Aqui fala é a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!“. Seguiram-se, simbolicamente, os primeiros acordes de “Luar do Sertão” – a composição de Catulo da Paixão cearense e João Pernambuco – uma bênção do cardeal da capital, dom Sebastião Leme, um discurso do presidente do Senado, Medeiros Neto e, dentre outras atrações, uma apresentação da já referida Elisinha Coelho (Aguiar, 2007).

Em 1940, por decreto, Vargas estatizaria a empresa, tornando-a veículo ideológico do Estado Novo (Saroldi, Moreira, 2005) e, por essa via, impregnando os brasileiros de sentimentos pátrios até então mais difusos.

Mas retornemos aos experimentos autoritários do Estado Novo. Numa correspondência confidencial datada do dia 30 de março desse ano de 1938, o embaixador da Alemanha nazista no Brasil, Karl Ritter, que estava no posto desde o ano anterior, informou ao III Reich que “o presidente estava obcecado com ideia de eliminar as diferenças étnicas existentes na população brasileira, e criar uma raça brasileira homogênea, com uma língua e uma cultura uniformes” (Rahmeier, 2008, p. 6).

Pois é. A Alemanha tinha olhos atentos para o Brasil do Estado Novo. Havia uma partilha de horizontes. Cá, e lá, tudo o que se queria era padronizar identidades e construir a mesmidade.

Os diplomatas alemães apostavam em um possível alinhamento do governo aos ideais integralistas, e isso se devia ao fato de que a nova Constituição de 1937 pressupunha esses ideais. A correspondência da embaixada alemã no Brasil com o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha, o poderoso Auswärtiges Amt (AA, para os íntimos), aludia permanentemente o integralismo e o crescimento do Partido Nazista do Brasil, notadamente no sul do país.

Parecia uma torcida, e de vez em quando o AA enviava relatos entusiasmados para o Reichskanzlei (o gabinete de Hitler), para o ministério da propaganda e para o ministério da guerra dando notícias sobre a índole fascista do Estado brasileiro – senão mesmo de seu povo como se encontra nos Bundesarchiv Abteilungen.

Mas como essa conversa está ficando pesada, acho prudente retornar a Elisinha Coelho. Vocês já a escutaram? Vejam aqui. E digam se não é maravilhosa (ah, a gravação é a original de 1931, feita pela RCA Victor n° 33.444). Se a escutarem entenderão o que eu quero dizer sobre a beleza, a harmonia e a paz interior trazidas à música brasileira, estruturalmente, pelo fonógrafo elétrico. E isso diz mais sobre identidade do que sobre mesmidade. Semana que vem continuo.

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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