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Eu tinha 18 anos quando saiu no Brasil o álbum “Transa”, de Caetano Veloso, com uma capa objeto. Pouco depois o baiano estava de volta ao país fazendo shows onde misturava Carmen Miranda, rock e compositores da velha guarda. Ele e Gil haviam sido exilados em Londres, onde além de mergulhar na onda dos anos 60, quando a cidade fervilhava, serviam de referencia para outros brasileiros em visita. Ambos gravaram discos, Gil na pop music de “Crazy Pop Rock” e Caetano, extremamente triste, desde a capa, mas incluindo “Maria Bethânia, please send me a letter…” E então, de repente baixa “Transa”, repondo todas as coisas no lugar. No meio do tiroteio ficamos aqui, representados por Gal “Fa-tal”, Jards Macalé, Mautner e os mineiros comandados por Milton Nascimento. O disco de Caetano foi longamente ensaiado na residência londrina, para chegar ao estúdio tinindo. “You don’t know me, bet you never get to know me, you don’t know me at all”, dizia a primeira música, rapidamente seguida por trechos de canções brasileiras, algumas folclóricas da Bahia, afoxé, samba de roda do recôncavo, além de citações de Dorival Caymmi, Baden e Vinícius, estas em “It’s a long way”, onde cita Beatles “It’s a long and winding road”. E então vem “Walk down Portobello Road to the sound of reggae, I’, alive”, onde apresenta o reggae, embora com desenho próprio, com a guitarra de Macalé brilhando, ele que foi o produtor do trabalho. Há também Monsueto em “Mora na Filosogia”, aquela de “praquê rimar amor e dor”, além de “Neolithic Man”, onde a guria Angela Ro Ro está na gaita. Era informação demais. No palco, juba enorme, blusas femininas e calças vermelhas, além de tamanco holandês, ele chocava a caretice que gritava “viado” com todas as forças. Não tive as blusinhas mas comprei calça vermelha e tamanco. Uma vez, com os amigos, sofri encarnação. Por precaução, guardei no armário. Caetano dizia, novamente, tudo o que eu queria ouvir. Cultura, pop, informação, ousadia. É isso, ou tudo isso. Há poucos meses, festejando 51 anos de lançamento, o show foi prejudicado por chuva. Mas foi repetido há dias, no Rio de Janeiro, em apresentação mega lotada, com quase toda a banda original e até a presença de Ro Ro. Meu amigo Rohan Lima estava lá. Que inveja! Havia até uma pessoa de maca, acompanhada por médicos, assistindo, tipo meu último pedido. A plateia com todos os quês e sem quês da Cidade Maravilhosa. Disse-me que voltou a ter 17 anos com todos os sonhos da época em que morava ainda em Macapá. Se vocês tivessem idéia da dificuldade das comunicações na época, para saber as novidades, sendo jovem e desejando estar antenado com a música, cinema, teatro, literatura, saberiam desse sentimento. Houve também um show em Salvador na companhia de Chico Buarque e Mpb4, gravado e lançado em algum verão em que passava férias no Rio. Foram momentos inesquecíveis. Como era bom e potente. Agressivo e carinhoso. Audacioso e criativo. Gil demorou mais, mas veio com “Back in Bahia”, maravilhoso. Não há um ponto sequer de intercessão com o que vemos e ouvimos hoje. Pronto, falei. Tomara que tenham gravado. Seria imperdoável negar aos brasileiros um show comemorativo tão importante.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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