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Estava posto em paz quando li no celular mensagem congratulando-me por um prêmio. Não atinei. Na segunda mensagem entendi que havia sido premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte pelo livro “Eu Já Morri”, de contos, lançado em 2022. Aos poucos foi caindo a ficha da importância daquela premiação. Para quase todos é a mais importante do Brasil, uma vez que o Prêmio Oceanos abrange todos os países da Língua Portuguesa. Eu já havia “batido na trave” por duas vezes. Compreendia a dificuldade em ser premiado. Muitos concorrentes excelentes, editados por empresas poderosas no mercado. Depois, sempre brinco dizendo que livro “não mete gol” e que qualquer escolha é subjetiva. Dei a notícia mas houve pequena repercussão, entre amigos. As pessoas andam apartadas das notícias culturais. Os jornais, principalmente os televisivos tornaram-se um boletim dos crimes do dia. Mas em São Paulo, no meio artístico, pois a APCA premia nas mais diversas categorias como Arquitetura, Balé, Literatura, Cinema, Teatro, Artes Plásticas e mais, a festa é aguardada ansiosamente.

Lá fui eu à Sampa receber o prêmio. Por uma coincidência agradável, a entrega foi no Teatro Sergio Cardoso, não sei se sabem, um grande ator paraense. A casa estava lotada com artistas de todas as áreas, Tv Cultura filmando e lá fui ao palco receber um troféu. Não há como não sentir-se um “penetra” na festa dos paulistas e cariocas. Muitos não são de lá, mas estão lá, lutando por um destaque e desenvolvimento da carreira. Quanto a mim, que permaneço morando em Belém, sinto-me um “penetra”. Vou ao microfone e digo meu nome e meu Estado de origem. Da importância, para mim, estar ali e também que gostaria que aquela visibilidade se verificasse para a Cultura do Pará. Ainda há como uma parede de gelo, como a do “Game of Thrones”, impedindo que cheguemos ao grande mercado e este, claro, protege-se. Há um certo orgulho em achar que o mundo cultural se circunscreve às fronteiras do Sudeste. Pois tive muita sorte em encontrar na Boitempo, da querida Ivana Jinkings, uma editora que apostou em mim, livro após livro, que espalhou pelo Brasil e também vendeu para outros países. E há também direitos vendidos para o cinema. Estou certo que mesmo assim, a maioria dos presentes no Teatro não sabia quem estava ali, para receber o prêmio. Sei disso. A importância está no prestígio angariado em termos de Brasil e espero alguma curiosidade por nossa Cultura. Mas o que penso, mesmo, é que devemos nos amar mais. Devemos nos unir, embora sejamos tão desunidos. A Amazônia é a maior parte do Brasil. Nossas distâncias nos impedem maior convivência. Mesmo no Pará são longas viagens. Mas devemos apostar em nos unir. Investir em festivais, feiras, encontros, em que estejam os Estados amazônicos. Devemos trocar experiências. Provocar os governos estaduais. Mas se nem no Pará conhecemos nossos colegas do interior? Talvez a televisão seja culpada ao ser geradora de cultura e consumo a partir do Sudeste. Mas se não nos reconhecermos, se não formos reconhecidos pelo povo da Amazônia, pior é ficar sonhando em ser consumido no Sul Maravilha. De lá é que não virá. Se ficarmos eternamente aguardando e enquanto isso consumindo costumes, sotaques e gírias de outras bandas, nada nos sobrará. Estive em Teresina, dias atrás. Certo, os Estados são menores e coladinhos. Juntos, eles deixam de ser piauienses, alagoanos, paraibanos e etc. São Nordeste em costumes, cultura, tudo. Será sonho e tarefa impossível nos amarmos e nos consumirmos, nós, povo e artistas da nossa terra?

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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