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Quando o poder embota os olhos e a alma

O jornalista Elias Ribeiro Pinto, com muita propriedade, dissertou em sua coluna de anteontem sobre tema que está na ordem do dia nas redes sociais. Confiram:
 
“Sai daí, Nilson
(abaixo o presidente, viva o músico)

1. Artistas costumam desafinar quando descem do palco e sobem as escadas do poder para assumir cargos públicos. Há exceções, claro, que por serem exceções deixam ainda mais à mostra o que
é regra, maioria, evidência. Para quem troca o proscênio pelo gabinete, a dificuldade já se instala na separação de corpos do gestor e do artista, o burocrata do criador. Daí o risco sempre constante de misturar as “pautas”, o conflito em conciliar agendas.

2. Quando ministro, por exemplo, Gilberto Gil tentou manter em cursos distintos, com autonomia própria, a atividade ministerial e a agenda musical. No entanto, nem sempre conseguiu evitar o embaralhamento desse jogo de cartas, que em alguns casos passaram por marcadas.

3. Posturas, comportamentos ou comprometimentos políticos também costumam macular a carreira artística, tingindo-a, inclusive, com manchas que desafiam mesmo o poder saponáceo do tempo. Caso como o de Wilson Simonal pode ilustrar o que se diz aqui, com seu tanto de mal-entendido ou, forçando a barra, de “espírito de época”, de contexto.

4. Contexto que pode mudar. Se antes pegava bem apoiar Cuba para lustrar a imagem de revolucionário e defensor das causas sociais, hoje o Chico Buarque de ontem soa reacionário, stalinista. Roberto Carlos, Gilberto Gil, Caetano Veloso e o próprio Chico nos serviam de referência como trilha sonora das nossas vidas, e por isso mereciam nosso respeito à trajetória biográfica que construíram. Mas depois do breve e pepinoso Procure Saber, suas biografias, que se queriam autorizadas, passaram a carregar a sina e o peso de autoritárias.

5. E agora, entre nós, mais um “artista gestor” se deixa enrodilhar pelas malhas dessa duplicidade potencialmente deletéria. Sentindo-se provocado por comentários nas redes sociais a respeito de um mal súbito ocorrido com a atriz Nilza Maria em São Paulo, que para lá viajara em breve temporada teatral, e que exigia pronto atendimento em decorrência da idade da artista, assistência que a mobilização do governo do Pará poderia facilitar, ou mediar, o presidente da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, o músico Nilson Chaves deixou sua “zona de conforto” e desafinou.

6. Investido do cargo, mas sem descer do palco, Nilson se dignou, momentaneamente, a dirigir a palavra ao diretor teatral paraense Paulo Faria, para desqualificar os comentários do dramaturgo, por considerá-los tendenciosos. Daí, repudiando carapuças supostamente atiradas, e acusando seu interlocutor de “misturar as bolas”, troou: “Não ficarei calado”.

7. Antes tivesse ficado, preservando o mutismo que tem caracterizado seu desempenho à frente do Centur. Nilson, ele sim, “misturou as bolas”. Declarou que ninguém “da classe me elegeu. Quem me elegeu [para o cargo que ocupa, suponho] foi o governador”. Na verdade, é difícil traduzir o patoá em que o presidente da fundação se expressa. Beira a indigência intelectual.

8. Ainda no “post” do Paulo sobre o assunto no Facebook, o jornalista Lúcio Flávio Pinto, em boa hora, se manifestou: “Caro Nilson. Sempre o admirei como pessoa e respeitei enquanto artista. Mas a sua reação ao post do Paulo revela em quem você se tornou como presidente da fundação estadual. Nega o que você tem sido como pessoa e artista. Você não ocupa cargo eletivo. Logo, não lhe cabe carapuça alguma. O que você ocupa é uma função de confiança, daí sua designação pelo governador. Mas se deve a Jatene retribuição e lealdade, jamais esqueça que o seu patrão – primeiro e último – é o cidadão-contribuinte, cuja maioria de votantes colocou Jatene no cargo, a partir do qual houve sua nomeação. Logo, reaja a críticas públicas com esclarecimentos púbicos, não com agressões, mas com informações. Ou, se não quiser manchar sua biografia, então renuncie ao cargo público. A condição primordial da função é servir ao público. Um abraço, Lúcio Flávio Pinto”.

9. Como diria aquele outro: sai daí, Nilson. Rápido. A tempo de salvar sua biografia. Volte ao palco, onde você nos diz, e melhor ainda, canta coisa com coisa.”

 
Adriano Barroso arrematou: “mano Elias Ribeiro Pinto, quisera eu ser um pouco mais inteligente para traduzir, como traduzes, o que nós pensamos sobre o artista e gestor em questão. Porém, nessa terra, todos do poder tendem a ser, ou virar, sei lá, coronéis, pois assim fomos criados. Se há uma voz crítica, logo é conduzida aos porões escuros e silenciado, ou pior ainda, qualificado de adjetivos poucos condizentes coma tal democracia (que ainda sonhamos) e massacrado. Ainda temos muito a dizer sobre como a cultura nesse E(e)stado é mal conduzida e pensada, mas fica soando a voz do artista cantando: “Tá mal aqui, mas vai mudar.”

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