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Uma geração inteira, nascida nas décadas de 50 e 60, século passado, e que se notabilizou por promover mudanças drásticas no comportamento das pessoas nos mais variados níveis, agora está com 70 ou 80 anos. Seus ídolos ainda estão, vários, em pleno desenvolvimento de suas carreiras. Paul McCartney encara shows de até três horas de duração para plateias lotadas, inclusive por muitos jovens. Os Beatles têm uma gravação, “Now and Then”, lançada, a partir de um demotape de John Lennon, com a ajuda da IA. Na AppleTv, um documentário reexamina o assassinato de Lennon em NY. Os Rolling Stones estão com álbum novo e canções inéditas. Ainda na AppleTv, um filme sobre Gal Costa, que nos deixou há pouco. O mais curioso, no caso de John, Paul e Gal, é que revemos um tempo maravilhoso de nossas vidas em que estávamos tão ocupados desfrutando, que nem parávamos para pensar naquilo tudo. Eu estava na minha loja de discos 33 ¼ quando soube da morte de John. Acompanhei, com meu irmão, desde os oito anos de idade, talvez, toda a carreira dos Beatles e em carreira solo também. Gal Costa em especial momento para mim, tv em p&b, nos festivais, Chacrinha e no show “Fa-tal”. Sou saudosista normal. Meu tempo é hoje, como dizem. Desta vez não fui assistir Macca, mas quando o fiz, derramei todo um sentimento pelas músicas, afinal, os Beatles nunca vieram ao Brasil e se viessem, não teria dinheiro, na época, para comprar ingressos. Sobre o assassinato de John, li bastante e assisti algumas cenas, nada comparado a este documentário que entrevista porteiros, taxistas, detetives e mostra cenas inéditas do infausto acontecimento. Ainda não havia internet, nem tv colorida. Imaginem para os acontecimentos chegarem a Belém. Mas quero falar de Gal. Vai do início de Maria da Graça até “Fa-tal”, inesquecível. A tímida e discreta, cercada por Caetano, Gil, Guilherme Araújo, Tonzé, muito bem interpretados. Há tiros e explosões. Prisões. Ditadura. Ela titubeia. Vai. Cae e Gil exilados. Arrebenta em “Divino Maravilhoso”. Passa uma semana trancada no quarto, em choque com sua própria força interpretativa. “Baby” Caetano fez para Bethania que não quis. “London London”, foi direto para ela. Pouco sobre os amores femininos. Eu estava na plateia de “Fa-tal”. Antes houve “Legal”. Dois dos melhores discos de todos os tempos. O repertório, os músicos e Gal, com seu abdômen perfeito, bunda arrebitada, boca, nariz, lindos. Os shows eram celebrações. E tão mal gravado e maravilhoso o álbum duplo que devia ser relançado com o formato original do show. E Sophie Charlotte faz muito bem. Os comportamentos. A censura. As perseguições. Os caretas. Não fui muito politizado na época. Minha loucura era pelas músicas, arranjos, cantores, letras. Aquela mistura era minha praia. Já estava com Hendrix e Joplin. Que tempo! Agora assistimos contarem nossa história. O mundo em que vivemos. Junto com “Fa-tal”, a gravadora lançou de uma só vez “Krigh Ah Bandolo”, com Raul Seixas, “Manera Frufru Manera”, com Fagner, “Pérola Negra”, com Luiz Melodia, “Eu vou botar meu bloco na rua”, com Sergio Sampaio. Olhem esse time! Assistir ao filme de Gal é olhar para um tempo em nossas vidas. E Paul ainda está por aí. John se foi. Os Rolling Stones ainda rolam pelo mundo. Ouço Beatles no carro, porque o inverno chegou e é dezembro.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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