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Quando tive meu primeiro carro, um fusca, havia nele um som no formato de cartucho de oito pistas, no tamanho pouco menor que a capa dos dvds. Cabiam álbuns inteiros e vieram também cartuchos de vários artistas, inclusive, Wilson Simonal, em sua fase mais brilhante, capa ensolarada, ele na praia, cheio de si. E estava, mesmo. Um grande cantor, com material vocal privilegiado, que começou gravando bossa nova e alguns clássicos, admirado pelos mais antenados, mas desconhecido do grande público. Já nem sei o que veio primeiro, mas ele descobriu um molho diferente, ângulo gostoso do samba, que parecia com a balada marcada do cantor Chris Montez, aquele do “Call me”, que dava pra dançar junto, solto e batendo palmas, melodias simples e bonitas. Quem o ajudou foi Carlos Imperial, mistura de promoter, compositor, jornalista, cineasta, enfim. Ele chamou o pianista Cesar Camargo Mariano, que comandava o Som 3 para fazer os arranjos. Para as músicas, Imperial, Nonato Buzar, Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, entre outros. Wilson acertou em cheio. Naquela época, a ditadura dava embalo na indústria automobilística e veio então “Mustang Cor de Sangue”, de Marcos e Paulo Sergio Vale, lançando o Corcel, da Ford. Jorge Ben (na época), cedeu várias, como “Zazueira” e principalmente “País Tropical”, da qual se apropriou e tornou inesquecível, inclusive com o termo “Patropi”, usado por muitos anos. Simonal tinha a voz, o charme, a malandragem, o molejo e estava na hora certa. Nonato Buzar fez “Vesti Azul” e o cara arrebentou novamente. No auge, em um show no Teatro da Record, SP, cantou uma versão para “Meu Limão Meu Limoeiro”, do folclore, no seu ritmo de pilantragem e quando a platéia cantou, dizem, saiu do teatro, atravessou a rua, tomou um cafezinho e voltou para encerrar a canção. E veio também “Mamãe passou açúcar em mim”. Carlos Imperial estava por trás, cuidando de tudo. Inclusive, aproveitou o ritmo que chamou de “pilantragem”, juntou amigos no estúdio e fez versões de clássicos da mpb. Vendeu horrores. Tinha até Regininha, que os mais antigos se lembram, certamente. Mas havia um outro lado do sucesso, lado escuro, da inveja, preconceito e racismo. Simonal, por gênio, era pretencioso, dava declarações exaltando seu sucesso e o dinheiro que ganhava. Foi garoto propaganda de muitas marcas e chegou até a desenvolver um boneco, Mug, creio, que felizmente não durou muito tempo. Havia muita gente aguardando qualquer vacilo para punir aquele crioulo metido a besta que parecia ser o dono do Brasil. Houve um entrevero com um contador, creio, que aborrecido, o dedurou para a imprensa, como x9 dos colegas, para a ditadura. Aí vocês sabem, um fim de vida terrível, um assassinato em vida. Não conto o resto. Escrevi estas palavras porque nesta semana lembrei de Simonal, baixei os sucessos que tanto cantei naquele tempo e passo os dias ouvindo sua voz, seus chistes, “minha homenagem à mulher brasileira, deixa cair, vamos voltar à pilantragem” e até mesmo o pré rap “Nem vem que não tem”, de Imperial. Era uma época terrível de viver, sob ditadura, mas a música brasileira era muito boa, inclusive as mais simples e populares, sempre com qualidade. Convido-os a ouvir também.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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