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O domingo é das Mães com seus filhos nas mídias sociais. Sei que, pelos mais diferentes motivos há quem não tenha um dia feliz ou que ache um dia normal. As pessoas são assim. Mas creio que a maioria está festejando. Não tenho mais a presença física de minha mãe, mas penso nela o tempo todo. No carro, ouço-a cantando músicas de Gentil Puget que um dia transformarei em cd. Foi cantora das boas. Encontrei em revistas antigas elogios e até queixas quando se pôs a cantar um repertório mais regional. Nas serestas, quando cantava clássicos, deixava perceber uma enorme influência de Carmem Miranda e outras grandes na maneira de dizer a letra, jogando charme, encantando. Quando escrevemos em parceria uma música, ela acrescentou versos e adiante foi parceira do velho Edyr. Aposentados, voltaram ao mundo da música de onde saíram para assumir as responsabilidades da vida adulta. Quando lembramos nossas mães, nosso cérebro faz uma edição ultra rápida das cenas, frações de segundos, comprimindo tudo. Por isso, gosto de lembrá-la escrevendo porque a velocidade é menor e posso me deliciar com as cenas. Até começarmos a adolescer, eu e mais quatro irmãos, era a comandante em chefe. Dura na cobrança de estudos, cheia de imaginação para contar histórias, criar emoções. Cobrava correção vocabular. Quem dissesse algo errado levava “samba” dos outros. Talvez um pouco perplexa quando começamos a bater as asas. Mas já estava se preparando para a síndrome do berço vazio. Formada como professora, como quase todas as moças em seu tempo, começou a ensinar redação para vestibular, o que era e continua sendo um terror para os menos preparados. Sozinha, chegou a ter, em várias turmas, uns cem alunos. Assisti flashes de algumas de suas aulas. Uma encantadora de serpentes, fazendo de adolescentes em plena “aborrescência” um público atento, concorrendo a notas e presentes conforme a qualidade de sua produção. Hoje, estranhos me abordam para fazer elogios porque sem ter passado por ela, não teriam conseguido… enfim. Me enche de orgulho. Ela se reinventou. Com 90 anos ainda dava aulas. Era importante para fazer a cabeça continuar funcionando. Vinha mostrar os melhores trabalhos dos alunos. Vibrava com eles. Agora nós, os filhos, éramos adultos, profissionais da escrita. Mas qualquer dúvida, ligava pra ela. Era meu google. Escrevia poemas de amor para Belém, Amazônia, Mosqueiro, influenciada pela irmã, Adalcinda. Quando o pai partiu, ficou sem o companheiro de serestas. Veio um vazio. Houve sinais, mas reabilitou-se voltando a ensinar.

A mim deu-me tudo. Plantou a imaginação, a escrita correta, o uso da língua, caráter, ética, honestidade. Identificava-se com meu brilho fulgás na Literatura. Assistia às peças. Não sei se chegou a ler os romances. Acho que os temas eram muito pesados, não por receio de não entender, mas por vergonha de talvez enrubescê-la. Me desculpe, mãezinha. Excesso de respeito. Quando comecei a publicar na França, mandou fazer um poster dizendo que eu era o melhor e tal. Guardei bem guardado, mas feliz pela sua torcida. Me ensinou que a partir da Educação e Cultura, estamos aptos a fazer o que quisermos. Claro, conceito de bom ou ruim é outra coisa. E eu fiz. Quando me anunciam, listando atividades minhas sinto um certo constrangimento. Penso que talvez fosse melhor que escolhesse apenas uma coisa para fazer. Mas depois penso na felicidade da minha opção em me meter em tudo o que desejei. Penso que entendi sua pessoa. Ela nem sabia, mas eu estava atento a seus gestos, melodia de voz, seus sonhos realizados ou não, e vejo o quanto foi uma grande mulher, que após sufocar suas ambições artísticas para criar cinco filhos, reinventou-se, voltou a cantar, publicar livros e ser feliz. A todos os filhos, desejo que vejam seus pais em uma trajetória de vida, dificuldades, atravessando épocas difíceis e transformadoras, com os exemplos que ficam para sempre. Eu mesmo, pai, homenageio as mães de meus filhos e principalmente a minha inesquecível Celeste. Sua benção.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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