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Não assisti ao show de Madonna em Copacabana. Alguns highlights apenas e claro que deve ter sido maravilhoso. Madonna é uma revolucionária do showbiz, juntamente com Michael Jackson. Mas Jacko nunca chegou a ter performance desafiando os grandes temas mundiais, como Madonna Louise. Uma bailarina que em NY flertava com todas as chances que apareciam, até encontrar produtores jovens que toparam gravar. Tudo aconteceu. Madonna não precisava de músicos e sim de produtores. E bailarinos. Street dance. Seria como o punk rock enfrentando o glitter da disco. Ela e Jacko aproveitaram tudo da era MTV. Criaram clips com roteiro e transformaram seus shows em grandes espetáculos de luz, som e cenários modernos. Acabara a era do artista e seus músicos tocando e cantando estáticos. Ambos foram e são estudados em Universidades dedicadas à Comunicação e os meios modernos. Quando veio a internet estavam à frente.

A diferença pró Madonna é que nunca se transtornou pelo sucesso. A luta no início, infância triste, e decepções fizeram dela uma mulher dura, sempre focada no que pretendia. Foi casada umas duas vezes, acho, até com artista de cinema e bailarino e pronto. Todos os outros homens foram um passatempo breve. Muito bem assessorada, passou a fazer política na música pop. Deu voz às mulheres, chamou a atenção para a Aids, combateu o machismo, nomeie aí uma causa. Não é grande cantora. Voz pequena. As músicas, fora as letras defendendo habilmente uma causa, são melodicamente fracas, encorpadas maravilhosamente por um instrumental que as transforma em hits instantâneos, distribuídos em várias versões remixadas para diferentes tribos. Nunca parece se emocionar de verdade. Dizem que chorou no show daqui. Será? Quando a discussão sobre feminismo cresceu, já estava há muito na área. Fez discurso no Oscar ou Grammy, oferecendo também performances que lhe deram capa de jornais. De sua vida privada, sabemos apenas o que lhe interessa que saibam. Seus filhos, uma, natural e outros adotados, alguns já quase adultos. Algo que a perturbou um tanto foi o próprio sistema da música pop. Os artistas ganharam o mundo. Não se trata mais de fazer sucesso nos EUA ou Inglaterra. Um album é gravado durante um ano, por exemplo. Enquanto os hits levam a novidade, o artista ensaia durante meses o megashow de lançamento, que leva mais dois ou três anos para rodar o planeta. E enquanto o tempo passa, é lançado album gravado no show, também vendido em streaming. Quando acaba, ainda há hits tocando e o artista se entoca para se poupar da over exposion, que precisa descansar. Nesse ínterim, a música pop não parou de mudar. Novos artistas, novo instrumental, novo ritmo. É preciso procurar as novidades, se integrar para voltar à luta em condições de competir. E há a idade, também. Mas aí Madonna constrói esse megashow com tudo de mais novo em tecnologia, seus bailarinos, figurino, convidados certos, alguns momentos de ousadia e apresenta seu repertório. Quem tem tantos hits à sua disposição? Ela é admirável, mas sinto nas entrevistas uma atriz e seu texto, fazendo pensarem o que ela quer que pensem. Fria como o aço, uma profissional vitoriosa em um mundo onde só vencem os realmente fortes, talentosos e com fome de sangue. Quando entra na arena sabe que vai matar a fera. E mata. Defende-se com o talento, dá coices, maneja armas afiadas. Strike a pose. Não assisti porque tinha algo mais importante a fazer, mas o pouco que vi foi arrebatador como show, megashow.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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