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Andou me faltando inspiração para as crônicas; estive com as ideias demitidas de mim. Até preocupei-me com isso, mas hoje, último dia de um ano eloquente e sincero, me ocorre que esse vazio não era ausência e sim ocupação. Com tudo o que precisei arrumar nas gavetas e estantes que me cabem (das quais sou feito), não havia em mim, nos estertores de 2023, algo mais que valesse a pena ser lido ou escrito. Antes era imprescindível encerrar os arquivos deste tempo e encaminhá-los ao passado, abrindo espaço novo nas prateleiras da vida.

Não foi uma temporada ruim, muito ao contrário, mas demandou doses extras de resiliência, coragem e abdicação. Algumas coisas reaprendi a valorizar, de outras precisei abrir mão, mesmo a elevado custo afetivo, sem o que às primeiras sobraria um tempo menor do que merecem.

No ano que chega ao fim vi a finitude atravessar a rua em sentido contrário ao meu, olhando-me nos olhos. É provável que em outras ocasiões ela tenha passado por mim, quem sabe até tenhamos nos esbarrado, mas desta vez a percebi com clareza, notei que me fitava e senti seu hálito gelado e putrefato. E se é verdade que cada um seguiu seu curso – eu cheguei à calçada oposta e continuei a caminhar enquanto a parca tomou rumou desconhecido e segue alhures, ocupando-se de outros ocasos -, também é verdade que não há como esquecer aquele flerte.

Em 2023, graças ao diagnóstico felizmente precoce de um carcinoma papilífero de tireóide, fui compelido a lembrar, como cantava Raul Seixas, que “a morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina ela vai me beijar…”. A notícia chegou em maio, suavizada pela boa vontade e benquerença de bons amigos e excelentes médicos, acompanhada de estatísticas, relatos e dados clínicos que indicaram desde a primeira hora o bom prognóstico que até hoje resta confirmado, mas isso não a tornou menos desagradável, não retirou dela seu maior impacto, qual seja o de remeter-me compulsoriamente ao mais solitário e desconhecido dos lugares: o espelho.

Não me refiro àquele que reflete vaidades e veleidades, mas sim ao que nos expõe visceralmente a nós mesmos, deixando-nos frente a frente com o que temos de pior e mais fraco. Foi um exercício interessante e ainda levarei algum tempo para compreender as conclusões que dele decorreram. Por agora me basta a percepção plena do valor e da sacralidade do que me é mais caro: família, amigos, trabalho, sossego, arte e lazer.

Fui operado em junho e sigo muito bem – bendito seja Deus por essa benção! -, mas junto com a malfadada glândula tive também extirpadas a disposição e a tolerância para perder tempo com o que não me interessa, não me acrescenta, não me dá alguma espécie de satisfação e prazer, e isso tem sido bom. Quanto ao lado negro da força, formado pelas chatices inevitáveis da vida, vou tentar administrá-lo confiando que a reposição hormonal diária contenha algumas doses profiláticas de paciência.

O que passei me fez lembrar de Saramago a conceituar o termo final que ele percebia aproximar-se: “Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia; provavelmente é isto a velhice.” No meu caso não se cuidou de senectude, e sim de uma doença que os céus me permitiram curar.

A vida é breve, muito mais do que poderia ser, e o tempo perdido é absolutamente irrecuperável. Alcançar a compreensão dessa verdade foi meu maior presente em 2023. Espero que 2024 me traga a sabedoria necessária para usá-lo com parcimônia, especialmente para gozar ao máximo a convivência dos que amo e estimo.

Ao ano que finda dedico um poema de Miguel Torga chamado Viático:

“Levarei um poema. Não quero outra bagagem. E com ele pagarei a passagem na barca de Caronte. Um poema que conte, sem contar, o derradeiro olhar que der ao mundo. Um soluço de luz, paralisado no fundo da retina. Um relance de pânico, cantado por quem já desde a infância o imagina.”

Ao ano que chega dedico um poema de Maria do Rosário Pedreira:

“Não digas ao que vens. Deixa-me adivinhar pelo pó nos teus cabelos que vento te mandou. É longe a tua casa? Dou-te a minha: leio nos teus olhos o cansaço do dia que te venceu; e, no teu rosto, as sombras contam-me o resto da viagem. Anda, vem repousar os martírios da estrada nas curvas do meu corpo – é um destino sem dor e sem memória. Tens sede? Sobra da tarde apenas uma fatia de laranja – morde-a na minha boca sem pedires. Não, não me digas quem és nem ao que vens. Decido eu.”

E desse modo, finalizando e reiniciando os ciclos do tempo com poesia, desejo a todos, sinceramente, um feliz e abençoado 2024!

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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