Publicado em: 30 de maio de 2026
Em 29 de maio celebramos o Dia da Geógrafa e do Geógrafo. A data, que faz referência à criação do Instituto Nacional de Estatística há 90 anos, semente do nosso atual IBGE, nos convida a refletir sobre o sentido e a atualidade do “ser” espacial, da geopolítica e do fazer geográfico. Em um mundo em intensas transformações, a Geografia se ressignifica como ferramenta fundamental para compreendermos a nossa experiência contemporânea, marcada pelo colapso das expectativas, e para tentar redesenhar os mapas da esperança a partir das resistências produzidas pelo corpo-território. Quando as antigas promessas de futuro se desfazem e a expansão do capital parece alcançar todos os cantos da vida, talvez a principal tarefa da Geografia seja justamente reconhecer onde a existência ainda resiste e onde a esperança continua produzindo território.
Partimos da constatação de que o sistema-mundo que conhecemos está em colapso e o nosso cotidiano é a maior prova disso. Vivemos o resultado de uma contradição profunda: por um lado, vivemos o avanço do neoliberalismo como o espírito do nosso tempo, impondo uma crença inabalável no capitalismo como único futuro possível. Por outro lado, a crise estrutural do capital assume contornos inimagináveis, com a financeirização desenfreada, o endividamento crônico e a queda da taxa geral de lucro. Além da dimensão econômica, a crise social atravessa diversas dimensões e coloca em ruína três grandes pilares da modernidade.
O resultado desse processo é a erosão das grandes promessas que sustentaram a legitimidade do mundo moderno. A igualdade revelou seus limites diante da multiplicação dos “sem direitos”; a liberdade foi capturada pelos imperativos do mercado e da guerra; e o progresso, antes celebrado como horizonte inevitável, confronta-se agora com os limites ecológicos do planeta e com a incapacidade do sistema de oferecer um futuro compartilhado. Mais do que uma crise econômica, vivemos uma crise civilizatória.
E quando as promessas entram em colapso, surge uma questão inevitável: onde permanece a possibilidade de resistência? Se o capital avançou sobre a terra, sobre o trabalho, sobre a natureza, sobre a cultura e até sobre o imaginário, as lutas sociais tendem a se deslocar para o terreno mais elementar da existência. É nesse ponto que emerge a potência política do corpo-território.
Nesse cenário, a Geografia se ressignifica para interpretar um espaço que se torna cada vez mais esquizofrênico. Por que, então, falar em mapeadores da esperança? Por que, diante de tantas agruras, falar em esperança?
Porque o geógrafo e a geógrafa deixam de ser meros levantadores de dados ou catalogadores de rotas e riquezas naturais para assumir o papel de quem interpreta o eixo central de resistência ao sistema. O aprofundamento da crise estrutural do capitalismo e o esgotamento das promessas da modernidade deslocaram os conflitos sociais para a esfera mais fundamental da existência: a defesa da própria vida. Se a modernidade prometeu progresso, liberdade, igualdade e bem-estar universal, a expansão contemporânea do capital tem revelado seus limites por meio da intensificação das desigualdades, da mercantilização da natureza, da precarização do trabalho e da destruição de territórios e modos de vida. Nesse contexto, o corpo deixa de ser apenas um suporte biológico do indivíduo e passa a ser compreendido como o primeiro território de inscrição da violência e, por conseguinte, da resistência. As agressões sofridas pelas comunidades não se restringem à expropriação da terra; elas atingem simultaneamente os corpos, a memória, os afetos, a saúde, a cultura e as formas coletivas de reprodução da vida.
É aí que a Geografia como mapeadora da esperança ganha sentido. Mapear a esperança não significa ignorar o colapso, mas identificar os lugares onde a vida insiste em florescer apesar dele. Significa reconhecer as práticas de cuidado, os territórios comunitários, os saberes ancestrais, as formas de solidariedade e os modos de existência que permanecem recusando a lógica da mercantilização total. O que a Geografia encontra são espaços de resistência, onde o futuro teima em ser reinventado.
Forjado nas lutas de mulheres indígenas, camponesas e comunidades tradicionais da América Latina, o corpo-território nasce da compreensão de que não há separação possível entre a violência exercida sobre a terra e aquela exercida sobre os corpos. A expansão contemporânea do capital não expropria apenas recursos, rios, florestas e territórios; ela também incide sobre as formas de viver, sentir, cuidar e reproduzir a vida. Por isso, a defesa do território passa a ser, simultaneamente, defesa da existência.
Por essa razão, o conceito de corpo-território representa uma ruptura com a racionalidade moderna que separou sujeito e natureza, indivíduo e comunidade, corpo e espaço. Quando a expansão do capital alcança praticamente todos os territórios disponíveis, incorporando recursos naturais, saberes tradicionais e até os bens comuns da vida, a resistência passa a ocorrer justamente naquilo que permanece menos suscetível à completa mercantilização: os corpos e as relações que sustentam a existência coletiva. A defesa do território assume uma dimensão existencial, voltada à preservação das condições materiais e simbólicas da vida. O corpo-território emerge, assim, como a última fronteira de resistência porque nele convergem todas as dimensões ameaçadas pela crise civilizatória contemporânea: a autonomia dos sujeitos, a reprodução comunitária da vida, a memória histórica, os vínculos afetivos e a relação com a terra.
Nessa condição, o corpo-território converte-se simultaneamente em resposta à racionalidade moderna, à expansão neoliberal, às heranças coloniais, à colonialidade persistente do poder e às formas contemporâneas de necropolítica que administram quem pode viver e quem pode morrer.
Nessa perspectiva, a resistência não se organiza apenas em torno da propriedade ou do controle formal do espaço, mas da defesa de formas de vida que escapam à lógica da acumulação. O corpo-território torna-se o lugar onde se confrontam, de um lado, as forças que buscam transformar toda a existência em mercadoria e, de outro, os sujeitos que afirmam a vida como valor irredutível. Se as antigas fronteiras geográficas foram progressivamente incorporadas pelo capital, a fronteira decisiva do século XXI passa a ser a capacidade dos povos, comunidades e movimentos sociais de proteger os territórios inscritos em seus próprios corpos e de reconstruir, a partir deles, alternativas de existência diante do colapso das promessas modernas. O sentido da Geografia passa a ser ler esta nova geopolítica do existir. Existir, no sentido mais profundo, é friccionar. A resistência é a fricção espaço-temporal que os sujeitos coletivos exercem contra a sua própria extinção, reinventando a vida onde o sistema previu o vazio. Se o capitalismo produz colapsos, ausências, desterritorializações e silêncios, o corpo-território torna-se o espaço onde a vida responde, reocupa e recria sentidos. Por isso, o papel da Geografia não é apenas cartografar o que desaparece, mas também reconhecer aquilo que permanece. Ser geógrafo e geógrafa é aprender a mapear as resistências e reconhecer que onde a vida resiste, a esperança produz território.
Por fim, um apontamento importante: tomo como livre inspiração para este manifesto a belíssima obra “O Mapeador de Ausências”, do escritor moçambicano Mia Couto. No romance, o autor nos conduz pela jornada de Diogo Santiago, um intelectual que retorna à sua cidade natal, Beira, às vésperas de um ciclone, para buscar os rastros do passado e os fantasmas da guerra colonial. Ali, mapear não é registrar o que está visível, mas sim dar contorno às perdas, aos silêncios e ao que foi violentamente apagado pela história oficial.
Fica aqui o convite para que conheçam essa obra extraordinária. Que, a exemplo da literatura de Mia Couto, a nossa Geografia saiba ser a ciência que lê o colapso, mas também mapeia as ausências e as insurgências para, sobre elas, desenhar horizontes de dignidade e reencontrar a vida.
Viva a Geografia!










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