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Eu achei que meu irmão fosse seguir a carreira como escritor, como um “contador de estórias”, quando éramos ainda crianças. Ele tinha muita curiosidade sobre todos os assuntos. Lia HQs, desenhava, assistia muitos filmes, lia livros, compunha paródias de sucessos para atentar seus irmãos. E principalmente, tinha e tem uma memória prodigiosa a respeito de fatos passados, pessoas que encontrou, situações engraçadas, lembrando dia e hora em que aconteceram. Sou o contrário disso. Não sou bom de lembrar datas e eventos. Misturo tudo. Mas é que o mano começou a trabalhar na Rádio Clube e a responsabilidade, a seriedade dos postos que foi conquistando, como locutor esportivo, apresentador de programas musicais, jornalista, como que não deixou espaço a não ser para amigos e mais íntimos onde continuou com seus “causos” maravilhosos. Curioso que isso também aconteceu com meu pai, que lançou seus dois livros e estava escrevendo um terceiro quando se foi repentinamente, após longa carreira em rádio e jornal. Aos que se dedicam de corpo e alma ao jornalismo, talvez a profusão de fatos e a necessidade brutal de acompanhar e divulgar, emitir opinião, não permita que a parte, digamos, destinada à Literatura, reportando o que viram ou criando obras, se apresente. Mas, finalmente, chegou ao meu irmão através de suas crônicas, inicialmente lançadas em um primeiro livro, que principalmente se reportou às inesquecíveis noites de uma casa de shows chamada Maracaibo, com o título “Feira da Noite”. Boêmio, notívago, sempre próximo aos artistas da terra, sobretudo amigo e incentivador de todos, através do seu programa “Feira do Som”, Edgar aventurou-se na Literatura e todos agradecemos. Uma janela em um jornal onde escreve desde sua fundação abriu para crônicas semanais. Agora, as crônicas, sobre os artistas da terra e seus “causos”, deram espaço às aventuras de uma vida inteira. “Leque de Estrelas”, que será lançado neste sábado, de manhã, na Livraria Fox, já é um livro encantado porque mostra um autor que finalmente se volta para a infância e adolescência, períodos riquíssimos de experiências de vida, conhecimento, vitórias, surpresas e a memória de alguém que como locutor esportivo era chamado de “minucioso”. Acontecimentos contados com um humor saboroso, ironias, relatos de uma pessoa de bem com a vida. De um vitorioso que por onde passou colecionou êxitos e é respeitado pela retidão do caráter, educação, gentileza e alegria por ter tido a sorte de viver como quis, feliz em ser exatamente o que sempre quis ser. Sou dos poucos que lê as crônicas antes de serem publicadas e na maioria das vezes me surpreendo com fatos que havia esquecido completamente mas que no entanto revivo de maneira fiel e gostosa. O que mais posso dizer? Que recomendo vivamente e que leiam.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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