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Até aqui vai tudo bem, como disse o suicida caindo, ao passar pelo quinto andar de um prédio de vinte pavimentos, respondendo a um operário que limpava uma janela. Vou célere rumo ao domingo, quando completarei 70 anos de idade. Há momentos em que duvido, mas penso em tudo o que já fiz e percebo a imensidão que já passou. Talvez seja coisa da geração, a turma dos anos 50 e 60, que tomou de assalto o mundo, ousando modificar costumes, quebrando velhos exemplos, modelos de como proceder. Uma pessoa com 70 anos de idade é tecnicamente um ancião. Já nem tem a obrigação de votar, decisão tomada, certamente para evitar grandes esforços para essa pessoa de idade. O modelo era de um bom velhinho, em uma cadeira de embalo, pijamas, chinelos, cochilando, sem compromissos. Às vezes vejo famílias que chegam em restaurantes para comemorar aniversários. Entre os presentes, um avô ou uma avó, caminhando lentamente, sendo acomodada em uma cadeira, onde fica com um olhar de curiosidade para as conversas velozes que cruzam a mesa, sem, no entanto ninguém perguntar-lhe nada, diretamente. Está ali como um estandarte da família, ou um polichinelo jogado em um canto. Lembrarão dela (tomara) ao final do regabofe, quando a retirarão cuidadosamente e a devolverão aos seus aposentos. Espero que isso nunca me aconteça. Espero impedir qualquer ação dessa natureza. É que o moleque que mora dentro de mim não acredita que o corpo que habita é tão velho. Vive provocando, incitando a novos desafios e se decepciona quando, por dores, cansaço ou qualquer outro impedimento, não consegue seguir adiante. O moleque, que domina meu cérebro, ainda acha que nem chegou aos 30 anos. Gosta de ouvir rock and roll, gostava de jogar futebol, mas o tal do corpo, aquele velho, não consegue mais. O moleque bota o corpo para acordar todos os dias, tomar uma chuveirada e sair para o mundo em desafio. Seu entusiasmo é contagiante. Há sempre música nova para ouvir, ou então mergulhar em rock progressivo, mpb e hits dos anos 70. Há sempre um romance novo para escrever. Uma crônica para o Uruatapera. Há livros que de suas pilhas olham súplices para serem lidos. E filmes. E séries como a última de Guy Ritchie. E o Flamengo jogando, motivo para suspender atividades e postar-se diante da tv. O desafio de dirigir o Teatro da Paz, parece ter aparecido de encomenda, de maneira a estar em contato diário com a Arte, convivendo com jovens inteligentes e interessados. Ainda estou disposto a seguir. Como diz a música do Pato Tu, “tempo, só me derrube no final”. E então sei que vivi muito. Ousei. Somente fiz o que me deu vontade. Arquei com todas as dificuldades de uma decisão dessas e sobrevivi. Fui feliz. Perrengues, quem não os têm? Sou feliz. Meus filhos, meus irmãos, minha mulher, meus amigos com quem semanalmente estou em mesas ruidosas, alegres e felizes. Agradeço a meus pais, que me proveram de todos os instrumentos necessários a enfrentar a vida, e sobretudo me deram amor profundo. Ficaram preocupados com minhas opções, mas estavam sempre prontos a dar apoio nos momentos de crise. Bem, ainda quero viver muito mais. Gosto muito daqui, Viu? Àquela senhora que nos visitará a todos, mais cedo ou mais tarde, peço que perca meu endereço e passe somente, quer saber, passe quando passar essa febre, essa gula pela vida que ainda tenho. E a todos os que me lêem, um grande abraço.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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