A 27ª Unidade de Conservação do Estado do Pará abrange os municípios de Jacareacanga e Novo Progresso, no sudoeste paraense. O Decreto nº 1.944/2021 foi assinado pelo governador Helder Barbalho na quinta-feira, 21, e publicado ontem (22) no Diário Oficial…

O Atlas da Dívida dos Estados Brasileiros, lançado no Fórum Internacional Tributário pela Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital, aponta que a dívida ativa das empresas com os entes federados soma estratosféricos R$ 896,2 bilhões, significando 13,18% do PIB…

Ao abrir oficialmente o Forma Alepa/Elepa, o presidente da Assembleia Legislativa do Pará, deputado Chicão, destacou a importância do trabalho que vem sendo executado pela Escola do Legislativo, treinando, qualificando e atualizando gestores, vereadores e servidores públicos, que dessa forma…

Em Itupiranga, força-tarefa do Ministério Público do Trabalho no Pará e Amapá, Auditoria Fiscal do Trabalho, Defensoria Pública da União e Polícia Federal resgatou sete trabalhadores em condições análogas às de escravos, em duas fazendas no sudeste paraense, e prendeu…

Alepa lança luzes sobre a Cabanagem

Fotos: Ozéas Souza e PC Carvalho

Ontem, em momento inédito no parlamento estadual, historiadores, professores, pesquisadores, escritores, artistas e estudantes, ao lado de políticos, se debruçaram sobre um momento especialíssimo da história do Pará, que ainda permanece obscuro, 180 anos após sua eclosão: a Cabanagem. Do alto dos seus 80 anos, e com a autoridade de uma existência de visceral compromisso com as causas humanistas, o dramaturgo, jornalista, escritor, poeta e ex-preso político na ditadura militar Nazareno Tourinho, membro da Academia Paraense de Letras, emocionou a plateia que lotava o plenário Newton Miranda, ao se pronunciar na tribuna da Casa.  

A Cabanagem foi a única revolução em que o povo pobre e oprimido derrubou o governo, assumiu o poder político e governou, liderado pelo cônego Batista Campos, o maior mentor da Cabanagem. A elite intelectual, social e econômica ainda não entendeu que o povo sem história é um povo sem alma. E um povo sem alma não é digno de si mesmo. Então eu cumprimento a Assembleia Legislativa neste instante, por ter sido o primeiro poder que teve lucidez crítica para honrar a Cabanagem, dando o nome à sua sede. Minha peça Cabanagem é contra a versão oficial da Cabanagem prestigiada pela elite dominante, centrada na matriz de informação histórica chamada Motins Políticos, a obra clássica e consagrada Domingos Raiol, o autor da época, que faz uma pintura parcial, situando os cabanos como bandidos sociais, quando foram heróis; como revolução derrotada, quando foi vitoriosa, porque os caboclos da região expulsaram os colonizadores, que eram os portugueses e ainda mandavam no Brasil, embora já tivesse sido dado o grito da independência. A Cabanagem não é valorizada, só a Assembleia, que é a Casa do Povo, onde se pode dizer a verdade,  fez isso e ninguém diz que o Domingos Raiol era um barão, o barão de Guajará, um aristocrata e monarquista ferrenho, que viu o seu pai ser morto pelo cabanos em Vigia, quando era criança. Ninguém mais suspeito para falar mal da Cabanagem. Mas nós, os escritores de esquerda, socialistas e comunistas, estamos há 30 anos lutando, querendo uma reavaliação crítica do valor da Cabanagem, e vamos conseguir isso, com o nosso sonho e a nossa luta pela justiça social“, acentuou o teatrólogo mais antigo em atividade no Brasil.


Nazareno Tourinho, extraordinária referência cultural parauara, que dá exemplo de desprendimento e de solidariedade ao abrir mão dos direitos autorais de quase todas as suas obras em prol de causas sociais, fez questão de citar uma frase emblemática do político Plínio Salgado, de extrema direita, que considera genial: “Se és incapaz de sonhar, nasceste morto. Se sonhas e és incapaz de transformar o teu sonho em realidade, és um inútil. Se sonhas e transformas o teu sonho em realidade, então serás grande na tua pátria e tua pátria será grande em ti.

Em homenagem à Alepa, Nazareno Tourinho recitou trechos de seu poema “Uma revolução chamada Cabanagem”, cujos versos dizem:

Em qualquer situação
Sem ter medo de visagem
Canto uma revolução
Que se chamou Cabanagem
Canto com meu coração
Canto com minha coragem
Canto com a arma na mão
Canto com essa mensagem:
                        Tapuios da minha terra
                        Caboclos do meu Pará
                        Tão ruim quanto uma guerra
                        É viver ao “Deus dará”
                        Em uma paz mentirosa
                        Que deve ter outro nome
                        Porque é sempre enganosa
                        A paz do povo com fome”.
Finalizando, recitou seu poema “50 anos de sonho depois do pesadelo”, inspirado no poema dos 40 anos, de Ruy Barata, “porque tenho visto gente na rua pedindo a volta da ditadura militar. Entendemos que os militares merecem respeito, não somos contra o militar, somos contra o militarismo. Alguém já disse ‘Os velhos devem dar bons conselhos porque já não podem dar maus exemplos.’ Ditadura nunca mais!” Foi aplaudido longamente, de pé, por todos os presentes.

O presidente da Assembleia Legislativa e autor do requerimento que ensejou a sessão, deputado Márcio Miranda(DEM), enfatizou que “o paraensismo não deve ficar atrelado somente à nossa musicalidade, dança, ao modo peculiar de falar ou à culinária, é preciso conhecer e entender, problematizar a nossa história. Muita gente pergunta o que a Alepa tem a ver com a Cabanagem. Para início de conversa, este prédio foi construído para abrigar o Poder e recebeu o nome de Palácio da Cabanagem, oficializado pela resolução nº 4/74, 30 de abril de 1974. A mais alta honraria deste Poder é a Ordem do Mérito da Cabanagem, instituída pela resolução nº 5198, de 10.12. 1984. Nas eleições de 1.835, a primeira da Assembleia Provincial, precursora da atual Assembleia Legislativa, foi eleito deputado provincial Jacinto Francisco Lopes, oficial tenente do Corpo de Milícias, que não tomou posse devido à eclosão da Cabanagem, mas teve participação ativa na insurreição, sob a alcunha “Jacinto Pororoca”. Foi preso e morreu nos porões da corveta defensora na baía do Guajará, junto com o padre Felipe da Costa Teixeira, também deputado eleito, e mais 300 presos por ordem do general José Soares de Souza d’Andréa, nomeado para a presidência da Província do Pará logo depois que os cabanos abandonaram a capital e rumaram para o interior.”


Foi uma verdadeira aula de História do Pará. Destacando a participação do Legislativo, o deputado Márcio Miranda relatou, ainda, que, no lado da resistência, Ângelo Custódio Corrêa, deputado provincial eleito – e o mais votado -, após a execução do presidente Bernardo Lobo de Souza instaurou um governo paralelo em Cametá e ali coordenou a reação contra os insurgentes. Por sua vez, o também deputado provincial eleito Raimundo Sanches de Brito, junto com seu irmão Padre Antonio Manuel Sanches de Brito, organizou a resistência anti-cabana na região do Baixo Amazonas.

William Gaia, diretor do curso de História da UFPA, asseverou que o movimento, para além das reivindicações por melhores condições de vida, trouxe à tona formas de exploração daquele tempo. E que lembrar da Cabanagem significa valorizar a identidade e simbologia do povo paraense,  porque ela evidenciou a escravidão, as questões de gênero, a identidade regional. E festejou a iniciativa da Alepa como ponto de partida para refletir a importância dessa discussão do tema perante a educação básica e quanto à produção de livros na região.

As professoras Mônica Gouveia, pela direção do Colégio Paes de Carvalho, onde o presidente da Alepa e o chefe da Casa Civil do governo do Estado, José Megale(presente na sessão), estudaram, além de quase todos os ex-governadores do Pará, e a professora Dalva Araújo, diretora do Colégio Ruy Barbosa, onde o governador Simão Jatene estudou, usaram a tribuna e destacaram a importância de os estudantes terem acesso a debates como aquele, oportunidade preciosa para mergulhar em um passado com pouca bibliografia.

As famílias Angelim e Vinagre, dos principais líderes da Cabanagem, foram representadas na sessão por Ettiene Angelim e Betânia Vinagre. 

O aniversário da Cabanagem é comemorado no dia 07 de janeiro; contudo, por ser recesso parlamentar no período, o deputado Márcio Miranda propôs uma data próxima ao dia em que Eduardo Angelim assumiu como o terceiro presidente cabano da Província do Grão Pará, dia 23 de agosto, para realizar a sessão. “Não só para reverenciar a memória de tantos que lutaram e deram suas vidas nas ruas, rios e igarapés de nosso Pará, mas também para buscar mecanismos para que a Cabanagem possa ser mais bem estudada e lembrada”, justificou.


O Chefe da Casa Civil, José Megale, também ressaltou a importância da iniciativa da Alepa. “Mostra o quanto a gente ainda precisa conhecer a história desse movimento. Isso é o que mais nos choca. Mas por que não foi feita essa divulgação? Porque a história da Cabanagem é o pobre, o oprimido chegando ao poder. E essa lacuna ainda não foi suprida. Ações desse tipo é que trazem para dentro da sociedade histórias de luta do povo suprimidas ao longo da história social paraense”. 


A sede atual do Poder Legislativo do Estado do Pará foi inaugurada no dia 30 de novembro de 1970, quando era presidente na qualidade de vice-governador do Estado João Renato Franco. A denominação Palácio Cabanagem decorreu de uma emenda substitutiva do então deputado Carlos Vinagre (MDB) ao projeto de resolução de iniciativa do na época deputado Lauro Sabbá (Arena), que pretendia denominar a sede Palácio Ruy Barbosa. 



“O Poder Legislativo do Pará está intimamente ligado à Cabanagem. Nossa intenção é provocar outros momentos que possam manter acesa a memória do povo paraense”, pontuou o presidente da Alepa, que homenageou com uma plaqueta alusiva aos 180 anos da Cabanagem diversas personalidades, entre elas o ex-deputado Constituinte Aldebaro Barreto da Rocha Klautau, Nazareno Tourinho,  o arquiteto e engenheiro Alcyr Meira, presidente da Academia Paraense de Letras; o presidente da OAB/PA, Jarbas Vasconcelos, representado pela conselheira Ivanilda Pontes;  o general de Brigada Osvaldo de Jesus Ferreira, Comandante Militar do Norte, representado pelo major Márcio Fernandes do Nascimento;  o diretor do Arquivo Público do Estado do Pará, Agenor Sarraf Pacheco, representado pelo historiador professor João Lúcio da Costa; Sérgio Melo, diretor do Museu do Estado do Pará, William Gaia, as professoras Mônica Gouveia e Dalva Araújo, o membro da Comissão Estadual da Verdade, Paulo Fonteles Filho; o conselheiro do TCE-PA aposentado Lauro Sabbá  e a Comissão de Acervo da Casa, representada pelo historiador Thiago Viana. 

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