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Os amazônidas precisam ter papel central na reeducação para uma ciência engajada em sua própria história e projeto de futuro. Pensar o desenvolvimento a partir do protagonismo de sua gente, desconstruindo referências que se consolidaram culturalmente pelo domínio europeu, inclusive no campo da filosofia política. Estas são algumas das propostas do Fórum Permanente pelo Protagonismo Amazônida, que reúne centenas de intelectuais, professores, cientistas, advogados, jornalistas, artistas, profissionais liberais de todas as áreas, lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhas e planaltinas, do Pará e de outros estados amazônicos.

O grupo foi concebido e articulado pelo professor João Cláudio Tupinambá Arroyo, coordenador do Mestrado, pesquisador em economia solidária e doutorando na Universidade da Amazônia, e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Defendendo o protagonismo como fundamento para que os amazônidas revertam o histórico domínio por formas de pensamento hegemônicas e grupos de pressão políticos e econômicos internacionais e de outras regiões do Brasil, Arroyo conseguiu arregimentar forças e reunir centenas de agentes sociais que reivindicam uma ruptura com o modelo neoextrativista e buscam novas alternativas de existência na Amazônia. Há poucos dias, em Brasília, ele reuniu com a Secretaria Geral da Presidência da República, que organiza a participação social no governo, a Cúpula da Amazônia em Belém no dia 8 de agosto e a Cop30, e abriu as portas para o Fórum, que agora trata de definir estratégias e propostas transversais, dentro dos Grupos de Trabalho temáticos: Comunicação e Arte, Desenvolvimento, Relações Internacionais, Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, Saúde, Cidades e Direitos Humanos.

Produzir conhecimento na Amazônia e a partir da Amazônia é o desafio posto. O Programa Globalizando, projeto de extensão e ação de grupo de pesquisa CNPq liderado pelo Prof. Mário Tito, do PPGC e do curso de Relações Internacionais da Unama, tem discutido essa temática para fazer dos valores culturais uma das estratégias para gerar protagonismo.

João Cláudio Arroyo realça o quanto as pautas são relevantes, urgentes e necessárias. “Seria frustrante caminhar em círculos falando para nós mesmos em uma prática típica da academia. É preciso ampliar a participação, superar os nossos limites e ganhar as ruas. Esse vem sendo o grande desafio há décadas. Sem sentir orgulho do que somos e do que temos, jamais exerceremos a conquista do protagonismo amazônida. Sem a noção de quem somos “nós” e quem são “eles”, também não. Sem dialogar com prioridade entre “nós” para ter força de negociar com “eles”, não há protagonismo na prática. A ideia de que é possível ter um modelo que gere riqueza, conforto e paz só é viável se superarmos a crença de que este modelo é possível excluindo qualquer parte do que nós somos. Enquanto nos estranharmos a ponto de não construirmos uma base de modelo comum, negociada, a disputa por pontos além sempre nos fragilizará perante “eles”.

O Fórum defende o desenvolvimento sustentável da Amazônia e exatamente por isso diz “não” às novas frentes de petróleo na foz do rio Amazonas. A ciência aponta um iminente colapso climático. A única alternativa é começar imediatamente a reduzir a produção e queima de combustíveis fósseis, sem novas frentes em todo planeta a partir de 2030. Entende que se ainda há necessidade de aumentar a produção de petróleo, que então o façam na zonas já estabelecidas, estruturadas, com parques industriais. Não é possível mais perpetuar esse modelo de ocupação na Amazônia, que sempre levou a mais pobreza, em meio aos muitos empreendimentos minerários, mercúrio contaminando os rios, municípios ricos entre os piores indicadores sociais do país, duas Alemanhas de floresta desmatada pra colocar no lugar pastagens de baixíssima produtividade e áreas abandonadas, um modelo que não traz bem-viver aos mais de 28 milhões de amazônidas, nem descola a região dos vergonhosos 7% a 8% de participação no PIB nacional, há décadas sem sair do lugar, só que derretendo sem volta seus imprecificáveis ativos naturais.

O modelo de “progresso” tem que ser com tecnologias de ponta, eficiência agrícola (produzindo mais com menos terra), Zona Franca como Vales do Silício da floresta em pé, bioeconomia… trilhões a partir da sociobiodiversidade. Apesar de a Amazônia brasileira representar 30% das florestas tropicais, ocupa pífios 0,18% no mercado global de produtos compatíveis com a floresta (castanhas, pimentas, polpas de frutas), que move cerca de R$1 trilhão anuais.

A intenção do Fórum é mobilizar os diferentes setores e representações a fim de construir um projeto de Estado para Amazônia, acima dos conceitos de direita, centro e esquerda. E cobrar a conta; afinal, a Amazônia presta serviços ecossistêmicos globais mas os custos de conservação permanecem locais. O último país a abolir a escravidão não pode ser um dos últimos a acabar a queima de combustíveis fósseis. E clima não deve ser só um “tema de grife” que catapulta os governantes para dentro das salas importantes do mundo.

“Temos que usar o poder que já temos, mas não temos consciência. Somos grandes e importantes. Acreditem. Este é o primeiro passo para o Protagonismo”, alerta João Cláudio Arroyo. “Precisamos ao mesmo tempo aprender a respeitar a pluralidade que nos une, para entendermos o que somos para sermos respeitados, como protagonistas, por eles. Ninguém da região foi respeitado como protagonista de seu próprio desenvolvimento, nem os mais ricos e poderosos, desde o ciclo da borracha até hoje. Sem a inteligência da unidade na pluralidade, ninguém aqui ganha. Se negociarmos ações práticas conjuntas, com o que já temos e somos, podemos dar uma contribuição histórica, inovadora, para a transformação da Amazônia”.

Sobre a questão, é reveladora a recente carta de Pepe Mujica ao presidente Lula.

“Quero desejar-lhe sucesso em sua iniciativa com os presidentes de nossa região. Acho da maior relevância a criação de um espaço de encontro, de conhecimento mútuo, de diálogo e reflexão, que você acertadamente chamou de “retiro”. As reuniões presidenciais em espanhol são geralmente chamadas de “cumbre” que significa o cume da montanha, mas não existem cumes sem montanhas para se apoiarem, essas montanhas são nossos povos.
(…)
As grandes decisões que movem o mundo são tomadas em outros lugares, longe de nossa mesa. É necessário construir proximidade em nossa região para sermos ouvidos internacionalmente. Os desafios que enfrentamos como humanidade exigem, mais do que nunca, esforços coletivos e propostas inovadoras.
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Acreditamos que os projetos devem, de alguma forma, potencializar a solidariedade continental e despertar o sentimento de pertencimento. Pensamos que estes projetos devem ser executados em conjunto com as pessoas. Acreditamos que é indispensável que se desenvolvam com uma visão integradora que represente as necessidades, os valores e os desejos de nossos povos. Por exemplo, uma plataforma permanente de resposta rápida regional a desastres naturais; melhorar a integração energética e das infraestruturas regionais; ter como objetivo a industrialização e a complementação produtiva como região.
(…)
Precisamos facilitar a circulação de cidadãos. Devem abundar as trocas estudantis e a validação de diplomas, multiplicar os espaços de encontro entre as novas gerações, cujo futuro se define agora.

Devemos nos unir na proteção da água doce e na defesa da natureza. Nos identificamos, de todos os cantos do continente, com a vida representada pela Amazônia, com a grandeza e a dignidade evocadas pelos Andes, com a abundância e a liberdade das pradarias e com as riquezas do âmago de nossas terras.
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O conjunto de crises globais que estamos enfrentando pode levar ao colapso das condições essenciais para a vida no planeta. Muitos esforços serão necessários para enfrentar as mudanças climáticas, a crise do modelo econômico hegemônico, a ordem internacional obsoleta e as grandes forças polarizantes. Unir forças é o mínimo que podemos fazer para não sermos vítimas passivas e nos dar uma chance de um futuro melhor.
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Aos meus 88 anos, a capacidade de sonhar com uma América diferente dá mais sentido à vida.
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Pepe
Montevidéu, 24 de maio de 2023”

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