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Acabo de chegar de Teresina, onde participei do FARPA, Festival Arte da Palavra, promovido pelo SESC. O programa Arte da Palavra leva escritores de todo o Brasil por variados percursos, apresentando seus trabalhos literários em diversas cidades, algo que deveria ser feito pelo Ministério da Cultura. Aqui mesmo, no Pará, devia ser feito, mas não há qualquer programa para essa área, muito menos pela Fumbel. Chato. Vergonhoso. Decepcionante. Eu mesmo, ao final do mês, visitarei quatro cidades gaúchas, dentro do programa. Durante três dias, trinta escritores estiveram dialogando em mesas temáticas e principalmente trocando idéias, nos intervalos. Conheci Braulio Tavares, da Paraíba, autor de livros, peças de teatro e letras de músicas com Elba Ramalho, entre outros grandes da mpb. Também Adiel Luna, um cantador pernambucano que circula pelo Brasil. Minha mesa foi com o carioca Marcelo Moutinho, autor de livros de contos, bastante premiado. Todos foram muito bem tratados pelas equipes do SESC nacional e piauiense, comandados por Henrique Rodrigues, Diogo, Hilana e Nancy. A linguagem da literatura dominada por todos, mas confesso que senti falta de mais discussões sobre ficção. É coisa de momento. O que dominou foi a briga por espaço de minorias. Bem, esse não é o caso de de Kiusam Oliveira, que falou ardentemente sobre as questões de racismo, ela que escreve livros infantis para crianças negras. Mas houve Nathalia Leal, índia cariri que emocionou a todos com a vontade de seu povo retornar às suas terras, de onde foram despejados porque o local continha minérios preciosos. Mas Jessica Balbino, alto astral, defendeu sua condição de “gorda”, enfatizando a necessidade de políticas públicas e menos discriminação para com essas pessoas, digamos, acima do peso, segundo o padrão vigente, ao qual quase ninguém se enquadra. Enquanto falávamos em um belo auditório/cinema, havia Palco Giratório em um ótimo teatro, no mesmo prédio moderno e confortável do SESC. Contudo, o que me deixa intrigado, um tanto envergonhado, quando penso na minha terra, é assistir ao imenso orgulho dos nordestinos para com sua Cultura. Paraibanos, cearenses, maranhenses, piauienses, sergipenses, falta alguém? Sim, Rio Grande do Norte, pois bem, eles são um só: Nordeste. Quando se reúnem, muito mais que o sotaque, dividem versos, lembram cordéis, cantadores, poesia. Dá pra sentir o orgulho, a grande turma que fazem ao se encontrar. Interessante, porque escrever é alto solitário e se poderia pensar em um pessoal calado, cada um na sua, mas já estive em vários encontros e o que vejo é alegria, animação, amizade, amor pela arte. E sim, lembro da minha terra, onde meu povo não gosta sequer de aplaudir seus próprios artistas. Que estamos sempre nos queixando de tudo, e é claro que eu sei que há razão para isso, mas não há orgulho, amor pelo Estado, por Belém. O que há conosco? Certamente preferiríamos ter nascido no Nordeste, por exemplo, do que no Pará? Em Teresina ao invés de Belém? Somos insatisfeitos, sim, nossos políticos não nos contentam, mas há Cultura! Temos artistas com envergadura internacional por aqui. Nossas autoridades também não se importam com a Cultura, mas onde estamos nós que não vamos assistir peças de teatro, cantores e músicos, enfim? Imaginem que nem os alunos da Escola de Teatro frequentam teatros. Gente da música não vai assistir peças, nem gente de teatro vai para os shows. Paro por aqui. É um assunto desgastante, mas é que cheguei há pouco e ainda trouxe a memória do orgulho daqueles cabras da peste, adoráveis.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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