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Estamos cansadas de ver para crer. Estamos cansadas de ter que achar razões para acreditar.  Estamos cansadas de dar. Estamos cansadas de pedir. Estamos cansadas de rezar por tanta gente, de velar por tanta gente, de chorar a falta que tanta gente faz. Estamos cansadas de não conseguir rir para não chorar. Estamos cansadas de abrir os noticiários e ver literalmente o sangue no chão a escorrer. Estamos cansadas de não poder respirar pelo vírus que nos assombra e pelas botas que esmagam nossos pescoços. Estamos cansadas de ter criado repulsa de gente que se intitula de bem e, de boa, não tem nada. Estamos cansadas de ter de ter opinião por não querer acabar com sangue nas mãos. Estamos cansadas de gente que lava as mãos com o sangue que para de pulsar nos corpos das nossas crianças. Estamos cansadas de ver a Mãe-Terra arder. Estamos cansadas de achar que nossas vidas valem mais do que as das outras espécies. Estamos cansadas de quem se acha superior por causa da cor da pele. Estamos cansadas de não poder sair de casa sem o medo de ter nossos corpos violados. Estamos cansadas de não se sentirem incluídos quando usamos o substantivo no feminino, mesmo que sejamos nós a maioria. Estamos cansadas de ser minoria. Estamos cansadas de ficar em casa, estamos mais cansadas ainda de ver quem não respeita a vida sair tranquilamente às ruas. Estamos cansadas de ver oprimido achar – e, pior, querer ser – opressor. Estamos cansadas de termos sido criadas para querermos ser cientistas e intelectuais e termos que perder nossas forças a explicar que a Terra é redonda sim. Estamos cansadas de ter que nos formatar. Estamos cansadas de ter que nos adequar. Estamos cansadas de ainda não ter vacina. Estamos cansadas de existirem fronteiras. Estamos cansadas de termos de ser lindas. Estamos cansadas de quererem provar as coisas na bala. Estamos cansadas de não termos trabalho. Estamos cansadas de ver o tempo correr em trabalhos que odiamos. Estamos cansadas de não termos centavos para comer. Estamos cansadas de ter que nos provar. Estamos cansadas de não haver mais música para os nossos ouvidos. Estamos cansadas de quererem nos obrigar a escolher um polo. Estamos cansadas de nos sentirmos otárias por fazermos a coisa certa. Estamos cansadas de ter que gritar mesmo quando gritar é só o que nos apetece. Estamos cansadas de não saber quem somos. Estamos cansadas de ter medo. 

Estamos cansadas de viver assim e, ainda assim, viver é só o que queremos.

Foto: Gabriella Florenzano ©
Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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