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Vem aí mais um Dia de Finados e só o que escuto são planos para o fim de semana prolongado. E não somente neste feriado mas em quaisquer outros, que passam a ser apenas oportunidades de férias, sem nenhum significado. Lendo o livro da Paula Rodrigues sobre o Cemitério da Soledade, aprendi sobre as homenagens prestadas, anjos, símbolos e o luxo de alguns túmulos. Há muita paixão, reconhecimento e demonstração de poder, feitos pelos que ficaram. Quem está lá dentro, na verdade não está. Foi. Apenas restos mortais em decomposição, o que não impede a visita a alguns mortos que atendem a pleitos ou às almas que são homenageadas a cada primeira ou última segunda feira do mês. Sei que ainda há muita visitação, mas o tom entre aqueles que podem ou os que precisam se mostrar é de vésperas de férias. Não sei como está, hoje, a programação das emissoras de rádio. Quando cheguei à Rádio Clube, aos 16 anos, já conhecia sua famosa programação de finados, reunindo em programetes, alguns dos nossos mais famosos artistas e seus sucessos. Era de um êxito retumbante. Sei também que era um dia em silêncio, todos apenas sussurravam em respeito aos que se foram. Sim, talvez houvesse mais apreço aos que partiam, desde funerais que começavam nas igrejas ou casas, o enterro acompanhado por multidão e discursos louvando os feitos do morto. Havia comunicação em jornais, com uma linguagem bem específica. “O féretro sairá impreterivelmente às tantas horas”. Dava os nomes e dizia esposa, filhos, noras, netos, genitoras, enfim, daquele que em vida se chamou…”. Preciso dizer que cometi uma gafe no começo de minha carreira de programador na Rádio Clube. Anos 70, Tropicalia, rock and roll, festivais, a música que se ouvia nas emissoras de rádio estava sendo invadida por novos artistas, novos sons, novo vocabulário. Sim, nas rádios AM ainda reinavam os bolerões e bregas de sempre, mas entre os ouvintes, havia quem gostasse de ouvir novidades. Pois decidi inovar na famosa Programação de Finados da Prc5. Substituí alguns dos artistas focalizados, mas há muito falecidos ou esquecidos e incluí em um dos horários, Jimi Hendrix e Janis Joplin. À tarde, pouco depois do almoço, naquela modorra da sesta e a costumeira ordem de artistas, “Purple Haze” guinchou no dial e poucos minutos depois recebi telefonemas de meu pai e de outros que tais, revoltados com a mudança. Liguei para a emissora e imediatamente pedi para tirar do ar o famoso guitarrista, falecido em 1969. Certo, foi uma mudança brusca, abrupta, para os moldes da época. Um susto. Com o tempo, grandes artistas internacionais, falecidos e com grande fama, foram tendo lugar na tal programação, inclusive Jimi e Janis, mais Jim Morrison, John Lennon e outros. Depois não sei como seguiu adiante. Já estava em outra tarefa, com a Rádio Cultura OT e a Rádio Cidade Morena. O mundo mudara.

Raramente visito os túmulos de meus pais, por alguma preguiça, mas seguramente por tê-los sempre comigo, em pensamento, lembrança, citações, momentos. Quase que penso o tempo todo neles e outros parentes e amigos que se foram. Significaram muito para mim. Acho que esse é o respeito, a memória amorosa. Não vou há muito para weekends prolongados mais por uma questão de temperamento, na base do quando eles todos vão, eu fico. Os túmulos agora perderam a grandiosidade daqueles do Soledade. Estão mais simples e mesmo assim alvos de ladrões desgraçados. Quando era bem jovem, escrevi um poema que dizia ao final “a saudade vai durar três dias”. Era cruel e nós somos tão vários que deve haver quem pense assim. Mesmo que vá para alguma praia se divertir e espairecer porque nada está fácil, tire um momento para lembrar deles. A lembrança é um afago para quem foi.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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