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Minha amiga Papy Nunes é uma das pessoas mais incríveis que conheço. Atriz desde os anos 70, sempre teve uma liberdade pessoal invejável. Foi uma hippie convicta, rodou mundo e de vez em quando posta histórias de vida com um humor e estilo marcantes. Em uma de suas últimas postagens, deu a entender que poderia escrever um romance, algo que lhe cobro há anos. Respondi a postagem com uma frase: Escrever é dilúvio. Depois fiquei pensando a respeito. Como todos, tenho um número de histórias, acontecimentos, causos, gigantesco. Penso que qualquer pessoa poderia relatar os seus. Muitos o fazem em longas conversas com amigos. Mas raros os que registram em papel. Os que assim fazem são escritores. Lembro uma amiga, que também teve uma vida cheia de aventuras, e certa vez me disse que gostaria que escrevesse sobre isso. Claro, respondi. Faz uma coisa: põe em papel todos os acontecimentos mais malucos que já vivenciaste. Põe lá sem método, sem preocupação. Deixa que eu tento arrumar tudo. Isso nunca foi feito. O drama do papel em branco, que persegue, às vezes, os próprios escritores, abate a vontade de muitos e imagino o quanto maravilhosos seriam esses acontecimentos. Nesses casos, o ato de escrever vira um desafio impossível. Não saber como escrever, ou o medo de se expor, enfim. Isso não existe para nós, do ofício. Nós que não nascemos escritores, mas ao longo do tempo e exercitando ao máximo, escrevendo e rasgando, corrigindo, ouvindo críticas, até encontrar um estilo, um jeito de contar, nos tornamos escritores. Para nós, escrever é dilúvio. Sim, cada um tem seu método e pronto. O que vale é o trabalho pronto. Quando começo a escrever, lembro de alguém que dizia “todo começo é involuntário”, ou seja, a primeira palavra a ser escrita. Ela chega a esmo e quando vemos, já está na página. Tenho rápidas idéias e escrevo, mercê do exercício diário em rádio (onde se escreve sobre tudo e sem tempo a perder), jornalismo e diálogos de teatro. Nem percebo e já estou em pleno delírio, teclando velozmente enquanto o que vem à cabeça me cobra cada vez mais rapidez. A história não gosta de esperar. Quando terminar, volto e leio para ter idéia. Um corretor mental vai desviando dos lugares comuns, da repetição de palavras, das vírgulas e ortografia. Mas sempre falta algo que o revisor nos aponta, como, já aconteceu comigo, chamar de Carlos, alguém que páginas atrás chamei de Raimundo, por exemplo. Todos temos um dilúvio a ser contado. Não estou considerando o escrito bom ou ruim. Isso vem depois, principalmente seu juízo e adiante, do público. Fico imaginando Papy e seu dilúvio. Aproveito para confessar algo que estes dias me deixou emocionado. Tantas peças de teatro e livros, tantos enredos, onde faço personagens agirem e algo me tocou e emocionou. Já havia acontecido antes, na peça “Esse corpo que me veste”, do Cuíra. Havia escrito a partir da leitura de um grande livro a respeito da existência de Deus, chamado “Teodicéia”. Ao começar a debater o texto, Zê e Olinda Charone, atrizes e Wlad Lima, diretora, ficaram com vontade de também falar a respeito. Como sempre estive a serviço do Teatro, cuidei de ouvi-las e refazer o texto. Havia declarações bem pessoais delas e incluiu uma declaração minha. No momento em que Olinda interpretou minha fala, me enchi de emoção. Eu estava dizendo aquilo e não mais a personagem. E no entanto, ali não era Olinda e sim o personagem. Nem eu. Que coisa estranha. Agora iniciamos os ensaios de “Muralhas Invisíveis”, dirigida por Paulo Santana para o Grupo Palha. Um dos personagens é baseado na minha figura como observador dos moradores da esquina da Presidente Vargas com Riachuelo. Ele diz um texto, apresentando o espetáculo, a cidade e a esquina, bem como seus frequentadores. Era a primeira vez que lia. Uma “leitura branca”. E no entanto, meu peito encheu de emoção. Difícil explicar. Eu falava e no entanto, era um personagem, era um ator. De alguma maneira aquilo estava invertido. Ainda estou tentando compreender. Sentirei a mesma emoção quando for pra valer e com a fala dita com toda a interpretação necessária? A vida do autor é realmente engraçada. E rica.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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