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A música sempre foi uma arte das mais transgressoras e livres, detentora do enorme poder de arrastar multidões, influenciar comportamentos, marcar gerações, mitificar e criar mártires. Não são incomuns as imagens icônicas de milhares de pessoas reunidas em razão da música, consagrando artistas, ideologias e estilos de vida dos mais variados. Basta lembrar de Woodstock e Glastonbury, dos concertos dos Beatles e dos Rolling Stones, do Live Aid, das históricas edições do Rock in Rio e, mais recentemente, do Tomorrowland e do Lollapalooza.

Não se tem notícia, em contrapartida, de turbas ensandecidas e delirantes reunidas para ler livros, apreciar pinturas, contemplar esculturas ou cultuar outras formas artísticas. Como exceção pode-se mencionar a dança, mas aí salta aos olhos a clara e direta correlação com a música, afinal são poucos, raros mesmo, os que possuem a insólita capacidade de dançar em silêncio.

Talvez seja por isto, por esta facilidade invejável de levar ao transe, criar coragens repentinas, acentuar estados de espírito e embalar corações, que a música tenha em si, sempre e intrinsicamente, algo de revolucionário. Registre-se, é importante, que por música se deve compreender a composição melódica de qualidade superior, apta a excitar a percepção, aguçar os sentidos e inebriar de beleza os ouvidos que Deus nos deu, justificando o trabalho que deve ter tido para criar a orelha, o pavilhão auditivo, o meato acústico, o tímpano e tudo o mais que nos permite escutar os belos sons do mundo; e não as porcarias descartáveis e desprezíveis que hoje imperam nas rádios, boates, arenas e paradas de sucesso, estas últimas usualmente repositórios de mau gosto e mediocridade.

Pois bem, este algo de revolucionário pode gerar conflitos e aflições em alguns grandes gênios musicais, afetando-lhes o discernimento e privando-lhes do bom senso sem o qual deve ser sacrificante a vida supostamente glamorosa dos astros do mercado fonográfico – popstars ou rockstars, como se costuma chamá-los. Não é inusitado, aliás, que o poder da música seja devastador sobre uma parcela daqueles que a produzem, especialmente os que alcançam fama e fortuna meteóricas. Álcool, drogas, promiscuidade, suicídio e abusos de toda ordem são destinos muito visitados pelos que embarcam sem cautela nessa viagem.

Muitos são os exemplos: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Whinehouse, curiosamente falecidos aos 27 anos de idade; Ian Curtis, líder do lendário Joy Division, ainda mais novo, aos 23; entre nós Elis Regina, Cazuza, Tim Maia e Cássia Eller, perdas dolorosas e prematuras. É bem verdade que nem todos morreram em consequência direta do uso excessivo de psicotrópicos, barbitúricos ou alucinógenos, mas também é verídico que não se pode dissociar completamente desse hábito destrutivo os males físicos ou mentais de que alguns padeceram.

Fato é, todavia, que nem seria este o tema central desta crônica, muito embora a introdução seja necessária para ressaltar ainda mais a personagem principal que pretendo homenagear, a protagonista e inspiradora destas modestas linhas, uma simpática senhora que recentemente nos deixou contando pouco mais de 75 anos, 56 deles dedicados a fazer aquilo que a música faz de melhor: transgredir, libertar, revolucionar, embevecer e encantar.

O que eu queria mesmo, o que pretendia com a melhor das intenções, era falar de Rita Lee Jones de Carvalho, essa paulistana com jeito e nome de gringa, cantora, compositora, instrumentista, apresentadora, escritora e ativista das mais talentosas que este país já viu nascer; mulher de vanguarda, rainha do rock brasileiro, diva a transitar com inigualável graça das profundezas de Atlântida aos suspensos Jardins da Babilônia.

Dona de uma voz suave e melodiosa, musicista com habilidades múltiplas, íntima de vários instrumentos, Rita num belo dia resolveu mudar e fazer tudo o que queria fazer, se libertou daquela vida vulgar para criar a trilha sonora de diferentes gerações. Desde 1966, quando surgiu com Os Mutantes, até por volta de 2012, 2013, quando anunciou sua aposentadoria dos palcos, depois de duas dezenas de álbuns consagrados, ela sempre esteve no Olimpo da música nacional, produzindo uma obra sólida e eclética que espelha com precisão sua trajetória pessoal e artística.

Depois de andar um tempo meio desligada, sem nem sentir seus pés no chão, Rita parece ter percebido que o mundo é dos que sonham e toda lenda é pura verdade. Enfrentando com destemor a hipocrisia da segunda metade do século XX, o que incluiu duras críticas aos anos de chumbo da ditadura militar, Rita sacudiu a mesmice e afastou de si os traços conservadores herdados do pai, um descendente de imigrantes do Alabama e do Tennessee, entusiasta dos confederados a ponto de acrescer o apelido Lee ao nome das filhas para homenagear Robert Edward Lee, um reconhecido general da guerra civil americana.

É como se, cansada de lero-lero, pedindo licença para sair do sério, a menina sardenta da Vila Mariana quisesse mais saúde e estivesse cansada de escutar opiniões. Rita preferia ter as próprias, e manifestá-las com a contundência e autoridade que sempre lhe foram peculiares, típicas de quem se perguntava com frequência, ai meu Deus, o que foi que aconteceu com a música popular brasileira?

Mesmo tendo transitado pelos subúrbios da alma, mesmo tendo sido usuária de drogas diversas, algumas vezes presa por posse de maconha, Rita soube transformar isso numa fase pretérita, superada, e conseguiu envelhecer com extrema maturidade e profunda elegância, defendendo de tal modo valores como amor, autoestima, saúde e família que chegou a imputar-se ironicamente a alcunha de vovó careta do rock and roll.

Que bom que Rita não sucumbiu cedo, que bom que passou muito além dos 27 anos, que bom que pôde nos mostrar com sabedoria como envelhecer bem, com dignidade e firmeza. Mesmo já idosa, quando poderia estar fazendo massagem e relaxando a tensão, em plena vagabundagem, com toda disposição, Rita vez ou outra vinha a público, causava mais um dos costumeiros cataclismas, falava meia dúzia de palavrões bem colocados e submergia discretamente, como quem lança perfume ao sair de cena, como quem faz amor por telepatia, no chão, no mar, na lua, na melodia.

Rita Lee Jones de Carvalho vai fazer imensa falta. Já estávamos acostumados com ela sempre reclamando da vida, nos ferindo e nos curando a ferida. Espero sinceramente que esteja agora que nem índio, pelada, pintada de verde, num eterno domingo, tal qual bicho preguiça, espantando turista, tomando banho de sol…

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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