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Agora só ando de canoa, montaria gita que entra em qualquer buraco. De canoa eu pesco, caço e ando pra qualquer lado. Atravesso qualquer rio e chego em qualquer distancia. Moro de preferência onde posso amarrar minha canoa na porta. Passo em qualquer furo. No inverno, ando pelos campos. A proa da canoa é que faz o próprio rumo, às vezes divide mantas e mantas de flores pelos lados. Quando sinto saudade da terra firme, me embrenho pelos altos, subo os rios e me afasto. Ando de canoa até pelas estradas. Pensa que é de itaúba e não afunda? Já me alaguei no meio do lago. O que me assustou não foi a fundura não, foi a perda total do horizonte. Enquanto havia onda, eu não podia avaliar a lonjura, porque não havia margem. Me agarrei no bailéu da canoazinha pra que ela não afundasse. Depois que cessou o vento, meus olhos ficaram pouquinho acima da tremura das águas. Me assombrei de tanto tamanho. Era um lago que não acabava nunca. Me sustentando quase à flor da água, não podia enxergar, nem se tinha sombra de mata bem por longe. Isso não era um rio?

Agora era um lago. Onde tinha ficado o rio? Onde tinham ficado as matas, as margens, os distantes horizontes? Se houvesse ao menos sinal de terra, estaca, capim matupá, qualquer coisa de bubuia naquela tamanha água… qualquer coisa sólida em que a gente se agarrasse.. era lago pra todos os lados. Sozinho, eu podia me agüentar de bubuia por muitas horas, mas a canoa podia se perder meia fundiada. As horas passaram. Passaram. Quantas horas passaram? Pergunta sem resposta. O dia, a noite, a manhã, a tarde, o sol, o vento. O vento. A água parada, a água andante, a onda incessante, a água tremeluzente. O sol no céu, o sol na água, o sol nos olhos, o sol na pele, o sol na mente. O sol dançando na linha do horizonte. Vento frio, vento úmido, quente, quente. Vento queimante e vento cortante. Onda pequena e onda grande. Canoa totalmente mergulhada. Canoa somente com pavês de fora, meia canoa quase boiando. Canoa totalmente dentro d’água. De noite, então, as águas ficavam muito mais atrevidas. Se esparramavam em sombras tenebrosas. Nunca o céu ficou mais distante, nunca uma margem foi mais longe, nunca uma água ficou mais funda.

A canoa tornou-se minha casa, minhas pernas, meu trabalho e a única testemunha da minha história. Com ela, fiquei mais sossegado porque aprendi que não adiantava ter muita pressa.

No meu mundo, todos vivem do movimento arbitrário das águas. O próprio calendário divide-se de acordo com o movimento das águas. Não existem semanas, nem meses. Existem safras que são marcadas pelo cair das frutas nativas e dependem da precipitação das chuvas e do nível das enchentes. Enchente e vazante comandam toda a vida. No principio de enchente é que se faz muitas coisas.

Já deu água no Furo do Arroz? Já dá passagem no Igarapé das Ciganas? O matupá da boca do Lago Grande já largou da beira do barranco? A restinga baixa do teso do Catauari já entrou n’água. No campo do Carnaubal só tem de fora o teso da malhada. A praia grande do Vira Volta já sumiu de vez. Já dá passagem, sim, até de batelão, pelo furo do Juruparipucu, no Livramento. A turma de balateiros do Mundico Santiago já subiu bem pro alto. Só vão puxar canoa mesmo, na praia grande da volta do Igarapé do Inferno. Nas cachoeiras, tem que subir por terra e levar a mercadoria no ombro. As primeiras chuvas, depois do feriado de Todos os Santos, marcam o princípio da enchente. No mais tardar começam com águas grandes dos Santos Reis ou na festa de São Benedito. A festa do Marambiré. Os dias e meses correm por conta das águas. As horas não se contam nessas caminhadas. A água já engoliu será quantos degraus da escada do trapiche? Isso é nas cidades que eu conheço: enchente se mede pelos degraus das escadas, pelas baixas de aningal e pela proximidade das canoas que se amarram nos postes. Na varja, quando os tesos, restingas e barrancos já estão todos no fundo a enchente é medida pelas marcas. A água já chegou no tronco do socoró? Perguntam. Velho Feliciano já passou o gado pro coberto? No Itacaracá já não dá mais passagem pro gado a toque. Seu Quincas vai passar o gado todo de batelão. Por causa das chuvas, a enchente é desconforme. Tem cabeceira de rio que a água engrossa. Tem campo que alaga mais depressa. Tem lago que derrama a água pelos campos. Tem gente que se atrasa e tem que cortar juta mergulhando pelo fundo. Já se anda até de canoa pelas estradas. Tem, sim, muita água por dentro do mato. Está é dando muito peixe nos pastos do campo largo. Ova de tamuatá, essa então, se entremeia nas flores pelas baixas. Os dias e as noites correm por conta das águas. Os peixes nadam por conta das flores. As aves voam por conta do espaço. Em canoa, de vara e varejão, vai-se em toda parte.

Já a vazante é marcada pelas festas de Santo Antonio. A primeira quebra-d’água geralmente se dá em junho, depois do dia 13. Quando dá a primeira quebra-d’água, tudo sente. As frutas nas árvores, o gado nos cobertos, os bichos nas matas e as aves que arribam. Quebrou a água? Será que já é mesmo vazante? Pode ser ainda um repiquete? Manhã de inverno, parece. Também a mungubeira é a árvore que primeiro anuncia a vazante. Basta que seus frutos maduros apareçam nos galhos, e suas cascas vermelhas caiam como pequenas canoas na água corrente, o nível da água começa a baixar. A mungubeira ainda manda outro aviso. Se as cascas vermelhas dos frutos maduros afundarem ou encalharem em águas paradas, os capuchos, libertos dos frutos maduros, vão mais longe, percorrendo o céu em revoada de flocos brancos. Esses, ninguém agarra. Deixam voar ao sabor do vento.

Tem tempos que a vazante é manhosa, vaza, enche, vaza e enche, vaza, enche, vaza, vazante. Vazante demorada é prejuízo na certa. Tudo sente. Água que pára no meio da vazante atrasa até o compasso da vida. O gado então, esse é o que mais sente.

Os pastos ressequidos rastejavam na terra gretada e estorricada, que cada dia parecia absorver a água cada vez mais morna e mais barrenta. O que era verde em cima dessas águas, virou bagaço, capim podre cobrindo o barro mole e sujo dos barrancos. As árvores mostram todas as raízes trepadas nas saliências das altas ribanceiras. A água é quase lama, o lago, um imenso pântano e as matas, um infindável igapó.

Tem até fruta que cai do galho antes do tempo. Tem planta que murcha ou seca. Mas o gado, esse é o que mais sente. Se está magro, morre. Já ouviu mugido do gado na vazante? Vazante demorada ou vazante grande é sinal de muita morte. Morte de fruta nos galhos, morte de peixes nos lagos. As aves é que gostam. Os urubus se fartam. Campo limpo e beira de lago ficam negros, só de asas. Também é época da desova: tracajá, tartaruga e pitiú enchem as praias de milhares de covas. O gadão do Coronel já desceu todo do coberto. Perdeu foi muitas reses, parece. Os Pereiras até já começaram a plantar feijão na varja. Diz que vai ter muito milho no paraná de baixo. As melancias já estão chegando no mercado. Os peixes nessa época só se pescam nos lagos. Acari bom é só do Lago Grande. Tucunaré, tem que ser do Samauma. Curimatá só presta do Jauaritoa. Tambaqui, esse então, tem que ser do Itacarará. Acari é peixe cascudo que vive só no barro. Feio de se ver e gostoso de comer. No meio da vazante é tempo de pirarucu. De tanto viver em riba d’água, já até perdi a marca das enchentes.

Fim do mundo? Aqui é o princípio do princípio. De que foi feito o mundo? Fogo, água, terra e vento. Quantas coisas existem! O que dizer dos peixes, das plantas, das corredeiras e correntezas. O que dizer dos remansos, das águas mortas, das águas vivas, das águas escuras, das águas claras, cristalinas e barrentas? Já viram o sol alumiar todas essas águas? Já viram o vento trocar o tamanho e a cor de um lago só de um golpe? Já viram o limo? Já viram o limo verde de manhã, quando o sol nasce? Ninguém sabe se veio da água, da terra, da mata ou do vento. É um pó fino e verde que cobre toda a superfície. Mas quando o sol divide a terra no horizonte, o limo verde fica avermelhado, verde fogo, sangue, verde água pegando fogo. Eu sei que o limo só cobre o rio depois das grandes tempestades.

A água refletindo o céu, refletindo o sol, cria mil vidas. Faz do longe perto e do perto longe, brinca com as distancias, põe cores no mundo de mil tonalidades. Num igapó de água parada, por exemplo, todo mundo acha que a água é lama. Engano. São apenas águas sombreadas onde o sol entra já filtrado pelas folhas, pelos galhos, pelos ramos. A luz que chega nessas águas, já tem cor de sombra. E a cor da água? Cor de sombra, de limo, de lama, de visgo, de água? Depende muito do tamanho. Do tamanho dos galhos, das folhas e dos frutos. Só as folhas caídas e os frutos boiados é que mancham de tons vivos a sombra morta. Só as folhas e os frutos flutuantes. E conforme os frutos, existem os peixes. Os peixes nadam entre troncos e raízes completamente livres. A água é sempre sombreada. Mas quando as águas transbordam dos rios e inundam os campos, aí a gente gosta de ver de que é capaz a água viva. Aí não precisa nem sol, nem chuva, nem vento. As águas por si mesmo se alastram. Quando elas entram num lago, bordam logo de verde todas as curvas. É verde de tanto jeito que nem presta! Verde que até em bichos se disfarçam. Você pega uma folha, se não tiver cuidado, é um inseto. Um inocente cipó pode ser uma cobra. Calango, então, vira os verdes mais variados. Com as águas, chegam aves de todos os portes. As cores, então, criam mil asas. Enchem o céu de cores que voam e de vôos. Onde chegam as águas, os verdes criam logo as suas raízes.

Porém, coisa poderosa e vasta é quando essas mesmas águas invadem os campos. Qualquer capinzinho agreste, qualquer cerrado de malícia, qualquer juquiri espinhento desabrocha em flores e matizes. Os peixes então transitam livremente. Saem das tocas, das locas, dos furos e dos lagos e tomam conta dos pastos. Põem ovos até por cima das folhas, das flores e dos frutos. É a época de peixe mais gostoso, que se alimenta das flores mais alegres. Pirapitinga, por exemplo, é o peixe que mais engorda nessa época. Tem gosto de cor misturado com perfume.

Principio de mundo. E pra chegar lá, bote água, bote tempo, e bote distancia. Matas que mudam na beira de tanto rio. Lá, ninguém chega com as próprias pernas, andando, nem com os próprios barcos, remando. Lá, os caminhos se disfarçam. Os rios se estreitam e se alargam. Os lagos se abrem e se fecham. As águas se repartem. As matas, perto, se afastam. E longe, formam um horizonte por um fio quebrado e liquido. E bote tempo, bote água. Bote caminhos correntes, correntezas, mansas e brabas. Remansos de remoinhos correntes de margem a margem. Já não tem mais pra onde ir, nem de onde vir.

Pra mim, a enchente é como a liberdade. Minha canoa não aproa mais nas ribanceiras, nem esbarra nas alturas dos barrancos. Viajo sempre na linha do horizonte. É verdade que as margens se alargam. E o vento, muitas vezes, põe tropeços nas enseadas. As águas se revoltam nos remansos. Criam até ondas de mar nos estirões mais largos. E dançam na noite como sombras. Mas eu chego sempre do outro lado. Só já estão sobrando os tesos e as restingas das varjas mais altas. Já existe muito gado empoleirado na maromba, muita juta dobrada no fundo e muita casa que os moradores já esbarram com a cabeça pelo teto. Agora eu viajo pelos campos. Encontro peixes nos pastos e patos e marrecas nos ninhos. E as flores roçam o pavês da minha montaria gita. Com a enchente, eu sinto muito mais ar no mundo. Viajo sempre na linha do dia e da noite. A água alagando tudo me liberta. Fico mais livre entre árvores grandes. Até o igapó fica mais limpo. A água lava tudo. Me aproveito dessa imensidade. De bubuia por esse mundo, encontro a vida.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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