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Os nomes são fictícios. Minha amiga fotógrafa veio fazer um trabalho a partir de alguns contos de minha autoria. Fomos andar pela região central da cidade, onde ficava ou ainda fica a zona do meretrício. Morei uma vida inteira em um prédio com frente para a Presidente Vargas e janela para a Riachuelo com Primeiro de Março. Vi de um tudo. À medida em que me tornava adulto, ao sair do prédio, encontrava personagens aqui e ali, desenvolvendo uma, digamos, camaradagem, que se transformou em algo mais forte quando o Grupo Cuíra fez, bem na esquina da Primeiro com a Riachuelo, um teatro. Como sabem, nossa primeira peça contava a história da zona e tinha no elenco, metade, profissionais do sexo. Ao longo dos nove anos em que ali estivemos a convivência se estreitou em novos espetáculos e ações sociais desenvolvidas. Pessoalmente, fiz amizades e percebi que não julgava ninguém, conversando, ouvindo, ajudando aquelas pessoas, que de volta, me ensinaram a linguagem da rua, contaram histórias, me deram grandes personagens mostrados em meus livros. Foi de enorme enriquecimento pessoal para um escritor que faz da observação, ponto forte de seu trabalho. O que são as pessoas no seu dia a dia, seus sofrimentos e alegrias, perrengues e essas, com a emoção à flor da pele. Dito isso e contando com a passagem do tempo em que o Cuíra saiu dali e no prédio, abandonado, onde surgiu uma “loja de conveniência”, curiosamente chamada “Cuyra”, com a letra ípsilon, paramos primeiro no bar onde encontramos algumas mulheres. Uma, tez bem morena, vestido vermelho gritante, mesma cor nos lábios e algo azul celeste nos olhos. Digo logo que está linda naquele vestido, “vestida para matar”, digo, sem malícia, com carinho, ao que ela abre um sorriso e facilita o início da conversa. Dali fomos a uma casa com meninas à porta. Dizemos sobre as fotografias artísticas, nada para jornal e mesmo assim, uma ou duas se escondem, compreensivamente. Duas vêm conosco e entramos na casa, onde um rádio aos berros está sintonizado na Rauland. Vem a dona da casa e quase rispidamente cobra uma quantia para permitir as fotos. Tudo bem. Cleidiane e Neide nos levam ao primeiro quarto. Bem, não é um quarto e sim a cozinha da casa, bem pequena, com uma portinha para banheiro, usando como porta, um pano. Na cozinha, ao lado do fogão, uma cama. Uma pergunta se as fotos são para os Estados Unidos. De onde vocês são? Neide acha que são para a Europa. Penso na autoestima delas, incrível. São mulheres de 25 a 27 anos, com algum cansaço no rosto, bem acima do peso e logo uma delas tira com alguma dificuldade o vestido de lycra que usava, deitando na cama onde recebe instruções para fotos. Incentivo dizendo que são lindas e claro, o sorriso vem e junto com ele, uma doçura maravilhosa. Neide, quase negra, com seios enormes, também acima do peso, posa na porta do banheiro, atendendo às instruções. Decidem ir até outro quarto e eu prefiro conversar com a dona da casa. Ela ocupa um cômodo que é ao mesmo tempo seu quarto, com cama bem grande, e sua sala de estar, pois tem uma geladeira e um sofá onde dorme um urso de pelúcia que parece ser muito abraçado. Descubro que a conheço. Morava em uma casa do lado do Cuíra. Lembro de ir até seu quarto, bem arrumado, colchas em croché, como uma casa de bonecas. Na época usava dreadlocks imensos, agora cortados. Lembra da turma do teatro, manda abraços. Tem dois filhos adultos e casados, formados em universidade. Sim, se for cliente antigo, ainda faz programa. A essa altura, ela se derrama em doçura, rindo e conversando. Conta-me que entrou nessa vida por pura opção, nada a ver com qualquer desgraça quando mocinha. Trabalha até seis da tarde e pronto. Há outras casas que abrem à noite, até boates. Eu, fecho. A fotógrafa chega e ela se deita espaçosa na cama, para ser fotografada. Voltem sempre, me diz… Penso que por alguns minutos, a vida ficou diferente, ali. As profissionais do sexo levam uma vida amarga, um eterno esperar. E quando chega alguém, é qualquer um, não escolhido, claro. Tornam-se repositórios das mágoas, ódios, alegrias e decepções daqueles que pagam. São tratadas como coisas e de repente, precisam beber, até ficar bêbadas, se o cliente assim quiser, de manhã cedo. Algumas voltam para suas casas e cuidam dos filhos. Falei com outra, das antigas, não faz mais programa, vende bombons e outras cosas mas.., está doente mas me diz: tenho de vir, sou pai e mãe. Outra, amigona, chega pontualmente às oito da manhã, mas agora, já aos 52 anos, tem fregueses velhinhos e diz que vem mesmo é porque não vai ficar em casa sem fazer nada. Todas, ao receber um tratamento doce, digno, simpático, abrem-se como flores e desfrutam dos momentos em que parecem viver em um mundo, feliz, que talvez pensem ser o nosso, nós que parecemos não dar muito valor à beleza da vida. Beijos, fotos, abraços. Voltem sempre!

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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