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Chiquinha Gonzaga é, na minha opinião, uma das personagens mais incríveis da história da música e uma pioneira do feminismo decolonial muito antes de sequer haver o termo. Sua vida já começou de uma forma nada convencional para os meados do século XIX, no Rio de Janeiro: seu pai, branco e de família aristocrata, casou com sua mãe, que era filha de uma mulher alforriada da escravidão, depois de seu nascimento.

Mesmo contrariando a opinião da família e da sociedade da época por amor, o pai de Chiquinha – que era afilhada do Duque de Caxias – a criou dentro dos preceitos de sua família “tradicional” e a obrigou a casar aos 16 anos com um marido que a proibia de praticar a música. Ela, que havia estudado piano desde a infância, não suportou a situação e separou-se – e sabemos o tamanho do escândalo que isto configurava- na altura. Renegada pela família e com a guarda apenas do filho mais velho (os dois menores lhe foram tirados), Chiquinha começou a lecionar piano para sobreviver. Casou mais uma vez, desta vez por escolha própria, separou-se novamente por não admitir o comportamento machista e as traições do marido e teve mais uma filha afastada de sua criação.

Apesar da tentativa de branqueamento da sua formação por parte de seu pai, Chiquinha (que tinha a pele clara) teve muita influência da cultura materna, que a apresentou para as rodas de ritmos musicais afrodescendentes e à cultura negra brasileira. Era uma mulher intelectual, engajada, militante contra a monarquia e a escravidão (no seu pouco tempo livre ia de porta em porta vender revistas para angariar fundos para estas causas), emancipada, boêmia, e que quebrou diversos paradigmas. Foi a primeira mulher a tocar piano em uma roda de choro; a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, em 1888 (e, por sua causa, o verbete maestrina foi adicionado no dicionário da língua portuguesa); compôs a primeira marcha de carnaval com letra (Ó Abre Alas, em 1899); é considerada a primeira compositora popular do Brasil (inclusive o Dia da Música Popular Brasileira é comemorado na data de seu aniversário, 17 de outubro) e chocou a imprensa e a sociedade ao levar o maxixe, ritmo afrobrasileiro, para o Palácio Presidencial – principalmente porque a primeira-dama, Nair de Teffé (a primeira caricaturista mulher do mundo e sua grande amiga) a acompanhou no violão.

Chiquinha foi uma figura ímpar na história do Brasil, porém não podemos nem comparar a atenção que é dada à sua obra em comparação a outros artistas homens como Carlos Gomes, Villa-Lobos, Tom Jobim… O silenciamento histórico de personagens femininas é um fenômeno mundial e a luta contra as políticas coloniais e suas imposições sociais agravam a situação de quem nasceu no hemisfério sul do planeta. Chiquinha, aos cinquenta e dois anos, apaixonou-se por um músico trinta e seis anos mais jovem, com quem foi viver em Lisboa, Portugal, e ao lado do qual morreu, já de volta ao Brasil, no início do carnaval de 1935.

Das mais de duas mil composições de sua autoria, em “Cais”, Salomão Habib e eu escolhemos interpretar Lua Branca, da opereta Forrobodó, que é recordista no Brasil em récitas seguidas até hoje: foram mil e quinhentas. Espero que gostem de ouvi-la o tanto que gostamos de interpretá-la.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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2 Comentários

  1. Linda memória, Gabriella!
    Assim é feito o Brasil que precisamos contar e cantar.
    Grata pelo belo texto!

    1. Obrigada, Shirlei querida! 🌹❤️

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