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Tenho a impressão de que em pouco tempo enlouqueceremos todos, perderemos o bom senso e o juízo, tamanha a canseira mental que nos impõe a velocidade da vida moderna. O principal culpado, sem sombra de dúvida, é o telefone celular, que aliás já nem devia ser chamado de telefone, tantas são as possibilidades que agrega. Além da antiga e cada vez mais anacrônica função de falar com alguém, o malfadado aparelho faz hoje as vezes de agenda, relógio, calculadora, máquina fotográfica, computador, escâner, localizador, mapa, agência bancária e tradutor, entre tantas outras coisas, num número infindo que varia conforme a aptidão do usuário.

Arrisco-me a dizer que o celular ultrapassou o bombril, indo além das mil e uma utilidades. O problema não está aí, o problema está nas inutilidades com as quais infesta o nosso cotidiano, viciando hábitos, pervertendo lógicas e criando um mundo de ilusões. Dentre estas inutilidades, a maior me parece ser a exposição desmedida da intimidade das pessoas, a traduzir o abandono de um valor fundamental à preservação da razão, qual seja a privacidade, a benção que existe no anonimato.

O celular, especialmente em razão do mau uso das redes sociais, elevou o exibicionismo, a egolatria e a fofoca a níveis estratosféricos, numa potenciação que desafia a matemática e que, ao fim e ao cabo, não demonstra produzir bons resultados. Não tenho as análises estatísticas, mas me arrisco a associar diretamente este fato aos distúrbios sociais e psicológicos que têm nos afetado com frequência crescente, sobretudo entre crianças e adolescentes.

É inegável que temos todos que nos expor em certa medida, afinal vivemos em sociedade e não nos é dado prescindir das ferramentas tecnológicas disponíveis, em muitos aspectos positivas e facilitadoras. Também é certo, como escreveu o ensaísta e editor argentino Alberto Manguel no belo prefácio redigido para “O filho de mil homens”, obra de vulto do português Valter Hugo Mãe, que “cada um de nós é um reflexo da visão do outro (…) que existimos no olhar dos nossos contemporâneos”, e que essa interação nos é cara e salutar – “isolada, cada personagem sofreria com a sua desolação e angústia numa cela silenciosa; ao confrontar-se com as outras, a angústia transforma-se em regozijo e a solidão em afeto” -, mas será que não estamos nos arriscando demais, ultrapassando limites, perdendo o tom e atravessando a melodia? Será que não estamos retrocedendo? Será que não estamos preocupados demais com a vida alheia, explicitada sem pudor ou cautela nos telefones celulares que temos em mãos por horas a fio?

O que temo, em essência, é que esse contato maciço e excessivo com a vida dos outros, ao invés de nos arejar a mente e abrir ao diálogo, acabe gerando efeito contrário, adverso. Intolerância no lugar da benevolência, preconceito onde deveria haver complacência, inveja ao invés de altruísmo, ódio ocupando o espaço da mansidão. Num país tão dividido e desigual, que perigosamente vem se habituando às animosidades e ao acirramento dos ânimos, não é difícil que isso aconteça.

Veja-se, por exemplo, o recrudescimento dos julgamentos morais, a criar autênticos apartheids sociais, econômicos, culturais, raciais e étnicos. Já não somos brasileiros conversando ou mesmo discutindo entre si, somos interlocutores cada vez mais segregados uns dos outros: brancos contra negros, homens contra mulheres, ricos contra pobres, héteros contra homos, cisgêneros contra transgêneros, nortistas e nordestinos contra sulistas e sudestinos, católicos contra evangélicos.

Note-se, ainda, como esse quadro toma corpo institucionalmente, dando azo à políticas públicas ou iniciativas legislativas absurdas, extemporâneas e inadmissíveis, verdadeiras odes ao arcaísmo, como é o caso da recente aprovação numa das comissões da Câmara dos Deputados, por 12 votos a 5, de um projeto de lei que proíbe o casamento e a união estável entre pessoas do mesmo sexo, relegando-as à condição de contratantes a quem cabe apenas o direito de regular relações patrimoniais, e não o direito constitucional e irrenunciável à felicidade.

Um despropósito que não se pode recepcionar sem medo, sem temer por nossa involução enquanto nação que se pretende civilizada, progressista, atenta à saúde social e aos direitos humanos fundamentais.

É preciso parar, respirar, desligar o celular e voltar à vida real. Não é simples e nem é fácil, estamos todos viciados, em dependência digital. É quase como dizer a um tabagista severo para abandonar o cigarro, mas é possível e é necessário. Se tentarmos nos sobrará mais tempo para as boas coisas da vida, para as conversas em família e entre amigos, para o bom papo nas mesas dos bares, para a leitura de tantos bons livros, para a recuperação da nossa capacidade de atenção e concentração, hoje bitolada e reduzida a poucos toques e a não mais que 50 segundos – prova evidente do enlouquecimento paulatino…

Por fim, ainda no terreno pantanoso dos ódios nossos de cada dia, aproveitando a menção feita ao livro do Valter Hugo Mãe, editado no Brasil pela Biblioteca Azul, eu gostaria de citar um trecho significativo como manifesto contra a atitude irascível, pedante e deseducada do magistrado local que destratou a advogada que, prestes a dar à luz uma criança, requereu o adiamento do julgamento de que pretendia participar, honrando o mandato e a confiança do cliente.

Disse o nobre julgador, ao indeferir o pleito, que “gravidez não é doença, adquire-se por gosto.” Sem deixar de registrar a grosseria, e por que não dizer a misoginia, o que mais assusta é a constatação da insensibilidade. No dia em que a beleza que há numa mulher grávida deixar de nos comover e enternecer, bem mais próximos estaremos da bestialidade.

“O Crisóstomo pensava que o corpo dos homens estava condenado a uma tristeza maior, como se fosse o corpo fraco da humanidade, o corpo menor. O corpo triste. Pensava que a pele deveria ser mais terra, e sonhava com fazer nascer árvores no peito e flores pelos braços e ter rios a correr por sob as pernas e entornar nas coxas giestas fartas e um milheiral inteiro. Sonhava que atirava sementes de girassol sobre si e que se pacientava durante uma estação até ver como todo ele procurava o sol, florescendo como um lugar onde a vida se vinha fazer nascer. Sonhava que haviam de ser perfeitas as muIheres por serem escolhidas para a maternidade, a construírem pessoas dentro de si. As mulheres construíam as pessoas meticulosamente, sem sequer olharem ou se preocuparem demasiado com isso. Construíam-lhes cada osso, cada veia e cada fio de cabelo. E depois abanavam-se e provocavam o embalo das águas interiores que suavemente desenhavam os dedos das pessoas a construir. O Crisóstomo pensava que as mulheres assinavam cada filho. Assinavam na pele de cada filho, nunca repetindo entre elas os códigos com que para sempre distinguiam, uma a uma, as pessoas que construíam.”

Albano Martins
Albano Henriques Martins Júnior é paraense, nascido em Belém em 1971. Advogado cursando especialização em Literatura na PUC/RS (EAD). Guarda de Nossa Senhora, foi membro da Diretoria da Festa de Nazaré entre 2014 e 2023, Coordenador do Círio no biênio 2020/2021, os anos da pandemia. Mantém no Instagram uma página recente sobre livros (ler_e_lembrar).

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