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Assisti a pequenos trechos da entrevista que os manos Caetano e Bethania concederam a um programa da Globo na tarde de sábado. Eles vão circular pelo Brasil em um grande show e por isso estão fazendo um tour pela mídia. Não vou ao show. Pelo preço, pelo aglomerado de pessoas e celulares, pelo som do local. Um comediante convidado, disse que eles eram como seus pais, tanto que influenciaram em sua vida. Isso me tocou. Caetano, especificamente é o ídolo de minha juventude. À Bethania, todo meu respeito, desde o início.
Quando comecei a trabalhar em rádio, já havia na discoteca um compacto do baiano, gravado pela RCA. E ele começou a aparecer em programas de televisão, todo discreto, travando batalhas maravilhosas com Chico Buarque e outros grandes em “Esta Noite se Improvisa”. O apresentador dava uma palavra e quem apertasse primeiro o botão, cantava uma música onde estaria a palavra escolhida. E de repente vem “Alegria, Alegria” e o mundo nunca mais foi o mesmo, para mim. Se a televisão mostrava, mesmo com delay de alguns dias e em p&b, chegaram os discos e a Tropicália. E eu já largara os Beatles e estava com Hendrix e Joplin. Deu match. Maria Bethania, a essa altura, gravara o disco “Maria Bethania Vianna Telles Veloso”, com um repertório sensacional, onde está um clássico (para mim), que escuto sempre, “Olha o tempo passando”. E veio Fauzi Arap com o show “Rosa dos Ventos” e descobre Bethania atriz, declamadora magistral. Caetano e Gil foram para a Inglaterra. Gal ficou com “Legal” e “Fatal”, seus melhores discos e shows. Havia uma série de publicações que chegaram com dificuldade aqui, como Rolling Stone e Bondinho, onde líamos as notícias e opiniões sobre tudo. E íamos atrás para compreender. Caetano ensinava. Quando voltou e fez o show com Chico, lembro de estar na praia, Rio de Janeiro, ouvindo rádios reproduzindo a Mundial, tocando “Diz que Deus, diz que dá, não vou duvidar, ó nega! Caetano requebrava e irritava os conservadores. Comprei uma calça vermelha e um tamanco holandês que ele usava. A calça não usei, porque meus amigos de estudo eram bem caretas e não tive a ousadia. E Bethania continuou seu caminho próprio, cantando Caetano, claro, mas com seu estilo, abelha rainha. “Ah, que esse cara tem me consumido”. Caetano fala sobre cinema, teatro, literatura, política. Eu o entrevistei quando veio com o show “Velô” a Belém. Simpático, disfarçou o incômodo de em cada cidade, talvez, responder às mesmas perguntas. Evitei isso. Tenho todos os discos. Perdoem, mas após o “Fina Estampa”, com uma beleza de repertório latino, seus discos autorais não foram os mesmos. Há, aqui e ali uma ou duas músicas interessantes, mas não tenho gostado, na mesma medida dos anteriores, que são bíblias, até hoje, para mim. Bethânia prossegue viva, bonita, feiticeira, mesclando poesia e músicas lindas. Recentemente Caetano voltou com o “Transa” e todos se apaixonaram. Como se quiséssemos voltar ao tempo e à qualidade daquele repertório. Talvez eu ache que durante o tempo em que viveu na estrada com a Banda Nova, convivendo com jovens, pessoas diferentes, cidades, ele tenha vivido seus melhores momentos e seus melhores discos. As últimas bandas que o acompanham também não me agradam. Mas envelheceu, sabe de seu tamanho, excursiona por Estados Unidos e Europa e agora vai pelo Brasil com a irmã, abelha rainha. Não sei como se comportarão no palco. Better Bethania é tão espaçosa em seus belos shows e ele tem sido econômico em suas manifestações. Tomara que um não engula o outro. Será? Difícil, né. Eles também foram meus pais, sabe?

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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