A expectativa era grande em relação à ida do governador Helder Barbalho à Assembleia Legislativa para a leitura da Mensagem na instalação da 61ª Legislatura. Funcionou como uma espécie de termômetro da Casa, que abriga novos deputados na oposição, e…

Foram empossados hoje na Assembleia Legislativa do Pará os 41 deputados estaduais eleitos para a 61ª Legislatura (2023-2027). Em seguida houve eleição para a Presidência e a Mesa Diretora, em chapa única, tendo sido reeleito praticamente à unanimidade – por…

O governador Helder Barbalho está soltando a conta-gotas os nomes dos escolhidos para compor o primeiro escalão de seu segundo governo. Nesta quarta-feira será a posse dos deputados estaduais e federais e dos senadores, e a eleição para a Mesa…

Pela primeira vez na história, está em curso  um movimento conjunto da Academia Paraense de Letras, Academia Paraense de Jornalismo, Instituto Histórico e Geográfico do Pará e Academia Paraense de Letras Jurídicas, exposto em ofício ao governador Helder Barbalho, propondo…

Cabanas pós-modernas

Quando o nosso Pindorama foi invadido, os colonizadores não contaram conversa em usar a religião católica como arma de dominação das populações originárias, das sequestradas, das escravizadas, e das que foram surgindo como consequência de todas as anteriores. Mas foi num Dia de Reis, data em que o catolicismo comemora a visita dos reis magos do oriente ao menino Jesus, conduzidos pela Estrela até Belém -que é uma polêmica no mundo arqueológico se é a da Galileia ou a da Judéia – em seu presépio, que explodiu nesta Belém de cá (capital da província do Grão Pará, na época, que corresponde basicamente ao que é hoje a Região Norte do Brasil), que foi tomada pelos revolucionários em 1835, a Cabanagem, um movimento popular insurrecional formado maioritariamente pela população indígena, escravizada, mestiça e trabalhadores pobres, que proclamou a independência do Governo Brasileiro, que por sua vez já independente de Portugal.

Não tenho reservas em dizer que a Cabanagem foi o mais importante movimento popular brasileiro, embasada por tantos historiadores e acadêmicos que entendem do assunto infinitamente melhor do que eu, e que a quase completa ignorância deste período tão importante pela população das outras regiões brasileiras, que poderia ter feito da Amazônia um outro país e talvez escrito uma história tão menos corrupta e com desigualdades bem menores, é ao meu ver a prova irrefutável de que o colonialismo interno disputa mano a mano com o europeu a culpa da exploração e subjugação da Amazônia. Muitas famílias celebram o Dia de Reis, porém não relembram a importância da revolução cabana na nossa história regional e nacional e do quão necessário é que a tomemos como inspiração de união social ainda nos dias atuais.

Quando decidi dedicar a minha pesquisa de doutoramento à representação feminina decolonial na Amazônia, deparei-me com a tese da Professora Dra. Eliana Ferreira, publicada em 2010 e, no meu conhecimento, o documento mais completo que resgata o papel feminino no direito à terra pós-Cabanagem e, consequentemente, no próprio período cabano, ao apresentar provas de que as mulheres foram protagonistas também da revolução, inclusive dos conflitos armados. Não é novidade o nosso silenciamento histórico, desde que as icamiabas viraram feiticeiras perversas pelas representações de europeus que não mediram esforços para replicar do lado daqui do oceano o patriarcado que (ainda) é alicerce da dominação do povo, mas muito me assusta quem em 2023 ainda relativamente pouco produzamos e propaguemos conhecimento sobre a participação feminina na revolta cabana.

Palestra "Mulheres Cabanas: Memórias e Contemporaneidades", pela Professora Dra. Eliana Ramos e com a ouvidora-geral do município de Belém Márcia Kambeba

Começamos o ano com um discurso no qual o presidente da república prometeu governar igualitariamente para todo o país, depois de quatro anos obscurantistas já iniciados com o anúncio feito pelo inominável (agora foragido) de que “as minorias iriam se curvar para a maioria” – quando sabemos que, na verdade, esta dita “maioria” odiosa é que é a minoria em nosso país. Como amazônidas, comemoramos a criação do Ministério dos Povos Indígenas e a primeira presidência indígena da FUNAI, lideradas por duas mulheres indígenas da Amazônia, a deputada federal eleita maranhense Sônia Guajajara e a primeira mulher indígena advogada e deputada federal do Brasil, a roraimense Joenia Wapichana, respeitadas internacionalmente pela relevância de seus ativismos; comemoramos a volta de uma mulher cabocla, também amazônida, Marina Silva, como Ministra do Meio Ambiente; comemoramos a criação da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, que será presidida pela jornalista travesti cametaense Symmy Larrat, uma mulher trans amazônida pioneira que já foi coordenadora-geral de Promoção dos Direitos LGBT do governo Dilma Roussef e coordenadora do programa Transcidadania quando Fernando Haddad era prefeito de São Paulo. Foi impossível conter as lágrimas com a presença do Cacique kayapó Raoni Metuktire no grupo que representou o povo brasileiro na entrega da faixa presidencial, subindo de mãos dadas com Lula a rampa do Palácio do Planalto.

Mesmo com essas mudanças significativas e muito apreciadas, ainda não estamos perto de ocupar lideranças nacionais proporcionalmente à nossa população e à nossa contribuição para o país. Como atleta – ainda que amadora – me enchi de esperança com a nomeação de Ana Moser, por ter a convicção de que a inclusão do esporte é essencial para a melhoria da qualidade de vida da população de todas as idades, e aguardo ansiosa o anúncio de políticas públicas voltadas para as populações da região Norte, principalmente para as mulheres, que mesmo nas ligas de elite internacionais ainda são negligenciadas e menos remuneradas que seus pares masculinos. Como cantora profissional, cineasta, professora e pesquisadora em ciência e tecnologia das artes, vibrei com a nomeação de Margareth Menezes, uma das grandes divas brasileiras, na minha opinião, para o Ministério da Cultura, mas não consigo entender como ainda não foi anunciado nenhum nome da Amazônia quando a importância e originalidade de nossas artes são o berço do Brasil e temos nomes tão significativos como Zélia Amador de Deus, para citar só uma pessoa, entre muitas.

Precisamos revisitar a Cabanagem com um olhar mais aguçado e numa dimensão mais profunda para entendermos que nós, mulheres da Amazônia, sempre ocupamos um lugar fundamental na sociedade e suas lutas e que não podemos descansar enquanto não ampliarmos e amplificarmos o nosso protagonismo nas lideranças públicas, pois só assim conseguiremos justiça social e equidade para todas nós nos ambientes urbanos, rurais, florestais e litorais. Neste aniversário de 188 da nossa grande revolução popular precisamos vestir o chapéu de cabanas pós-modernas: mas ao invés de carregarmos armas mortais, usarmos a união de nossas forças para promover o acesso universal ao básico que ainda é utópico: vidas dignas.

Imagem que restringe erroneamente o papel feminino na Cabanagem. Fonte: ilustra cabanagem – Arquivo Aventuras

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