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Gosto da noite. No texto da peça “Abraço”, o personagem interpretado por Cláudio Barradas diz “gosto da noite. Gosto de reinar sobre essa multidão de corpos inanimados, respirando forte”. Não sou assim. Durante a maior parte da minha vida fui solar. Bem, nem tanto, pois apesar de estar bem acordado durante o dia, estava a maior parte do tempo trancado em uma sala sem janelas, trabalhando. Havia muitos afazeres, nas mais variadas áreas. Havia muito a saber, aprender, criar. E ainda era corredor de rua e lembro muito bem da alegria que me batia quando a luz do sol, nascendo, iluminava as ruas. Me enchia de alto astral. Mas, aos poucos, fui dormindo cada vez mais tarde e percebendo a riqueza da noite. A programação da tv é melhor. Há mais silêncio e o vento noturno é uma delícia. Muitas vezes tenho vontade de descer sozinho e andar por aí, sentindo o vento batendo no rosto. Infelizmente, dia ou noite, as ruas andam bem perigosas. Saio com amigos, vamos a alguns bares para conversar por longas horas. Me incomoda quando há música ao vivo. Nada contra a música, maravilhosa, nem quanto aos “operários da noite”, como o Edgar apelidou Pedrinho Cavalero, mas é que a maioria confunde o tocar para distrair, fazer um fundo musical, com um show. Se fosse show, iria para assisti-los com a maior alegria. Mas o som é alto, bem alto e conversamos aos gritos. Gosto do Savieira. O som é alto, mas há shows anunciados e gosto de jazz. Os amigos bebem sua cerveja. Não bebo. Eles me entendem e sabem que acompanho a temperatura da conversa. Pedro Galvão me disse que sou um “temulengo”, dessas pessoas que não bebem mas entram no clima dos outros e está tudo certo. Aqui no centro, Belém está dormindo cedo. Restaurantes e muitos bares fecham à meia noite. Devem ter suas razões, mas há sempre um lugar. O Roxy é um deles, mas na “Loura”, quando sentam no canteiro que divide as pistas da Marquês, não há hora para fechar. Só fui uma vez. Na minha idade, gosto de um conforto. Em Joinville, às dez da noite tudo está fechando. É a cultura da cidade, alemães que precisam acordar mais cedo para trabalhar. Também, na eterna crise econômica em que vivemos, parece não compensar pagar horário noturno aos garçons. Sim, já fiquei acordado muitas vezes até o sol nascer. Lembrei daquela música “até bem cedo, esperei pelo telefonema, tapando com peneira, o sol que vai nascendo”. Escrever à noite também é muito bom, mas confesso, não tenho horário certo para escrever. Cada livro, cada peça, cada crônica veio em horário diferente. Também já deitei para dormir e a Literatura me chamou de volta ao teclado para somente me deixar retornar à cama após desenvolver a idéia que veio. Vou para a janela e me perco olhando para a noite. Os prédios, as ruas vazias, vez por outra passando um veículo. Lá adiante, o sinal de trânsito, coitado, surja ou não um carro, trabalha sinalizando. E em algumas ruas, ainda temos aquele guarda noturno que passa com seu apito poético, carinhoso, e uma melodia que sugere um pode dormir que tudo está tranquilo. Em outras, vigilantes de moto passam de um lado para o outro. No tempo da pandemia, o que assustava era a sirene das ambulâncias levando doentes aos hospitais. Olhamos, ouvimos e lançamos uma prece silenciosa para quem vai ali, sabe lá como. Quando viajamos, damos uma leve soneca e já estamos de pé, banho tomado, roupa e mala nas mãos. Chamamos um uber e vem aquele motorista em plena atividade, vivendo seu dia. No aeroporto há uma frenética atividade de um lugar que nunca dorme. Solidão, mesmo é no Galeão, Rio de Janeiro. Um prédio gigantesco e moderno, completamente deserto. Uma tristeza imensa. Ih, olha que horas são. Acho que vou dormir. Boa noite.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte.

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