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O caso do livro que estou lendo se passa na Viena de 1898. Nas ruas, carros misturam-se com carruagens. O Imperador Francisco é contra a modernidade. Todos os documentos a ele dirigidos precisam ser escritos manualmente e não nas recém inventadas máquinas de datilografar. Há crimes a serem resolvidos e no desenrolar dos acontecimentos surge a Imperatriz Sissi, assassinada. Isso não sabia. O povo era dividido entre sua beleza e seu comportamento pouco adequado aos costumes. Ela teria sido morta por estar investigando a morte do irmão de Francisco, que teria cometido suicídio. Já havia lutas políticas em um mundo em movimento, com a derrubada de imperadores e o surgimento do socialismo.

Sissi assassinada? Romy Schnneider foi meu primeiro crush. Assisti aos filmes da série “Sissi” que correram mundo. Ela era perfeita e eu juntava as personalidades, achando que Romy era como Sissi. Adiante, mais taludo, apaixonei-me de verdade ao assistir “A Piscina”, com Romy, Alain Delon, Maurice Ronet e Jane Birkin. Sim, também me apaixonei por Jane. Até hoje, lembro disso ao ouvir no carro “Comment te dire adieu”, que ela gravou, música de Serge Gainsbourg.

E, aproveitando o clima, já lembrei de “F… comme Femme”, com Adamo, que embalou meu primeiro amor platônico. Já estava nos meus 18, 19 anos quando, em uma sessão das dez da noite, sexta feira, no cine Palácio, assisti a um filme – nunca lembro o nome – com Orson Welles, que surgia, brincando com bolas de sabão, creio, ao som de “La Mer”, com Charles Trenet, que amo até hoje. Mais ainda, a trilha de “Vivre pour Vivre”, filme de Claude Lelouch (está certo?), todas as músicas que ainda ouço de vez em quando. Somente tempos depois assisti ao filme. Tempos românticos.

Havia também “Aline”, com Christophe, Jane e Serge em “Je t’aime” e “La Decadanse”. Muitos outros. Minha amiga Oriana Bitar me apresentou músicas mais recentes, dos novos artistas e eu gostei muito. Mas ao ouvir “Comment te dire adieu”, vêm as lembranças de uma adolescência de muito romantismo, alma sonhadora, ingênua e alimentada por uma timidez avassaladora. Onde ainda posso assistir “Les uns et les autres”? Procurei e não encontrei “Barry Lyndon”. O cinema mudou bastante, refletindo os novos tempos, com cenas mais rápidas e os americanos sempre mostrando sua competência em explodir cidades e monumentos, com os mocinhos escapando sem arranhões. Ou super heróis que assistia aos doze anos mas que agora são idolatrados por adultos.

Vinha pensando nisso tudo enquanto dirigia no trânsito infernal pré natal. Pensando que a selva invadiu a cidade. Por um lado, não importa o quanto imbecis derrubem as matas, a natureza renasce impávida. Concreto não gera semente. Belém é uma selva de concreto fincada na maior floresta tropical do mundo. Se dependesse da natureza, não estaríamos aqui. Outro lado da questão é o nosso primitivismo, brigando contra a evolução do mundo, no que diz respeito à Educação e Cultura. Nosso tecido civilizatório está esgarçado. Nosso egoísmo quanto aos nossos objetivos estão acima dos mais simples comprometimentos de uma vida em comum. Penso nos animais da floresta em sua convivência tranquila, ao contrário de nós.

Caminhões e carros comuns em filas triplas. Motociclistas e ciclistas impondo sua vontade. Governos que não conseguem gerir grandes e complexas cidades, sem oferecer empregos justos, moradia, saúde, educação e cultura. Há uma guerra civil não declarada, alguns com armas, outros com imposição de suas vontades. Aqueles que por sorte do destino contam com Educação e Cultura são olhados com desdém, até com ressentimento por aqueles que são selvagens, cretinos e têm orgulho disso. A polarização política que vivemos é uma demonstração clara disso. O modo de fazer política no Brasil está falido. Brasília representa o pior dos ânimos brasileiros espraiando-se pelo país. Todos aguardamos um porvir que precisa vir de nós mesmos. E nos quedamos, impassíveis, cada um cuidando de salvar o seu quinhão. Chega. Volto a me ligar na música, que me transporta para lugares mais felizes. Feliz Ano Novo a todos.

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

No ano que vem, MELHORE.

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