O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Chicão, convocou e empossou Torrinho Torres, primeiro suplente do Podemos, na vaga do deputado Igor Normando, que está licenciado para exercer o cargo de secretário de Estado de Articulação da Cidadania. O novo parlamentar…

Reconhecimento máximo da Associação Paulista de Críticos de Artes a obras de Literatura, Música popular, Arquitetura, Artes Visuais, Cinema, Dança, Rádio, Teatro, Teatro Infantojuvenil e Televisão, o Prêmio IPCA, anunciado na segunda-feira, 6/2, contemplou o livro de contos “Eu já…

A sesquicentenária samaumeira que perdeu seus galhos na madrugada desta segunda-feira (6) é memória afetiva de todos os paraenses e até de gente de fora do Pará e do Brasil que frequenta Belém durante o Círio de Nazaré. Localizada em…

O Tribunal Regional Eleitoral do Pará oficializou o resultado da eleição suplementar em Viseu 39 minutos após o encerramento da votação. Foi eleito prefeito Cristiano Vale (nº 11 – PP – Voltando pra Cuidar da Gente) e vice-prefeito Mauro da…

A cultura é um contexto

A cultura é um contexto – essa inter-relação semântica que faz as coisas terem sentido. No meu atual contexto de vida, digo que: aconteceu, estreou The Crown e eu não tenho a menor perspectiva de quando minhas filhas vão dormir mais de 4h seguidas para que eu consiga assistir. Eu sei, tento racionalizar que é um absurdo existir realeza. Pleno 2022. Mas me deixa gostar da Diana. Ela é um símbolo. De cabelos loiros, injustiçada e melancólica. Era viva, está morta. Tipo o quadro Girassóis, do Van Gogh, que foi pintado em 1888, com um pigmento amarelo luminoso incrível, inovador para a época. O novíssimo amarelo cromado hoje é um amarelo pálido, quase marrom. Vincent pintou o quadro no auge da sua amizade com Paul Gauguin e quadros de girassóis foram feitos para decorar a sala do pintor francês em Arles. Amor simbólico. Paul Gauguin simbolizava esperança e vida para Vincent. Ver Girassóis pessoalmente é sentir uma energia vital e se impressionar com a qualidade tridimensional da obra. Monet pintava o que via. Van Gogh pintava o que sentia. Dizem os historiadores de arte que a cor amarela nos quadros do pintor holandês pode ser resultado da utilização de uma substância chamada “dedaleira”, prescrita por seu médico para amenizar as crises de depressão. Tal substância, se consumida em excesso, pode desenvolver uma alteração das cores vistas e tudo se torna amarelado. Tipo um filtro. Van Gogh tinha o seu individual, mas também existem os filtros coletivos que nos fazem enxergar o mundo de maneira parecida. Mas a cultura é um contexto e a arte busca romper esses filtros. Ou, quando não o faz, serve de veículo para isso. O Just stop Oil está aí para provar que a arte ocupa um lugar de destaque no coletivo imaginário. Trata-se de um movimento britânico ativista contra os projetos de extração de petróleo e gás no Reino Unido que ganhou notoriedade e conhecimento mundial nas últimas semanas. A causa deles é nobre. Mas tem causado preguiça e aborrecimento – no sentido figurado, ranço.

Nesta semana completa-se um mês do dia 14 de outubro, uma sexta-feira em que duas garotas com cabelos curtos e vestindo um sobretudo preto entram na National Gallery, em Londres. Estão sérias, não foram ali apreciar arte moderna ou contemporânea. Não se importam com o amarelo cromado, esculpido em uma pintura de 1888, mas se dirigem ao seu destino, um objeto que custa quase 85 milhões de libras, 506 milhões de reais. A garota inglesa de cabelo curto e cor de rosa lembra-se das cifras e uma revolta a invade quando chega em frente a ele. Era Girassóis. Um Van Gogh – que há muito deixou de ser substantivo, nome próprio, virou adjetivo. A garota, então, tira o sobretudo, cola sua mão na parede e questiona: “O que vale mais, arte ou vida?” Símbolos. Bingo. Tudo gira em torno de símbolos. O Just Stop Oil já escreveu petições ao governo, marchou com cartazes na mão, nada funciona. Resolveram então utilizar a arte para chamar a atenção. Sem o objetivo de destruir as obras, eles utilizam a instrumentalização da imagem das mídias sociais. Comunicam, ainda que as atitudes do governo ou da população não sejam alteradas. Particularmente, sei que as mudanças climáticas são reais e apavorantes e, embora também saiba que os museus podem assumir um lugar de vanguarda e ativismo, no meu imaginário as obras são intocáveis. Mas, a cultura… lembra? Ela é um contexto e no imaginário coletivo os museus também são locais sagrados. Guardam nossos testemunhos mais ricos e guardam também a ideia generalizada de que nossa civilização está ali representada. No dia 14 de outubro de 2022, vi Girassóis sendo atacado com uma sopa de tomate e achei, naquele momento, uma atitude legal. Eles não danificaram a obra e passaram sua mensagem tendo a arte como veículo. Mas então vi ataques às obras de Monet, Leonardo da Vinci, Goya, Andy Warhol. O ranço se instalou. Estão mexendo na nossa ordem simbólica e todo mundo sente um pouquinho de ataque pessoal. Eu também sinto. Por quê?

Porque a arte funciona, ainda que assuma vários sentidos e meios em cada sociedade. A cultura é um contexto. No meu contexto de vida, quero ver novamente os Girassóis de Van Gogh. Estão pálidos, mas persistem no tempo. Também quero ver The Crown, o símbolo da princesa, e reviver na memória os cabelos loiros e vivos de Diana. Só que esses…. não existem mais.

https://www.theguardian.com/environment/2022/oct/29/just-stop-oil-protests-roadblocks-activists-direct-action-climate
https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/girassois-van-gogh/
https://vogue.globo.com/cultura/series/noticia/2022/10/the-crown-tudo-sobre-a-5a-temporada-da-serie.ghtml

Compartilhar

Share on facebook
Share on twitter
Share on pinterest
Share on vk
Share on tumblr
Share on pocket
Share on whatsapp
Share on email
Share on linkedin

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *